Teoria da mente: o ponto de partida da empatia

· novembro 10, 2017

A teoria da mente ou ToM (sigla em inglês) faz referência à capacidade de representar a nossa própria mente e a dos outros. É o que nos permite interpretar e prever os comportamentos através dos estados mentais que atribuímos. Esses estados mentais podem ser sentimentos, pensamentos, crenças, desejos, etc. Para entender isso vamos analisar um simples exemplo.

Imagine que você olha pela janela e vê seu vizinho saindo pelo portão, em seguida ele põe as mãos nos bolsos. Então, dá meia volta e entra de novo onde mora. Provavelmente não é tão difícil entender esse comportamento, você vai pensar que ele esqueceu alguma coisa. Isso ocorre porque você conseguiu entrar na mente dele e interpretar o comportamento. Essa é a capacidade que na psicologia é tratada sob o âmbito denominado teoria da mente.

A teoria da mente como sistema conceitual

A ToM vem da corrente do construtivismo, na qual o ser humano é visto como um cientista que cria teoria intuitivas de uma realidade baseada em conceitos. Por isso mesmo, a ToM parte do princípio de que todas as noções e ideias sobre a mente formam um grande sistema conceitual. Dizemos que alguma coisa é um sistema conceitual quando na hora de definir, em vez de termos uma definição explícita, temos uma rede de conceitos inter-relacionados que a definem.

A teoria da mente

Há dois aspectos fundamentais básicos para entender esse sistema conceitual:

  • O caráter interpretativo: falamos dos conceitos que utilizamos para representar o estado mental. Seria o conteúdo que nos dá os recursos para construir a realidade mental.
  • O caráter inferencial: aqui entrariam todas as relações lógicas entre os conceitos. Essas relações nos levam a conseguir explicar e prever comportamentos futuros através da relação causa-efeito.

Então, podemos definir a teoria da mente como um sistema cognitivo que, através de uma base conceitual e alguns mecanismos de inferência, desempenha a função de interpretar, prever e lidar com o comportamento. Dessa definição é possível deduzir que a mente é o que une a percepção e a ação: se conseguirmos representar a mente de um indivíduo, poderemos inferir seu comportamento.

A mente como mediadora do comportamento

Mas aqui vem a pergunta: como a mente faz para intermediar a percepção e a ação e o que nós podemos inferir? Entender isso é importante para compreender como nós somos capazes de, apenas intuindo os pensamentos de uma pessoa, antecipar o seu comportamento. O psicólogo Rivière, junto com seus colegas, desenvolveu uma teoria causal da ToM que busca explicar isso.

Segundo essa teoria, tudo começa porque através da percepção geramos crenças sobre a realidade. Essas crenças, junto com as nossas disposições educacionais e biológicas, gerariam alguns desejos. Desejos estes que, por sua vez, modificariam as nossas crenças para favorecer sua realização. E essa interação entre crenças e desejos daria lugar a uma série de comportamentos com a finalidade de realizar os desejos.

Esse modelo tem uma lacuna: é muito simplista para explicar a realidade da produção do comportamento. Mas não é preciso enxergar com base em uma perspectiva científica, já que buscamos o raciocínio que o cérebro faz, não a realidade. Parece que é essa a teoria que o nosso cérebro utiliza para interpretar e antecipar o próprio comportamento e o dos outros. Pode ser que falte precisão e que isso leve a erros em algumas situações, mas é um atalho rápido que acerta muitas vezes.

Bonecos pensando em novas ideias e soluções

Desenvolvimento da teoria da mente

A ToM não seria uma capacidade com a qual poderíamos contar desde o nosso nascimento. Na verdade, seria uma maneira de funcionamento com a qual a maioria de nós nasceríamos em potencial; ou seja, como se estivesse pré-instalada. Essa pré-instalação, falando em temos informáticos, para se transformar em uma instalação real precisaria de estimulação em determinados períodos sensíveis do nosso desenvolvimento.

A idade do aparecimento da teoria da mente – na qual a instalação se completa – é estimada entre os 4-5 anos, quando as crianças começam a resolver os testes de “crença-falsa”. Essa capacidade não aparece até essa idade porque a criança precisa desenvolver antes uma série de conceitos.

Para poder usar a ToM, a criança precisa desenvolver dois aspectos:

  • Uma ideia integrada de desejos-crenças: a criança precisa entender que as pessoas regem seus comportamentos através dos seus próprios desejos e crenças. Em relação a isso, elas têm que aprender que as crenças podem não ser verdadeiras e os desejos podem não se realizar.
  • Que existe uma situação subjetiva frente a uma realidade objetiva: a criança deve compreender que o comportamento é regido pela avaliação subjetiva da realidade. Assim, ela vai conseguir pensar na existência de falsas crenças e raciocinar a partir delas.

Além disso, uma vez desenvolvida a teoria da mente, não significa que seja um processos passivo do ser humano. Essa capacidade influencia o desenvolvimento de outras habilidades, algumas muito necessárias às pessoas; entre elas a empatia. Quando a criança começa a compreender as crenças e os desejos dos outros, ela começa a se colocar corretamente na pele das outras pessoas: aspecto essencial para um bom desenvolvimento da empatia.