O mito da caverna de Platão: a dualidade da nossa realidade

O mito da caverna de Platão: a dualidade da nossa realidade

11, maio 2017 em Psicologia 2212 Compartilhados
O mito da caverna de Platão

O mito da caverna de Platão nos permitiu compreender como o filósofo percebia o mundo. A relação entre o mundo físico e o mundo das ideias dá origem a uma realidade cheia de luzes e sombras. Por um lado, temos a realidade como ela é. Por outro lado, encontramos uma ficção onde nossas crenças e sonhos assumem um papel preponderante. Mas, antes de mergulharmos mais a fundo em tudo isso, o que diz o mito da caverna?

De acordo com a história formulada por Platão, existia um grupo de pessoas que viviam em uma grande caverna desde que nasceram, com seus braços, pernas e pescoços presos por correntes, forçando-os a olharem unicamente para a parede dessa caverna. Nunca saíram de lá e nem podiam olhar pata trás para saber a origem das correntes que os prendiam. No entanto, atrás delas havia um muro e um pouco mais longe uma fogueira. Entre o muro e a fogueira alguns homens transportavam objetos que se projetavam sobre as paredes da caverna. Graças à fogueira, os homens acorrentados podiam vê-los projetados na parede.

Eu via imagens que eram mentiras e falsas realidades. Mas, como eu poderia considerar tudo isso, se desde a infância era a única realidade que havia visto?
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Uma realidade inventada

Os homens só tinham visto as projeções desde que nasceram, por isso, não tinham necessidade ou curiosidade de se virar e ver o que produzia essas sombras. Mas era uma realidade artificial enganosa; para eles as projeções eram a própria realidade. No entanto, um deles se atreveu a virar e observar o que estava acontecendo.

No início, ficou confuso e tudo o irritava, especialmente aquela luz que ele via no fundo da caverna (a fogueira). Então, começou a desconfiar. Ele acreditou que as sombras eram a única coisa existente, quando na realidade não era bem assim. Toda vez que progredia, as dúvidas o tentavam com a possibilidade de voltar para as suas sombras.

No entanto, com paciência e esforço, seguiu em frente. Aos poucos, foi se acostumando com o que era tão desconhecido. Sem se deixar vencer pela confusão ou entregar-se aos caprichos do medo, ele saiu da caverna. É claro que, no momento em que voltou para contar aos seus companheiros o que tinha visto, foi recebido com desconfiança: um desprezo que refletia a incredulidade dos habitantes da caverna pelo que o aventureiro lhes contava.

É curioso como essa visão oferecida pelo mito da caverna pode ser tão atual. Todos nós seguimos um padrão de pensamento, e se ousarmos pensar de forma diferente, começam a nos julgar e criticar. Criamos todas as nossas verdades absolutas sem parar para questioná-las, sem refletir se o mundo realmente é como imaginamos.

Por exemplo, a crença de que o erro é um fracasso pode influenciar-nos a abandonar qualquer projeto no primeiro contratempo. No entanto, se não nos deixarmos levar por essa ideia, cultivaremos a nossa curiosidade e o erro não será mais um demônio totalmente carregado de negatividade. Dessa forma, a mudança de perspectiva não conseguirá apenas que deixemos de sentir medo, mas quando errarmos estaremos prontos para aprender com ele.

Sair da caverna é um processo difícil

O homem que no mito da caverna de Platão decide se libertar das correntes que o aprisionam toma uma decisão muito difícil, que longe de ser apreciada pelos seus companheiros, é entendida por eles como um ato de rebeldia. Algo que não foi muito bem visto e que poderia desencorajá-lo. Quando ele decide seguir em frente, segue sozinho pelo caminho, superando o muro, descendo até a fogueira que lhe provoca tanta desconfiança e ao mesmo tempo o fascina. As dúvidas o assaltam e ele já não sabe mais o que é real e o que não é.

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É preciso se livrar das crenças antigas: ideias que não estão apenas enraizadas, mas por sua vez, são toda a base da árvore da nossas crenças. Mas, à medida que avançamos em direção à saída da caverna, percebemos que tudo o que acreditávamos não era inteiramente verdade. E agora? O que resta? Convencer aqueles que se privam da liberdade de que eles também podem ser livres se decidirem romper com a aparente comodidade em que vivem.

O mito da caverna simboliza a ignorância como uma realidade que se torna incômoda quando começamos a ter consciência da sua presença. Diante da menor possibilidade de uma outra visão de mundo possível, a história nos diz que nossa inércia nos empurra para derrubá-la, considerando-a uma ameaça à ordem estabelecida. As pessoas ficam presas a ideias pré-estabelecidas e não buscam um sentido racional para determinadas coisas, evitando a “dificuldade” do pensar e refletir.

As sombras não são mais projetadas, a luz deixou de ser artificial, e o ar roça o meu rosto.

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Talvez, pela nossa condição humana, não possamos dispensar esse mundo de sombras, mas podemos nos esforçar para que essas sombras sejam cada vez mais nítidas. Talvez o mundo perfeito e emblemático das ideias seja uma utopia para a nossa natureza, mas isso não significa que desistir da nossa curiosidade seja melhor do que ficar na nossa zona de conforto.

À medida que crescemos, as dúvidas, as inconsistências, as perguntas, nos ajudam a tirar essas vendas dos olhos que, muitas vezes, nos impedem de ver a realidade como ela é.
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