Do cinismo como postura crítica ao cinismo como atitude insuportável

Do cinismo como postura crítica ao cinismo como atitude insuportável

junho 14, 2017 em Psicologia 880 Compartilhados
Do cinismo como postura crítica ao cinismo como atitude insuportável

Diógenes de Sinope foi o pai do cinismo. Ele viveu na Grécia Antiga, durante o século IV antes da nossa era. Os antigos seguidores desta doutrina eram muito diferentes dos cínicos atuais. A versão dele era crítica pura: eles não estavam de acordo com muitas das hipocrisias da sociedade e queriam viver de uma forma muito mais autêntica.

A palavra “cínico” vem da raiz grega “kinus”, que significa “cachorro”. O cinismo, então, era uma doutrina associada ao “semelhante aos cachorros”. Diógenes vivia na mais absoluta pobreza, como um cachorro. Ao mesmo tempo, ele lançou mordidas filosóficas que fizeram dele um dos pensadores mais incisivos da época. Por isso, começaram a associar uma coisa à outra.

“O cinismo funciona como uma droga para se distanciar, um analgésico para não sentir o perigo de existir, até que te envenena. No início, não resta dúvida, aquilo te aliviou: você conseguiu tirar sarro dos seus medos. Mas no final, aquilo te intoxicou”.
-Marcela Serrano-

Atualmente, o cinismo adotou um significado muito diferente. Os cínicos do mundo moderno são aqueles que não acreditam em valor nenhum e se vangloriam disso. Eles não criticam a sociedade para propor uma nova forma de olhar para ela, o único intuito é de simplesmente denunciá-la. Por fim, eles não fazem algo a respeito. Também são chamados de cínicos aqueles que se aproveitam abertamente dos outros e até mesmo se orgulham de fazer isso.

Diógenes de Sinope e o cinismo primitivo

São atribuídos episódios maravilhosos a Diógenes, cheios de grandeza ética. Ele nem sequer tinha uma casa, vivia em um barril. As pessoas o confundiam com um mendigo, pois vestia-se com farrapos. Ainda assim, foi um dos homens mais lúcidos de sua época. Platão o chamou de “um Sócrates delirante”.

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Diz-se que Alexandre, o Grande estava interessado em conhecer este filósofo. Ele chegou até ele e disse: “Eu sou Alexandre, o Grande”. E o cínico respondeu: “E eu sou Diógenes, o cachorro”. Depois de uma curta conversa, Alexandre lhe disse: “Peça-me o que você quiser”. Diógenes lhe disse o seguinte: “Saia de onde você está, está tapando o Sol”.

Segundo outra história, um dia Diógenes estava na praça, comendo verduras que os outros tinham jogado fora. Outro filósofo passou por ele e disse: “Se você trabalhasse para os nobres como eu, não teria que comer verduras”. Diógenes contestou: “Se você comesse verduras como eu, não teria que trabalhar para os nobres”. Esses episódios nos dão uma ideia de como esse pensador era.

O cinismo moderno

O poder e o dinheiro sempre foram fonte de corrupção, em todas as épocas e em todos os lugares. No entanto, com a aparição do capitalismo e, muito especialmente, com a queda das grandes utopias, isso adquiriu sua máxima potência. O dinheiro e o poder motivaram os comportamentos mais detestáveis dos seres humanos.

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Poderíamos dizer que o pai do cinismo moderno é Maquiavel, o grande filósofo do poder. A ele é atribuída a famosa frase: “Os fins justificam os meios”. Com este pensador, é iniciada uma série de filósofos que exaltam ao máximo o individualismo. Segundo eles, a característica dos seres humanos é o egoísmo extremo. Pode ser válida qualquer ação que proporcione benefícios individuais.

Em geral, os homens com alto poder político ou econômico agiram com grande cinismo, no sentido moderno, ao longo de toda a história. Sendo figuras que orientam ou dirigem as sociedades, eles se tornaram um exemplo para muitos. Grande parte das pessoas vê isso como algo eficaz. Principalmente depois da queda das grandes ideologias e utopias. Isso superou o poder do dinheiro, e “o fim justifica os meios” tornou-se uma máxima válida.

O cinismo nas relações interpessoais

A partir dos mais altos escalões do poder, o cinismo se expandiu e se infiltrou nas relações do dia a dia. Ele pode ser identificado especialmente nos vínculos que envolvem algum tipo de poder, como por exemplo entre empregadores e os empregados; entre os homens e as mulheres, ou nos adultos em relação às crianças.

Enquanto cruza uma forte corrente que vai contra tudo isso, o cinismo continua tendo um lugar importante no mundo atual. Às vezes ele é expressado de forma sutil. Quando o empregador, o homem ou o adulto impõem um critério ou uma norma arbitrária, se o empregado, a mulher ou a criança resistem, então eles respondem: “se você não gosta, pode ir embora”.

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Os comportamentos cínicos são perversos. Introduzi-los nas relações humanas faz com que elas fiquem loucas. A curto, médio ou longo prazo, eles também trazem consequências negativas para quem cai nesse tipo de conduta. Eles falsificam os afetos, promovem transgressões ocultas, estimulam a hipocrisia. Embora proporcionem uma satisfação egoísta imediata, o que se perde é muito mais importante.

Imagens cortesia de Kylli Sparre

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