Charles Manson: os motivos por trás do culto à maldade

Charles Manson: os motivos por trás do culto à maldade

Fevereiro 1, 2018 em Psicologia 59 Compartilhados
Charles Manson

Este é um verdadeiro enigma para o mundo da psicologia. Entender o porquê do culto e do fascínio obscuro em torno da figura de Charles Manson é um dos grandes desafios que a ciência do comportamento e da personalidade busca desvendar há muito tempo. Charles Manson, que foi o líder fanático da “Família“, vê seu número de seguidores aumentar novamente depois de sua morte.

Isso, sem dúvida, é desconcertante. No entanto, a questão não é nova; desde que ocorreram os julgamentos midiáticos no início dos anos 70, algo foi imediatamente percebido pelos psicólogos, psiquiatras e jornalistas que acompanharam o caso. Manson era capaz de orquestrar uma espécie de fascinação psicológica com a qual conseguia que seus pupilos matassem por ele, e através da qual conseguiu obter um grupo de seguidores devotos em torno de sua figura.

“Meu pai é uma prisão, minha mãe um sistema, eu sou o que vocês fizeram de mim. Eu olho-os e digo a mim mesmo: vocês querem me matar e eu já estou morto. Minha vida inteira estive morto.”
-Charles Manson-

Em 2014, Charles Manson conseguiu uma licença para se casar enquanto cumpria sua sentença de prisão perpétua. A noiva era Afton Burton, uma jovem de 26 anos com quem já se correspondia desde que ela tinha 16 anos. Embora o casamento nunca tenha sido celebrado, podemos ver imagens de ambos, incluindo a transformação estética da moça quando escolheu se parecer mais com seu ídolo, raspando a cabeça e tatuando a famosa cruz em sua testa.

Este fato, as circunstâncias dos próprios assassinatos e todo o incompreensível e injusto culto ao redor de Manson, agora encontram uma nova centelha de energia após a sua morte. O peso de seu nome continua crescendo, criando dúvidas que os especialistas buscam esclarecer.

Ao longo da história da criminologia, há algo que se repete: o mal atrai, o assassino seduz e, o que é ainda mais evidente, os grandes assassinos ou instigadores, como no caso de Manson, continuam a vender e inspirar roteiros para o mundo do cinema e da televisão.

Charles Manson e o culto à maldade

A personalidade de Charles Manson

Algo em que criminologistas concordam é que hoje ainda são mantidos conceitos errôneos em torno da figura de Manson. Quando pensamos no exemplo mais óbvio de assassino em série, para a maioria de nós vem à mente imediatamente seu rosto. No entanto, na história do mundo criminoso quem representa o exemplo mais claro desta categoria são dois nomes muito menos midiáticos: Ted Bundy e o “Palhaço Assassino” John Wayne Gacy.

Ele era mesmo um assassino em série?

Charles Manson não era um assassino em série e, na verdade, nunca caiu nessa categoria. De um ponto de vista psicológico, o caso da “Familia” é sem dúvida um dos mais marcantes por várias razões. Manson instigou, persuadiu e manipulou seus discípulos a cometerem uma série de assassinatos guiados por um código secreto muito específico: “Helter Skelter“.

Esses termos formam nada mais do que o título de uma canção dos Beatles, uma canção que falava das dificuldades do amor, mas que para ele era algo mais. Essa foi a justificativa para uma guerra racial apocalíptica, e era sua obsessão e inspiração. Os crimes ocorreram durante duas noites, ou seja, não foi um impulso, não foi um ato levado por um delírio momentâneo.

Houve planejamento e, o que é mais impressionante para os especialistas, Manson conseguiu que seus discípulos cometessem novos assassinatos. Ele não deixou que eles refletissem sobre os atos que haviam cometido, e seu poder de persuasão e manipulação era absoluto e perfeito. Ele conseguiu preservar neles uma frieza emocional absoluta.

Charles Manson e sua "família"

Mais tarde, uma vez na prisão, as tentativas de compreender os aspectos psicológicos que constituíam a personalidade de Manson foram quase constantes. Podemos dizer que nunca houve um diagnóstico claro e objetivo sobre os tipos de transtornos que ele sofria. No entanto, algo em que muitos analistas concordaram é que ele tinha duas dimensões muito distintas: a frustração e o conflito.

A infância de abuso, de privação e serviços sociais que o negligenciaram por completo o levaram a tentar sobreviver de forma prematura através do crime. O desafio contínuo e o desprezo pela autoridade foram uma constante em sua vida. Mais tarde veio a megalomania, a formação de uma personalidade psicopática e a síndrome de Kakon ou da Grande Angústia.

No entanto, houve algo que os psiquiatras perceberam em Charles Manson: a sua grande capacidade de controlar as pessoas emocionalmente. Um recurso através do qual ele alimentou seu ego, constituiu um grupo de referência (família) ao qual se vinculou e confrontou, por sua vez, uma sociedade que desprezava.
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O porquê da atração e do culto a Charles Manson

Sheila Isenberg foi uma das primeiras psiquiatras a encontrar razões que poderiam justificar essa fascinação em torno de uma figura tão sombria como Charles Manson; alguém que, por outro lado, costumava chamar a si mesmo de “o profeta de Satanás”. A doutora Isenberg propôs várias teorias psicológicas em seu livro “Mulheres amam homens que matam“. Elas são as seguintes:

Pessoas com baixa autoestima

Uma primeira explicação refere-se à “síndrome de hiper empatia”. Ela ocorre em mulheres com baixíssima autoestima que somente se conectam com figuras relevantes, pessoas de notoriedade que lhes oferecem um senso de valor. Neste caso, ligar-se a um conhecido assassino que gerou impacto na sociedade é uma maneira de nutrir seu vazio e sentir-se mais segura, e também mais importante.

Além disso, seu excesso de empatia permite-lhes uma conexão mais profunda com a pessoa, ao ponto de justificar os atos errados do assassino.

O efeito “Homicidol”

O efeito “homicidol” é composto de dois termos “homicidas + ídolos”. É algo que sem dúvida representa muito bem a figura de Charles Manson, assim como Jack, o Estripador, Hannibal Lecter, etc. Às vezes algumas pessoas experimentam uma atração/admiração por pessoas (reais ou fictícias) que são conhecidas por realizar atos de grande violência. Longe de rejeitar suas ações, elas os transformam em ídolos e figuras a reverenciar.

Esse fenômeno, segundo os psiquiatras Micael Dahlén e Magnus Söderlund, geralmente ocorre em mulheres bem-sucedidas, com boa formação acadêmica e com um bom status social. No entanto, cabe dizer que isso é algo bastante comum em nossa sociedade. Basta lembrar que a figura de Charles Manson inspirou bandas como Guns N ‘Roses ou Marilyn Manson.

Charles Manson

A “hibristofilia”

A hibristofilia é um termo da psicologia forense que define aquelas pessoas que se sentem atraídas, tanto psíquica quanto eroticamente, por indivíduos “perigosos”. Longe de ser um comportamento normal, este desejo e este tipo de atração, pouco comum e acima de tudo nem um pouco razoável, certamente entra na categoria de parafilias.

Para concluir, se temos certeza de algo, é de que a figura de Charles Manson perdurará (para nossa surpresa) durante muito tempo registrada no domínio social, criminal e cultural. Na verdade, hoje o nome de “Charles Manson” continua a gerar lucro e seus herdeiros esperam que sua memória siga presente por um longo tempo para poderem rentabilizá-la. Neste sentido, parece que não será difícil: recentemente Tarantino já mencionou um filme e também são esperados novos livros.

O culto à maldade ou a curiosidade pelo lado mais sombrio do ser humano segue e seguirá nos atraindo de forma indefinida…

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