Complexo de Édipo: você sabe do que se trata?

· janeiro 18, 2018

O complexo de Édipo é considerado a pedra angular da psicanálise freudiana. É um dos conceitos fundamentais da teoria psicanalítica, tanto para explicar a formação da estrutura de personalidade quanto para compreender a clínica.

Em relação à teoria, o complexo de Édipo constitui o eixo central da teoria da movimentação e da metapsicologia freudiana, já que a partir dele se explica o funcionamento psíquico e a formação da personalidade. Na época, isso gerou um marco e significou uma revolução, uma vez que esse novo enfoque partia do princípio da causalidade psíquica, com base no inconsciente, para explicar a formação da personalidade.

A importância do complexo de Édipo na análise clínica reside na causalidade deste, onde, dependendo do seu desenvolvimento e resolução, se desenvolverá uma determinada estrutura de personalidade e, com ela, a geração de sintomas nas diferentes modalidades estruturais (psicose, neurose, perversão).

O que é o complexo de Édipo?

Para começar, é necessário esclarecer que o uso do termo técnico – complexo – na psicanálise se refere a um conflito. Assim, o significado é radicalmente diferente do uso que lhe é dado na psicologia ou na gíria popular, onde se refere a “estar complexado” ou “ter complexos”.

Portanto, o complexo de Édipo alude a um conflito baseado em um conjunto organizado de desejos amorosos e hostis que a criança experimenta em relação aos seus pais. Freud o define como o desejo inconsciente de manter uma relação sexual – incestuosa – com o progenitor do sexo oposto – a mãe – e de eliminar o pai do mesmo sexo – parricídio.

“Pela primeira vez, a criança deve trocar prazer pela dignidade social.”
-Sigmund Freud-

Mãe pegando flores com seu filho no colo

Formalmente, Freud dá status de complexo ao complexo de Édipo em sua obra “Cinco palestras sobre psicanálise” (1910). Dizemos formalmente porque sabe-se que ele usou esse termo desde 1897, fazendo referência à obra-prima de Sófocles denominada “Édipo Rei“.

Freud usa a tragédia grega de Édipo Rei para explicar a universalidade da ambivalência que a criança sente em relação aos pais, assim como o desenvolvimento dos componentes hétero e homossexuais. Assunto que será retomado na adolescência, onde há uma transformação da sexualidade e a quebra da autoridade parental.

Qual é a importância do complexo de Édipo?

Freud, em sua obra “Três Ensaios para uma Teoria Sexual” (1905), assegura que nas crianças é recorrente a fantasia incestuosa de expulsar e substituir o pai rival, isto é, o pai para o menino e a mãe para a menina. Uma fantasia que despertaria ao mesmo tempo a culpa e o medo do castigo.

O mecanismo de defesa seria uma resposta “natural” a essa dinâmica, para dar uma resolução a esses desejos. Os mecanismos de defesa que atuarão serão diferentes dependendo do tipo de personalidade emergente. No caso da neurose, a repressão permitirá a resolução edipiana, enquanto no caso da psicose a resolução edipiana seria dada pelo encerramento, e na perversão pela negação.

“A neurose é a incapacidade de tolerar a ambiguidade.”
-Sigmund Freud-

Os mecanismos de defesa utilizados por cada pessoa para solucionar o complexo de Édipo determinarão a estrutura de sua personalidade e, portanto, também condicionarão como elas enfrentam e dão conta do mundo externo, e também do interno. Jacques Lacan, um psicanalista francês muito ligado à corrente freudiana, é quem irá explicar melhor o papel desempenhado pelo encerramento e pela renúncia como mecanismos de defesa.

Agora, aprofundando o papel desempenhado pelo complexo de Édipo quanto aos sentimentos de ambivalência que podem existir para com os pais, há uma função desse complexo que se destaca acima de todas as outras: permite a introdução da criança na norma – a lei – e na cultura. Freud faz referência a isso em seu trabalho “Totem e Tabu” do ano de 1913, quando escreve a respeito da horda primitiva.

Relação entre Totem e Tabu e o complexo de Édipo

Na obra de ‘Totem e Tabu’, o arrependimento e os sentimentos de culpa que surgiram na horda após o assassinato do totem fizeram com que se instaurasse uma nova ordem social baseada na exogamia; ou seja, na proibição – ou tabu – de possuir as mulheres do clã. Ao mesmo tempo, deram lugar ao totemismo – determinação de matar o totem – figura que substitui simbolicamente o pai.

As proibições do totemismo (o incesto e matar o totem) representam os dois desejos inconscientes centrais do conflito edípico. Freud conclui nesta obra que o complexo de Édipo é a condição central do totemismo, portanto, universal e fundador da cultura em qualquer sociedade humana.

Freud articula o complexo de Édipo com o complexo de castração, que é a reação diante da intimidação sexual ou a redução da prática sexual durante a primeira infância. O complexo de castração será a consequência do estabelecimento da norma, a proibição introduzida pela figura paterna.

A ameaça de castração (no homem) ou a ideia de ter sido castrada (na menina) dará origem ao mecanismo de repressão da primeira sexualidade, para posteriormente na adolescência permitir uma escolha ou objeto exogâmico.

Assim, após a ação de repressão (mecanismo de defesa), nos neuróticos irá aparecer o estabelecimento de uma instância psíquica muito importante: o superego. Esta instância produzirá uma ordem psíquica, e fará isso através da introdução da norma social; uma norma que também é atribuída à figura do pai. Esta introjeção da lei permitirá que a criança comece a ordenar seu mundo interno, levando em consideração os desejos e as demandas externas.

Filho abraçando seu pai

Funções do complexo de Édipo

O complexo de Édipo será um pilar fundamental para a teoria psicanalítica. Freud atribuiu diferentes funções ao mesmo:

  • A descoberta de um objeto de amor que deriva da resolução de sentimentos de ambivalência em relação aos pais.
  • A aceitação da lei da proibição do incesto.
  • O acesso à genitália, como pessoa já constituída: com seus próprios atributos e características de personalidade.
  • Constituição das diferentes instâncias psíquicas, especialmente a do superego como produto da assimilação da autoridade paterna.
  • A identificação para um ideal.
  • A aceitação do próprio sexo.

Depois do que dissemos, pode-se ver que o complexo de Édipo, para Freud, está enquadrado num relacionamento triangular formado pela mãe, o pai e a criança. A resolução deste “triângulo” irá condicionar a personalidade da criança, juntamente com a introdução da norma que irá permitir a assimilação de uma ordem social e cultural.

“A civilização começou no primeiro momento em que um homem irritado jogou uma palavra em vez de uma pedra.”
-Sigmund Freud-