O que fazer diante das crises de TPL?

setembro 3, 2019
As pessoas que sofrem com o transtorno de personalidade limítrofe costumam passar por crises ao longo de toda a vida. São episódios de instabilidade emocional que são vividos com muito sofrimento e, na maioria dos casos, com medo do abandono. Mas o que será que está por trás dessas crises? Como podemos agir diante delas?

O transtorno de personalidade limítrofe (TPL) acarreta um padrão de instabilidade nas relações interpessoais, na autoimagem e nas emoções que, na maioria dos casos, pode ser considerado destrutivo. Quem sofre com ele passa por diferentes crises de TPL ao longo de sua vida, como resposta a algum fator estressante ou biológico.

O transtorno limítrofe vai perdendo força com o passar dos anos. Mas não podemos esquecer que, por se tratar de um distúrbio de personalidade, estamos falando de algo crônico com o que é preciso aprender a lidar.

As crises de TPL são vividas como um tsunami emocional extremamente difícil de controlar. A impulsividade, o medo do desamparo ou do abandono e, por vezes, a necessidade de fazer mal a si mesmo são fatores que se impõem na vida da pessoa sem que ela possa fazer nada.

É como se outra identidade a possuísse. De fato, uma vez terminada a crise, surgem os sentimentos de vergonha e culpa, pela pessoa não se sentir identificada com o que aconteceu.

Por outro lado, o meio, que não compreende o que acontece com o indivíduo que sofre uma crise de TPL, tenta impedir que ele faça coisas das quais possa se arrepender depois.

Evidentemente, o dor pelo familiar que sofre desse transtorno é enorme. Não apenas porque as crises podem envolver agressões verbais ou físicas, mas porque todos sabem que, no fundo, quem mais sofre é o próprio paciente que tem TPL.

Mulher triste

O que as pessoas ao redor podem fazer nas crises de TPL

Se perguntarmos a vários pacientes que têm transtorno de personalidade limítrofe do que eles precisam quando estão em plena crise, é muito provável obtermos a resposta de que a única coisa de que precisam é afeto, compreensão e, em última instância, amor.

Quando as crises ocorrem, a pessoa se sente extremamente vazia, como se lhe faltasse alguma peça emocional. Em função dessa sensação, ela sai em busca dessa “peça”, mesmo que não o faça da maneira mais apropriada.

Em vez de pedir carinho e afeto com palavras, ela o faz por meio de exigências e críticas cheias de raiva, instabilidade e disforia constante.

É possível que, no início, as pessoas tentem dar atenção e compreender, raciocinar com quem passa por essa situação, etc. Mas ao comprovar que isso não trará resultados, o mais seguro é que terminem se afastando.

Isso acaba por confirmar a sensação de abandono tão temida pelas pessoas que têm TPL, o que aumenta suas emoções disfóricas.

Portanto, o mais sensato e recomendável por parte de familiares e amigos da pessoa é oferecer acompanhamento sem julgar na presença de uma crise de TPL. A seguir, vamos nos aprofundar um pouco mais nesse assunto.

Algumas estratégias para lidar com as crises de TPL

A maioria das pessoas que sofrem de transtorno de personalidade limítrofe cresceram em ambientes nos quais suas emoções não foram validadas, o que se conhece como ambientes invalidantes.

Isso, vinculado a uma certa predisposição biológica para sofrer do transtorno, contribui para o seu desenvolvimento.

Apesar de não podermos controlar a parte biológica, não podemos dizer o mesmo sobre a parte ambiental.

Como já afirmamos, em meio a uma crise de TPL, a pessoa precisa de companhia sem julgamentos, uma aceitação incondicional e uma validação de suas emoções. Isso, de maneira paradoxal, vai fazer com que a intensidade emocional diminua e que as crises sejam de menor duração.

Assim, algumas estratégias que, como familiares e amigos, podemos praticar a fim de reduzir as crises de TPL de quem amamos podem ser as seguintes:

Aceitação incondicional

A pessoa que tem transtorno limítrofe precisa de aceitação incondicional, apesar de sofrer do transtorno. Isso implica que quem estiver ao seu lado terá que aceitar a existência do distúrbio e que, às vezes, ocorrerão crises. Estas devem ser adjetivadas como tal: crises de uma doença.

Dessa maneira, quando aparecerem, não vamos dar um sermão no paciente, não nos posicionaremos na defensiva ou contra ele. Pelo contrário, deveremos entender que isso faz parte do transtorno e que tem uma duração finita.

Proporcionar afeto

Em plena crise, como já afirmamos, a pessoa que sofre de TPL precisa de amor, companhia, afeto e empatia. Para isso, só precisamos ficar ao lado dela, sem julgar.

Se ela nos insultar, não é recomendável ficar na defensiva nem jogar isso na cara dela. Simplesmente expresse que você está ao lado dela para qualquer coisa. É difícil ser tão frio quando alguém que amamos nos trata mal, mas é a maneira ideal de desativar este comportamento.

Se começarmos a discutir, a única coisa que podemos conseguir é aumentar a intensidade da crise. Assim, provavelmente a situação não vai acabar bem.

Ajudar a se desvincular da patologia

Podemos lembrar a pessoa que ela não é o transtorno. O TPL é autônomo. Como em qualquer outra doença, vai gerar sintomas que a pessoa vai manifestar. Mas isso não quer dizer que ela seja uma pessoa ruim ou que esteja de acordo com os sintomas do TPL.

Isso ajuda a pessoa a se sentir compreendida e confortada. Além disso, reduz a culpa uma vez terminada a crise.

Apoio emocional para enfrentar as crises

Manter a segurança

Como às vezes pode haver tentativas de automutilação, que agem como reguladores emocionais, é importante não deixar a pessoa sozinha em plena crise.

Além disso, se percebermos que pode de fato haver tentativas de mutilação ou suicídio, é conveniente eliminar do alcance da pessoa objetos como facas, comprimidos, etc.

Não superproteger

Dar afeto a alguém não é sinônimo de superproteger. Uma coisa é validar as emoções e tolerar o distúrbio. Outra é fazer com que a pessoa se torne dependente. É positivo incentivar a pessoa a manter suas rotinas diárias, sua autonomia e responsabilidade.

Assim, as crises são toleradas e compreendidas, mas a vida do paciente continua como sempre.

As crises de TPL não são fáceis de lidar, nem por parte do paciente nem por parte da família. A intensidade emocional chega a níveis tão elevados que a única coisa que queremos é nos afastar. O paciente tenta se regular emocionalmente provocando dor a si mesmo e ao meio, afastando-se.

Talvez possamos nos propor a empregar a estratégias oposta. Em vez de fugir do turbilhão emocional do paciente que tem TPL, poderíamos começar a abraçá-lo. Mesmo que essa não seja a nossa vontade, menos que nesse instante queiramos evitar a pessoa a todo custo.

Podemos nos surpreender com o efeito dos abraços, muitas vezes desativando os demônios e fazendo com que a pessoa volte a si mesma.

  • American Psychiatric Association (APA) (2014): Manual de Diagnóstico y Estadísitico de los Trastornos Mentales, DSM5. Editorial Médica Panamericana. Madrid.
  • Frías, A. (2017). Vivir con trastorno límite de la personalidad. Una guía clínica para pacientes. Serendipity. Desvele de Brouwer.