A ciência dos tabus linguísticos

fevereiro 6, 2019
Dentro da nossa linguagem há uma parte mais obscura. Estamos falando dos palavrões e das gírias. Você quer saber como, apesar da má fama, eles podem nos ajudar? Continue lendo e descubra.

Nós, seres humanos, contamos com uma capacidade de comunicação impressionante. Não só somos capazes de compartilhar significados comuns com os outros, mas também contamos com um vocabulário e uma gramática que nos permitem ser precisos na hora de transmitir exatamente aquilo que queremos compartilhar. Para os momentos coloquiais de surpresa e raiva temos ainda os tabus linguísticos: os nossos conhecidos palavrões.

Além disso, podemos fazer uso de mímicas ou de imagens para completar a linguagem. Inclusive podemos unir o passado, o presente e o futuro em um mesmo discurso.

O que dizer dessa parte dentro da linguagem que é um pouco mais obscura? Essas palavras que às vezes soam mal mas que falamos muito na linguagem popular do dia a dia? Há teorias que dizem que sua utilização produz um tipo de descarga emocional – um efeito catártico – e que além disso essa descarga é muito maior e mais potente se falamos essas palavras na nossa língua materna. Quem nunca xingou alto ao bater o dedo na quina do móvel para aliviar a dor?

Palavrões

Por que tabus linguísticos?

Tabu soa como algo proibido. Algo que acontece mas que supostamente não deveria estar acontecendo. Seja por motivos de desconhecimento ou preconceito, em muitos casos por vergonha ou por ser considerado algo impróprio, tabus diversos, como os tabus linguísticos, são algo pouco adequado no seio de uma determinada cultura.

Por isso, não podemos falar de tabus sem estar dentro de um contexto cultural específico, justamente porque é esse contexto que vai atribuir essa natureza imprópria a algo, atribuir a natureza de tabus linguísticos aos palavrões.

No mundo ocidental os palavrões são muito malvistos. Eles devem ser eliminados da linguagem se pretendemos ser educados ou amáveis. Também estão mais associados a uma linguagem mais masculina do que feminina. Por outro lado, sua má fama também estaria associada, pelo menos em parte, a uma falta de controle emocional. Muitos pensam que aqueles que utilizam os tabus linguísticos são incapazes de gerir suas emoções de valência positiva, ou negativa, de uma maneira mais sofisticada.

Além disso, o uso de palavrões seria pior sobretudo nas grandes cidades, pois há mais segregação e entendimento que pessoas com um determinado vocabulário têm menos cultura e são mais bruscas no tratamento pessoal. Essa associação é justamente em relação ao homem do campo, que na visão preconceituosa cultiva mais a terra e menos seu intelecto. Pensemos que os palavrões também são conhecidos como vulgarismos.

Este estereótipo cai facilmente quando levamos em consideração que o uso desses tabus linguísticos não está associado com a riqueza léxica de uma pessoa. Na verdade, um estudo realizado por Jay e Jay (2015) encontrou evidências de que as pessoas com maior facilidade para produzir uma lista de palavras com características comuns (como por exemplo da categoria de animais) também eram capazes de fazer uma lista mais extensa de palavrões.

Pessoas se xingando

Os benefícios dos tabus linguísticos

Os benefícios dessas palavras que em alguns momentos soam tão mal têm relação precisamente com a ruptura das normas. Mas, de quais benefícios estamos falando? Stephens e colegas (2010) realizaram um estudo muito curioso nesse sentido. Eles dividiram alguns voluntários em dois grupos que deveriam submergir as mãos em água gelada e tentar aguentar o máximo de tempo possível.

Os grupos se diferenciavam por uma única variável: um deles poderia usar palavrões para se expressar enquanto os outros só podiam usar palavras neutras. Você consegue imaginar o que aconteceu? Claro que o grupo que podia se expressar por meio de palavrões aguentou mais tempo – o dobro de tempo! – em relação ao grupo de controle que só usou palavras neutras.

Além disso, é importante destacar que esse efeito analgésico deve ser utilizado com moderação. Não houve diferença de tempo entre quem disse mais ou menos palavrões, apenas dizê-los já foi o suficiente.

Esse resultado seria consistente com a hipótese de que o efeito estaria relacionado com a ruptura da norma. Dessa forma, romper muitas vezes com a norma faria com que a coisa em questão passasse a ser menos normativa, e por isso também seria menos excitante rompê-la.

Outro dos dados que seria coerente com a teoria da ruptura da norma é que expressar palavrões produz uma maior excitação, medida como resposta galvânica na pele, se o fazemos na língua materna. Isso é coerente com a hipótese porque supõe-se que a cultura materna é o que temos mais interiorizado em nós: o lugar onde se encontraria a nossa parte mais primitiva.

Então você já sabe, na próxima vez que precisar de um efeito analgésico ou reagir a alguma dor, os tabus linguísticos estão liberados – mas não precisa exagerar!

  • Cognitiva, C. (n.d.). Palabrotas, tacos y juramentos: La ciencia del lenguaje tabú | Ciencia Cognitiva. Retrieved October 12, 2018, from http://www.cienciacognitiva.org/?p=1703
  • Jay, K. L., y Jay, T. B. (2015). Taboo word fluency and knowledge of slurs and general pejoratives: Deconstructing the poverty-of-vocabulary myth. Language Sciences, 52, 251-259.
  • Stephens, R., y Umland, C. (2011). Swearing as a response to pain: Effect of daily swearing frequency. Journal of Pain, 12, 1274–1281.