Como consolar com palavras de acordo com a ciência: 4 segredos básicos

No momento em que consolamos alguém não importa o que sentimos ou qual é a nossa opinião. Apenas a outra pessoa é importante. Por isso, somos capazes de dar apoio quando aprendemos a ser facilitadores de emoções, figuras capazes de ajudar o outro a desabafar sobre os seus pensamentos e necessidades...
Como consolar com palavras de acordo com a ciência: 4 segredos básicos
Valeria Sabater

Escrito e verificado por o psicólogo Valeria Sabater.

Última atualização: 09 dezembro, 2021

Nem todo mundo sabe consolar com palavras. A verdade é que não é nada simples apoiar, dar carinho, consolo e conforto a quem está sofrendo. No entanto, embora a dor tenha muitas formas e múltiplas origens, na realidade, quando se trata de apoiar alguém, sempre existem estratégias que podem nos ajudar.

O escritor sueco Stig Dagerman dizia que a necessidade que o ser humano sente de conforto é insaciável. De alguma forma, esta é uma dimensão da qual que sempre sentimos falta, criando rachaduras, feridas e vazios. O consolo nasce da compreensão do outro, sendo o que talvez muitas vezes desejamos, uma compreensão ou uma conexão autêntica dos outros em relação às nossas realidades internas.

Ninguém espera que quando um pessoa está em um mau momento, quem a consola sinta as sensações da mesma forma. O que se espera é uma combinação primorosa de saber ouvir sem julgar e amparar sem constranger. O consolo nasce da dimensão invisível do afeto real e, sobretudo, da facilitação que nos convida a liberar o peso que sentimos, a deixar sair (e compartilhar) o que dói por dentro.

Vamos nos aprofundar nisso.

Filha apoiando a mãe, simbolizando como consolar com palavras.

Dicas para saber como confortar com palavras

“Coragem, tudo passa, não se preocupe que isso não é nada, sinto muito pelo que aconteceu com você, deixe o tempo passar e você verá como daqui a três meses se sentirá melhor.” Existem múltiplos recursos e frases feitas para consolar que, em muitos casos, ao contrário de alcançar a finalidade de ajudar, intensificam ainda mais o sofrimento.

É verdade que por trás dessas expressões existe uma boa intenção. Com certeza a pessoa que nos diz “fique calmo, eu já passei por isso e sobrevivi” não o faz por mal. No entanto, quem pronuncia essa combinação de palavras infelizes não sabe que com essas frases nos transmite pressão (todo mundo é capaz de superar essa situação, e se você não pode, há algo de errado com você).

Falta de percepção, ausência de habilidade em termos de suporte emocional, falta de jeito para assuntos de cunho psicológico… São muitos os erros cometidos nesta prática e, embora haja empatia, mesmo que a outra pessoa se conecte com a nossa dor e desconforto, nem sempre ela sabe o que fazer, o que dizer ou como responder. Compreender os segredos para saber como consolar o próximo de acordo com a ciência pode ser uma ferramenta de grande importância, que todos deveríamos conhecer e utilizar.

1. Eu sei que você está passando por um mal momento e eu sinto muito

John Gottman, um psicólogo clínico, pesquisador e especialista em relações amorosas, também explica em seus trabalhos como gerenciar essa área que, de fato, também é decisiva em um vínculo afetivo. Desta forma, ele enfatiza que quando um dos membros da relação sofre, o que se espera do outro é que ele seja uma caixa de ressonância -compreensão e empatia-.

Gottman o define como ser uma “testemunha” próxima da dor da outra pessoa. Ser um espelho e uma presença próxima que entende e sabe estar presente. Para isso, uma das melhores frases ou expressões que podemos usar é, por exemplo, “eu sei que você está sofrendo e eu sinto muito”, “lamento muito o que você está passando, entendo o seu desconforto, a sua dor, tristeza…”.

O segredo é validar os sentimentos do outro, fazê-lo ver que tudo o que ele sente faz sentido. Por isso é importante para facilitar o desabafo, e criar um refúgio para que a pessoa tenha liberdade para expressar o que que sentir necessidade.

2. Não é necessária nenhuma frase de sabedoria, julgamentos ou referências às próprias experiências

Quando queremos oferecer consolo e apoio a uma pessoa não são necessárias pérolas de sabedoria ou raciocínio filosófico. Além disso, não vai ajudar à outra pessoa se explicarmos que já passamos pela mesma situação e no final tudo passa ou se resolve.

A realidade que cada indivíduo vive é única e excepcional; portanto o ideal é evitar comparações. Por outro lado, estudos como os realizados na Universidade de Illinois (Estados Unidos) indicam algo importante. Para consolar com palavras é necessário considerar os seguintes aspectos:

  • Os comportamentos conversacionais são essenciais no processo de consolo e apoio, mas devemos evitar julgamentos. Expressões como “isso aconteceu com você porque (…)” ou “o que você deveria ter feito é (…)” ao contrário de ajudar, invalidam.

3. A pessoa que sofre não quer conselho

Conselhos e recomendações podem ser dados por um professor a seu aluno do ensino médio. Também quando um amigo nos pede (expressamente) uma orientação sobre um assunto específico. No entanto, no campo do consolo, conforto emocional e apoio psicoemocional, não é útil que alguém nos diga o que fazer nessas circunstâncias.

O Dr. Xi Tian e outros cientistas da Universidade Estadual da Pensilvânia investigaram há um ano como consolar com palavras e descobriram que conselhos bem-intencionados são contraproducentes. Mais do que isso, o que muitas vezes é provocado é uma reatância psicológica, ou seja, uma tendência a rejeitar as indicações ou recomendações ouvidas.

Em essência, para evitar essa reação é necessário evitar dizer ao outro o que ele deve fazer ou sentir. Expressões como “tire isso da cabeça” ou “não pense mais nisso” devem ser substituídas por o que você sente é normal, eu entendo e sinto muito.

Menina abraçando um amigo para representar como consolar com palavras.

4. Estou com você para tudo o que você precisar (quando você disser)

Ao nos aprofundarmos em como consolar com palavras, é quase mais importante deixar claro o que não se deve fazer. Um erro que cometemos com frequência é ficar obcecado por “estar presentes“. É fato que a proximidade ajuda e é essencial, mas também é preciso saber dar espaço e tempo à outra pessoa, respeitando as necessidades dela.

Apoiar sem invadir é uma arte. Estar próximo sem se impor é um recurso inteligente e necessário. Para isso, é recomendável que a pessoa que sofre saiba que pensamos nela, que a levamos no coração e se ela precisar de qualquer coisa estamos sempre à disposição. Ser um ombro para chorar, com um olhar capaz de refletir o outro e uma presença que sabe ouvir é o segredo na arte de apoiar.

Para concluir, todos nós, em algum momento, vivemos uma situação difícil. Já estivemos no lugar de quem oferece consolo e no de quem precisa dele. Nenhuma das situações é simples, é verdade, no entanto, é útil normalizá-las e aprendermos esta capacidade tão essencial na vida. Consolar exige prudência, sabedoria e uma conexão emocional que conforta sem invadir.

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  • Xi Tian, Denise Haunani Solomon, Kellie St.Cyr Brisini, How the Comforting Process Fails: Psychological Reactance to Support Messages, Journal of Communication, Volume 70, Issue 1, February 2020, Pages 13–34, https://doi.org/10.1093/joc/jqz040