Casa Gucci: ciúmes, ostentação e clichês

Casa Gucci nos traz uma história marcada por paixões, sucessos e tragédias. Com toques novelescos e quase como um prazer culpado, Ridley Scott nos apresenta uma das histórias mais obscuras do mundo da moda.
Casa Gucci: ciúmes, ostentação e clichês

Última atualização: 15 abril, 2022

Às vezes, a realidade pode ser muito mais bizarra e grotesca do que a própria ficção. Portanto, não é nenhuma surpresa que os cineastas, ao longo da história, tenham decidido adotar uma infinidade de obras “baseadas em fatos reais”. Podemos encontrar um dos seus exemplos mais recentes no último longa-metragem de Ridley Scott: Casa Gucci.

Não é necessário ser um fã das passarelas para reconhecer a empresa italiana, embora talvez a história familiar por trás do nome possa ser surpreendente para muitas pessoas, especialmente para o público mais jovem.

Gucci não é um nome que passa despercebido. Trata-se de um nome que associamos ao luxo e à alta costura, mas também é provável que nos lembre das infinitas falsificações presentes em uma sociedade baseada nas aparências.

E é justamente nas aparências que vamos colocar o foco. Afinal, Casa Gucci não é uma bolsa de grife, mas sim uma imitação perfeita. Ou seja, um exemplar idêntico ao original que observamos com um misto de prazer e desconfiança. Algo que não tem a pureza do original, mas que quase não podemos distinguir.

Scott nos apresenta uma história trágica transformada em comédia, revelando os meandros de uma das famílias mais importantes da Itália na época. Porém, o seu olhar, longe de ser um reflexo, torna-se distorcido e ridículo. Será que os Gucci eram realmente assim?  

Veja aqui o trailer.

Entre a realidade e o costumbrismo

O complicado do “baseado em eventos reais” é que, apesar do que possa parecer, o produto pode ser muito diferente da realidade. Um cineasta pode se inspirar de forma total ou parcial em um evento real e adaptar a obra de acordo com a sua vontade, com mais ou menos modificações, com mais ou menos licenças poéticas.

No caso de Casa Gucci, encontramos um Ridley Scott que se esforça exaustivamente com a mise-en-scène, mas que se perde nos personagens. Com um Scott que, longe do realismo, abraça o costumbrismo. O costumbrismo, apesar das semelhanças que possa guardar com o realismo, tem foco nos hábitos e no folclore de uma época específica, mas sem prestar muita atenção aos detalhes. Seria, grosso modo, como uma fotografia, um espelho que desenha a realidade, mas que permanece apenas na imagem, sem ir muito além.

Por sua vez, o realismo se encarregará de analisar o pano de fundo dessa imagem, de compreender as motivações por trás dos atos e movimentos de seus personagens. Retomando a comparação que fizemos no início, o costumbrismo seria aquela bolsa Gucci que, a princípio, é algo que nos agrada e parece original, mas, quando prestamos atenção nos detalhes e nas costuras, percebemos que se trata de uma imitação.

Casa Gucci delineia uma época reconhecível. Através dos cenários e figurinos, sabemos qual é o momento e o lugar. Reconhecemos até mesmo o status dos personagens, uma vez que não vemos mais a mesma Patrizia que trabalha com o pai quando ela se torna a esposa do herdeiro do império da moda.

Será que Casa Gucci cai no costumbrismo de forma intencional? É provável que o cineasta tenha decidido não se aprofundar demais na história trágica e tenha tentado encontrar uma forma mais cômica, até mesmo grotesca, de narrar os acontecimentos.

Vemos essa intencionalidade descarada em algumas cenas que causam riso no espectador, tais como os encontros sexuais do casal protagonista ou a infinidade de estereótipos italianos que encontramos ao longo do filme.

As paixões

Mulher e homem com seus rostos próximos

O tema central do longa-metragem, sem dúvida, recai sobre as paixões e, mais especificamente, sobre a personagem de Patrizia Reggiani. Lady Gaga mais uma vez demonstra que não é só da música e que o seu talento vai além dos microfones e do palco. Sua atuação como Reggiani é um dos pontos altos do filme e, provavelmente, se não fosse por ela, o filme se tornaria completamente entediante.

Na primeira parte do filme, Scott nos apresenta as origens de Patrizia e o seu primeiro encontro com o homem que se tornaria o seu futuro marido: Maurizio Gucci. Scott se encarrega de nos mostrar o contraste entre ambas as famílias, costumes e culturas, destacando até mesmo a ignorância de Patrizia ao confundir Klimt com Picasso.

Uma história de conto de fadas com toques novelescos à moda antiga: um rapaz de uma família poderosa conhece uma garota de classe média; eles se apaixonam, a família é contra, mas o amor vence.

No entanto, desde o início, esta princesa nos é apresentada como uma mulher que pega em armas – nunca melhor dito -, como uma mulher que fará o que for necessário para conseguir o homem que ama, ainda que isso signifique que ele deve renunciar à enorme herança familiar.

Apesar disso, cabe destacar que ela também nos convida a termos empatia com ela e a vê-la como um personagem mais próximo. Afinal, ela é a única que não vem da elite e, portanto, está mais próxima do espectador.

É especialmente interessante a forma como se desenvolve a sua relação com Pina, uma cartomante com quem forma uma amizade especial. De alguma forma, Scott nos mostra Patrizia como uma mulher puramente passional, embora também controladora e com grandes aspirações.

Graças à personagem Pina, interpretada por Salma Hayek, podemos descobrir os verdadeiros pensamentos e sentimentos da personagem. Assim, conhecemos a verdadeira Patrizia e o trágico desfecho que ambas planejam para Maurizio.

No entanto, em Casa Gucci, não há nem bonzinhos nem malvados. Seria muito fácil apontar um único culpado e não há dúvida de que foi Patrizia quem planejou a morte de seu então ex-marido. Porém, também é verdade que o clã familiar é apresentado de maneira bastante caricatural, quase patética, por meio de personagens como Paolo Gucci, interpretado por um irreconhecível Jared Leto. Uma família marcada pela ambição que acabará desmoronando por causa dos caprichos dos mais jovens do clã.

A corrupção corre solta no império da moda, nenhum dos protagonistas está a salvo e todos parecem se deixar levar pelas tentações e excessos que o luxo e o poder colocam diante de seus olhos.

pessoas reunidas

Ciúmes e clichês em Casa Gucci

O ciúme marca essa história que, entre o trágico e o cômico, acabará traçando a pior das tragédias. É interessante porque Scott não parece levar o seu filme ou os seus personagens muito a sério. Ele se deixa levar, assim como eles, pelos excessos e pela ostentação. E, no entanto, embora às vezes pareça pouco confiável para nós, Casa Gucci consegue prender a nossa atenção porque todos acabamos sucumbindo a esse prazer culpado.

Um prazer culpado porque, sem dúvida, estamos assistindo a uma caricatura. Apesar dos excessos e do custo do filme, estamos diante de uma história que poderíamos ter encontrado na mais exagerada das novelas.

Porém, isso não poderia estar mais longe da verdade. Casa Gucci tem suas raízes em uma história trágica que pertence a um passado não tão distante. Uma história que, motivada por ciúmes, ambição e paixões, acabou por destruir um império e tirar uma vida; inocente ou não, mas, de qualquer forma, uma vida humana.

Scott não propõe um mar de lágrimas nem desenha a morte de Gucci de maneira triste, como foi feito com outros designers, tais como Gianni Versace. Aqui, todos são culpados. Cada um dos membros desta família parece ter contribuído, direta ou indiretamente, para este final trágico que, no entanto, não parece muito pesado para nós, como espectadores.

Talvez os clichês não nos ajudem a acreditar na história, mas, certamente, fazem com que ela se torne divertida. Se você assistir ao filme em inglês, é muito provável que o falso sotaque italiano possa prejudicar a sua atenção. Talvez filmar a história em inglês tivesse sido uma escolha melhor, uma vez que todos podemos imaginar que os Gucci falavam italiano, mas não um inglês com um forte sotaque.

Scott provavelmente queria fazer um filme divertido. Porém, o “baseado em fatos reais” produz uma série de expectativas no espectador e, talvez, esse seja o problema.

Não, os italianos não bebem espresso o tempo todo. Na verdade, poderíamos dizer que o espresso é quase uma arte, um ritual. De fato, é improvável que um italiano tome um espresso com tanta calma porque, conforme o próprio nome sugere, ele é tomado rapidamente, em um gole só, um simples “shot” de cafeína.

Ainda assim, embora às vezes desajeitado, Casa Gucci acaba se tornando aquela bolsa falsificada que usamos com alegria. Afinal, talvez não possamos nos permitir comprar a original, mas podemos sim apreciar e nos divertir com a sua cópia.

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