Complexo de Electra: o que é e quais são seus efeitos?

Complexo de Electra: o que é e quais são seus efeitos?

junho 23, 2017 em Psicologia 0 Compartilhados
Complexo de Electra: o que é e quais são seus efeitos?

Na mitologia grega, Electra, a filha do rei de Micenas, traça um plano afiado, junto com seu irmão Orestes, para vingar a morte de seu pai, matando sua própria mãe e a amante dele. Esta história e sua simbologia inspiraram o psicólogo suíço Carl Jung a enunciar uma das teorias mais conhecidas sobre o desenvolvimento psicossexual das meninas: o complexo de Electra.

É curioso saber em primeiro lugar o significado etimológico da palavra Electra: significa “âmbar” e “faísca” ao mesmo tempo, pela eletricidade estática que se conseguia com este tipo de resina fóssil. Foram muitos os autores modernos que viram nesta personagem e em seu nome algo tão complexo quanto chamativo, algo que inspiraria, por exemplo, obras conhecidas como “O Luto de Electra”, de Eugene O’Neil, que falava das obscuridades e recantos psicológicos no interior de uma família qualquer nos anos 30.

“O pêndulo da mente se alterna entre o sentido e o sem sentido, não entre o bem e o mal”.
-Carl Gustav Jung-

Carl Gustav Jung foi o primeiro a fazer uso desta figura mitológica, a qual lhe serviria em 1912 para definir a fixação precoce das meninas por seus pais. Foi a contrapartida do Complexo de Édipo, desenvolvido por Sigmund Freud em seu momento e extraído do mito de Édipo de Sófocles, pertencente à mitologia grega clássica. Para este complexo, o célebre pai da psicanálise sustentava a ideia de que todo menino atravessava uma etapa de desejo por sua mãe, percebendo o pai como um rival.

Este tipo de atração afetiva (incomum para todos nós) é para a psicanálise parte do desenvolvimento psicológico normal pelo qual toda criança passaria entre os 3 e os 6 anos. Passada esta idade, esta fixação ou preferência se dissolve por si mesma de maneira natural. Vejamos com mais detalhes neste artigo.

Complexo de Electra

Como se inicia o complexo de Electra?

Para entender o complexo de Electra e sua formulação temos que nos colocar no contexto adequado. Estamos dentro do enfoque da psicanálise, e um aspecto ao qual Sigmund Freud dedicou grande parte do seu trabalho foi o desenvolvimento psicossexual e ao modo como esta sexualidade é gerida durante a primeira etapa de nossas vidas. Esta foi uma das grandes revoluções do pensamento freudiano, já que até então a psicologia não havia considerado que as crianças pudessem ter sexualidade.

“Para ser pai é preciso deixar de ser filho”.
-Carl Gustav Jung-

A forma como damos saída a estes impulsos sexuais durante a primeira infância determinará, sem dúvida, uma maturidade mais plena e um desenvolvimento psicoafetivo mais integral, mais equilibrado e saudável. No entanto, no caso de manter certas fixações podemos dar lugar a transtornos mentais e a determinadas neuroses ou problemas que o próprio Sigmund Freud não hesitava em classificar como “aberrações”.

Carl Gustav Jung, por sua parte, sempre manteve certas discrepâncias neste sentido. Algo que ele percebeu, em primeiro lugar, é que a teoria de Freud tinha um grave “vazio teórico”. O complexo de Édipo se centrava somente nos homens e no vínculo físico e emocional tão intenso entre os meninos e suas mães nos primeiros 6 anos de vida. Ele não hesitou, portanto, em desenvolver sua teoria do complexo de Electra em 1912 para cobrir este vazio, para oferecer esta perspectiva ao campo de desenvolvimento feminino e não deixá-lo no esquecimento.

Estas são as principais características.

Complexo de Electra

Uma primeira etapa de atração pela mãe

Carl Gustav Jung tinha a certeza de que o vínculo emocional entre a filha e sua mãe era muito mais intenso do que o de um menino por sua mãe durante os três primeiros anos de vida. Este apego inicial marcará mais tarde “o retorno” e a necessidade por parte da menina de se identificar com sua mãe para incorporar algumas das características maternas a sua personalidade e inclusive internalizar sua moralidade no “superego”.

A predileção pelo pai

Chegados os 3 ou 4 anos, a menina deixa de ter essa predileção pela mãe para começar a mostrar uma certa conduta de fixação ou paixão pelo pai.

O complexo de Electra tem seu suposto ponto de partida no momento em que as meninas descobrem que não têm pênis e, por sua vez, sentem o desejo de obter o que este órgão sexual simboliza. Os psicanalistas afirmam também que esta proximidade em relação à figura paterna gera uma certa rivalidade e distância em relação à mãe.

Podem desenvolver ciúmes e mostrar condutas que vão deste o afeto possessivo pelo pai até uma certa hostilidade se em um dado momento a menina não consegue o que deseja da figura materna.

A resolução natural do complexo de Electra

Chegados os 6 ou 7 anos, a menina sente de novo a necessidade de proximidade e identificação com sua mãe. É aí que começam a mostrar condutas de imitação e de curiosidade pelo mundo feminino onde a pequena vai assentando seu papel de gênero.

Jung enfatizava com sua teoria que toda esta fase faz parte do desenvolvimento normal da menina, no qual se posicionam os primeiros tijolos de sua conduta afetiva, social e psicológica que seguirá amadurecendo nos anos posteriores. Por sua vez, é necessário que toda fricção seja dissolvida, e que as meninas não vejam mais suas mães como inimigas, como rivais, evitando assim possíveis dinâmicas que mais tarde podem criar muros no seio da família.

Complexo de Electra

O que há de verdade na teoria do complexo de Electra?

Há muitas meninas que sentem uma preferência pelo pai em uma época determinada da vida, isso é verdade. No entanto, cabe ressaltar aqui que a psicologia moderna vê estas teorias edípicas e electras como enfoques muito ultrapassados, assim como as clássicas etapas psicossexuais marcadas por uma fase oral, outra anal e outra fálica. De fato, existem vários psicanalistas renomados que não compartilham esta visão e teoria, como a alemã Karen Horney, que disse que afirmar que as meninas passaram por uma etapa em que invejavam o pênis de seus pais era uma ofensa às mulheres.

Apesar disso, se em algum momento uma menina mostra condutas comuns como buscar o afeto do pai antes que o da mãe, escolher passar com ele a maior parte do seu tempo ou dizer em voz alta que “quer se casar com papai”, devemos entender que não há nada de errado ou patológico nisso. No fim das contas, o pai é sua figura masculina mais próxima e sua referência em muitos aspectos. Este tipo de fantasia, brincadeira e comportamento irá desaparecendo de forma natural à medida que a socialização com seus iguais adquirir uma maior importância.

Para concluir, nem o próprio psicólogo Carl Jung deu um valor completamente biológico ou universal a isso. É somente uma conduta que pode surgir em algumas meninas e que costuma se resolver em pouco tempo.

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