O cérebro nos protege de nossas memórias traumáticas

O cérebro nos protege de nossas memórias traumáticas

Abril 23, 2018 em Psicologia 0 Compartilhados
O cérebro nos protege de nossas memórias traumáticas

O romancista americano Richard Matheson uma vez sugeriu que “O nascimento implica o trauma da incompreensão”. Será que este homem quis dizer que o simples fato de nascer já forma a primeira de nossas memórias traumáticas?

Seja como for, você, assim como eu, não se lembra do momento de seu nascimento. Algo normal, da mesma forma que você não se lembra de seus primeiros anos de vida. No entanto, certamente existem outros episódios que, por serem traumáticos, também não estão acessíveis em sua memória. Vamos falar deles.

Experiências e memórias traumáticas

As experiências vividas, especialmente durante a infância, influenciam poderosamente o nosso desenvolvimento. No caso das experiências negativas, o impacto pode ser tremendo. Muitas dessas experiências, uma vez que são episódios vividos e memórias, podem permanecer em nossa mente com um enorme peso. Isto é, impressão emocional que deixam é muito poderosa.

Episódios de abuso emocional ou físico por pessoas próximas, por exemplo, deixam fortes sequelas psicológicas. Nesse caso, o cérebro muitas vezes tende a “sentir-se culpado” e parece que é esse mecanismo que também se encarrega de nos proteger de nossas lembranças mais traumáticas.

“A experiência é uma das causas do sucesso ou do fracasso. Não sofremos o impacto de nossas experiências, chamadas traumas, mas as adaptamos a nossos propósitos”.
-Alfred Adler-

Bolas de ferro destruindo cérebro

Bloqueio de memórias

A psicóloga clínica Lidia García Asensi estabelece um curioso paralelo entre um cérebro e um computador. Isto é, nosso cérebro atuaria processando informações em pastas, que são organizadas e armazenadas. Entretanto, se uma memória que excede sua capacidade chega, ela é salva na forma de experiência vivida em uma rede de memória diferente da usual.

O que a psicóloga entende por esse paralelo? Que as memórias traumáticas que o nosso cérebro é incapaz ou não quer processar, porque foram capazes de alterar-nos em um nível fisiológico e emocional elevado, são isoladas e separadas para que não gerem emoções muito intensas e difíceis de suportar.

Sabemos que experiências muito prejudiciais e traumáticas são capazes de alterar o equilíbrio químico do cérebro. Elas ocorrem quando um evento é muito difícil de digerir e não somos capazes de entendê-lo, portanto, sua aceitação e processamento são altamente complexos.

Esse bloqueio é positivo?

Podemos considerar esse bloqueio cerebral como algo positivo, já que nos protege de traumas e experiências complicadas. No entanto, temos que salientar que nem sempre é esse o caso, especialmente a longo prazo, uma vez que “deixar de lado” não é esquecer ou impedir completamente que uma experiência nos influencie. Estamos falando de um evento real não-processado, isto é, um episódio importante ao qual não demos sentido e que não integramos de maneira positiva e coerente a nossa biografia específica.

Em outras palavras, é possível que um “estímulo desencadeador” apareça na forma de uma nova situação ou experiência, que fará com que esta memória volte à luz. Isso ocorre inconscientemente, porém qualquer mínima coisa, por mais insignificante que pareça, pode reativá-la e nos fazer sentir como no momento do trauma.

É verdade que a maior parte das memórias acabam esquecidas. No entanto, aquelas que se referem a experiências muito intensas nunca são esquecidas, elas só permanecem isoladas e não-processadas, dormindo, anestesiadas. Isso faz com que, por não terem sido contextualizadas e confrontadas, causem um dano muito grande quando reaparecem, já que podem nos fazer sentir, de uma vez, muito mal e terrivelmente desorientados.

Mulher cobrindo seu rosto

Prós e contras da proteção cerebral contra memórias traumáticas

Como vimos, essa proteção automática do nosso cérebro pode nos ajudar ou nos prejudicar. Tem seus prós e contras, embora sempre seja melhor enfrentar um evento traumático e superá-lo. No entanto, isso não é possível se ele não for lembrado, como é lógico.

Por um lado, o cérebro nos liberta do sofrimento que essa memória traumática supõe. Assim, as conseqüências desconfortáveis ​​serão, de alguma maneira, abafadas em no nosso dia a dia.

“Uma vez que o trauma está sob controle, o medo é de pouca utilidade e diminui”.
-Martin Seligman-

No entanto, pode haver momentos em que uma pessoa sinta um mal-estar sem saber o que está acontecendo. Pode ser que haja alguma memória que o cérebro tenha ocultado, mas ainda está influenciando o estado emocional.

Adolescente triste

Não é nada fácil detectar esse tipo de trauma, pois muitos estão bem escondidos, dissociados e até bloqueados. No entanto, é essencial trabalhar as experiências passadas, porque, caso contrário, podemos nos sentir inundados por emoções das quais não sabemos a origem, e por isso, são muito complicadas de controlar.

* Nota de edição: O que foi exposto neste artigo corresponde a um modelo de funcionamento da memória que se adapta bem a muitos casos; entretanto, são necessárias mais pesquisas para descartar outras hipóteses paralelas que também tentam explicar esses fenômenos.

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