Como explicamos o comportamento dos outros?

abril 25, 2019
Quando agimos de uma determinada maneira, costumamos dizer que a situação exigia isso. Mas quando tentamos explicar por que outra pessoa agiu de uma determinada forma, dizemos "ele é assim mesmo". O ser humano tem uma tendência natural de aplicar um duplo padrão quando se trata de explicar os próprios comportamentos e os dos outros.

Embora seja difícil acreditarmos nisso ou identificá-la nos outros e não em nós, existe uma tendência natural de aplicar um duplo padrão para explicar o próprio comportamento e o dos outros. Os seres humanos tendem a destacar a influência da situação quando explicam os seus comportamentos. No entanto, na hora de explicar o comportamento dos outros a situação se inverte: tendemos a apontar e criticar os seus comportamentos e atitudes.

Assim, vemos em nós mesmos como a situação pode ser decisiva, especialmente quando obtemos resultados negativos; no entanto, não agimos da mesma forma quando julgamos o outro.

Pode parecer engraçado devido à infantilidade da ideia, mas é um fato do qual normalmente não estamos conscientes. Falamos de um viés silencioso. Isso é o que, na psicologia, chamamos de efeito ator-observador. Nós não fazemos de propósito. A explicação mais plausível é que temos perspectivas diferentes quando agimos do que quando observamos. Dito de outra forma: o que sabemos e o que sentimos é particular em cada ponto de vista, e isso condiciona a maneira como geramos explicações.

Sabemos que nem sempre agimos da mesma forma e que somos sensíveis às circunstâncias, mas quando os outros agem de uma determinada forma, não temos informações, ou temos menos informações, sobre se eles agem sempre assim ou não.

Além disso, quando somos nós que agimos, a nossa atenção é colocada na situação. Quando a outra pessoa age, a nossa atenção está na pessoa; isto é conhecido como “erro fundamental de atribuição”. É por isso que a perspectiva muda.

Explicação dos comportamentos do casal

Estes tipos de explicações são muito curiosos quando são levados para contextos específicos, como relacionamentos de casal. A psicologia social tem pesquisado este tema há muito tempo e os resultados obtidos podem nos fazer pensar duas vezes antes de explicar os comportamentos do outro ou o nosso.

Alguns estudos nos mostram que a tendência que temos para explicar o nosso comportamento ou do nosso parceiro dependerá mais do fato de estarmos confortáveis no relacionamento ou não do que de razões reais. Parece que é bastante comum, quando o relacionamento do casal não funciona bem, atribuirmos os conflitos ao comportamento do nosso parceiro, e não o contrário.

As pesquisas de Finchan e Bradbury afirmam que se a relação é satisfatória, justificamos os comportamentos positivos do nosso parceiro baseados em causas internas e controláveis. Da mesma forma, os seus comportamentos negativos são atribuídos a causas externas e incontroláveis.

O curioso acontece quando o nosso relacionamento não vai bem: invertemos totalmente as atribuições. Quando o nosso relacionamento não está bem, atribuímos os comportamentos positivos de nossos parceiros a causas externas e os negativos a causas internas.

Amigos conversando em casa

Atribuições no nível social

Também é curioso observar o fenômeno que ocorre quando damos explicações sobre grupos mais ou menos homogêneos. Esses grupos ou fenômenos sociais podem ser a pobreza, a discriminação racial ou desemprego. Basicamente, o que aplicamos inconscientemente ao explicar esses fenômenos tem mais a ver com os nossos valores, ideias e filiação política do que com a realidade.

As explicações que damos sobre o comportamento dos outros quando as incluímos em um grupo dependerão em grande parte de quão longe estamos do grupo. Os membros de um mesmo grupo percebem os seus integrantes com atribuições muito mais positivas do que aqueles que não pertencem a ele.

Explicando o comportamento dos outros

Estudos realizados no Reino Unido (Furhan e Reicher) mostraram que as explicações dadas a fenômenos sociais negativos, como a pobreza ou a riqueza, são diferentes para os defensores de políticas conservadoras do que para aqueles próximos a políticas mais liberais. O mesmo acontece com as explicações sobre eventos que têm grande impacto social, como revoltas ou manifestações.

Dessa forma, as pessoas com ideais conservadores elogiam a poupança e o trabalho duro como as principais características das pessoas ricas. No entanto, pessoas com ideais mais liberais consideram indivíduos com grande poder econômico como cruéis e implacáveis.

Quando falamos de pobreza, as pessoas de ideologia liberal explicam isso como uma consequência da desigualdade de recursos e oportunidades. No entanto, os conservadores tentam explicá-la em termos de consequência de falta de interesse e preocupações.

Amigas tomando café

No caso das revoltas sociais, os conservadores tendem a fornecer explicações baseadas em traços patológicos sobre os manifestantes. No entanto, os liberais explicam isso pelas circunstâncias sociais que forçam os manifestantes a se expressarem.

Com tudo isso, podemos afirmar que a realidade que percebemos tem muito mais a ver com o que nós mesmos projetamos do que com a verdade. Algo que deve ser considerado quando queremos explicar o comportamento dos outros.