A transexualidade não é um problema, o ódio à diferença sim

· junho 5, 2017

A transexualidade não é um problema. Isto não seria assim se não existissem pessoas empenhadas em doutrinar, mentes obcecadas em impor como devemos amar, sentir e construir inclusive a nossa própria identidade de gênero, como se esta pudesse ser escolhida. O verdadeiro problema é, simplesmente, o ódio pela diferença.

De alguma forma, e quase que desde que desenvolvemos o conceito de sociedade ou mesmo o tão debatido conceito de “civilização”, o ser humano se empenhou sempre em estabelecer um forte “nós” diante “dos outros”, como bem diria o recentemente falecido Tzvetan Todorov. A aceitação da diversidade humana, da liberdade cultural, religiosa ou sexual é uma questão pendente que muitos se negam a reconhecer, como se a existência de outras opções fossem um ataque à sua opção.

“Nada é mais intenso do que a aterradora sensação de termos arrancada a nossa própria identidade.”
-Alejandra Pizarnik-

Um exemplo disso pôde ser visto recentemente com a caravana criada pelo grupo ultracatólico “HazteOir” (Faça-se Ouvir), que partiu de Madrid com uma finalidade muito clara: doutrinar a sociedade sobre a identidade de gênero através do seguinte slogan: “Meninos têm pênis. Meninas têm vagina. Se você nasce homem, é homem. Se você é mulher, continuará sendo mulher”.

Este lema puramente transfóbico e discriminatório teve grande eco nos meios nacionais e internacionais diante do qual praticamente ninguém ficou indiferente.

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O gênero que se sente e o gênero designado

Começaremos este artigo falando de Trinity Xavier Skeye. Ela mora em Delaware, Estados Unidos, e atualmente é uma menina de 12 anos feliz e belíssima. No entanto, o que nem todo mundo sabe quando observa esta garota de olhos grandes e cabelo colorido é que ela já quis se suicidar.

“Você precisa ser capaz de amar o outro de tal forma que ele se sinta livre.”
-Thich Nhat Hanh Spain-

Trinity nasceu com pênis e, conforme a sociedade aponta, foi criado, vestido e orientado segundo o seu gênero. O gênero designado. Contudo, com 3 anos de idade disse para a mãe que havia alguma coisa que “estava errada, muito errada”: ela era uma menina, e não um menino. A sua família não quis dar muita importância para aquelas ideias, afinal… como dar importância, se era apenas uma criança de 3 anos?

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Quando essa criança de apenas três anos fez quatro, caiu em um silêncio absoluto e começou a mastigar a sua roupa de menino, essa que os outros insistiam que devia usar de qualquer jeito. Mais tarde, Trinity tentou cortar seu pênis. O imperativo dos seus pais era um “NÃO” para a vida dela, era um “NÃO” firme e absoluto para continuar existindo no seu corpo, que mais do que um envoltório físico, era uma prisão.

Quando os terapeutas infantis receberam Trinity, souberam claramente que o problema não estava na pequena. O primeiro que fizeram foi lhe dizer que “não havia nada de errado com ela”. Que o erro estava nos pais. Portanto, foram enfáticos e muito claros. Perguntaram o seguinte a eles: “O que vocês preferem, uma menina feliz ou um menino morto?”

Atualmente Trinity é a primeira menor em Delaware cujo tratamento médico é subsidiado. A sua mãe, DeShanna Neal, é uma defensora inflexível da sua filha, alguém que lamenta não tê-la apoiado quando ela pediu ajuda pela primeira vez. Também compreendeu que as crianças não devem ser tratadas segundo o gênero designado biologicamente, mas pelo gênero sentido.

A transexualidade e intersexualidade

As pessoas que não se encaixam na designação tradicional de gênero pedem mais atenção, longe das clássicas opiniões ofensivas e informações caducas. Um exemplo disto está nas crianças intersexuais. Ser intersexual, e é preciso esclarecer isto, não é ser hermafrodita. Acontece quando existe uma discrepância entre o sexo genético, o da gônada, e o dos genitais, um fator que caracteriza, segundo a OMS, 1% da população.

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Jonathan, 8 anos

Jonathan é um exemplo disso. Ele tem 8 anos de idade e, desde que tinha 2 anos e meio, soube claramente que era um menino e uma menina ao mesmo tempo. A sua família também precisou dar o passo psicológico e social em direção a essa realidade na qual entra em jogo uma coisa inquestionável:  a felicidade do próprio filho. Porque quem ama, quem respeita e tem como principal prioridade o bem-estar de uma criança, apoia, aceita e ajuda.

Atualmente Jonathan costuma passar suas férias no “Acampamento Dia Arco-íris” na Baía de São Francisco, na Califórnia. Lá, as crianças podem expressar livremente a sua identidade de gênero, e o nosso protagonista aproveita se fantasiando sempre de um animal muito especial: o unicórnio.

É hora de redefinir o conceito de gênero

Na nossa sociedade não existe uma “Inquisição Gay” como afirma o grupo “HazteOir”. Também não existem comunidade, colégios ou famílias que procurem, por capricho, confundir as crianças orientando-as a uma determinada identidade de gênero em especial, como também defendem nesta caravana da polêmica e das mágoas. Nada disto é verdade por uma razão muito simples: a identidade de gênero não se escolhe.

Nenhuma criança acorda um dia e decide ser uma menina assim como decide se esse dia vestirá esse casaco ou outro, e nenhuma menina escolhe impulsivamente ser menino só porque quer mudar de estilo de roupa. Porque o gênero não é uma cor, nem um sabor ou par de sapatos que a gente calça e tira de acordo com o humor.

“A violência, seja física ou através de palavras, é o recurso do incompetente.”
-Isaac Asimov-

Atualmente a maioria de nós sabe que os termos “masculino” e “feminino” não se conjugam com a nitidez e a precisão adequada. O sexo é uma amálgama construída por cromossomos (X e Y), pela anatomia (genitais externos e órgãos sexuais internos) pelos hormônios e, acima de tudo, por essa psicologia onde as crianças sentem desde pequenas qual é a sua identidade de gênero.

Isso explica porque atualmente aumentou o número de famílias que demandam dos centros educacionais que seus filhos sejam tratados pelo seu “gênero sentido” e não pelo seu “gênero designado”. As crianças, seja qual for a sua identidade, precisam ser aceitas.

Se continuarmos invocando a rejeição, a diferença, o conceito de que “se você nasce homem, é homem, se você é mulher, continuará sendo mulher”, estaremos alimentando o ódio ou provocando que se repitam muitos fatos traumáticos e imperdoáveis como o que aconteceu com Leelah Alcorn, uma jovem trans que se suicidou há alguns meses se lançando na frente de um trailer em Ohio porque não era aceita por seus pais.

É preciso se envolver. Entender que o mundo não se divide em rosa e azul, e que talvez seja já a hora de redefinir o conceito de gênero. Gostando disso ou não, termos como transgênero, cisgênero, gênero não binário, queergênero ou agênero dão forma a uma realidade social mutante que devemos reconhecer para lhe dar apoio, reconhecimento e normalização.

Criar um mundo mais justo depende de nós.