‘Custódia’, um filme que mostra que os monstros não são de mentirinha

maio 9, 2019
Você concederia a custódia compartilhada a um agressor? Esse filme aclamado na França coloca os espectadores por trás dos olhos da justiça.

O drama sobre a violência exercida pelos homens, Jusqu’à la garde (Custódia, no Brasil), estreia do diretor Xavier Legrand, foi reconhecido no dia 22 de fevereiro como o melhor filme na 44ª edição dos prêmios César do cinema francês. Este resultado não nos surpreende.

Pelo menos para mim, esse filme chegou sem aviso prévio e deu um choque de realidade mostrando genialidade ao abordar um tema que recebe pouca importância social.

O diretor nos situa como espectadores em uma sala na qual são acordados os pormenores da custódia compartilhada… e não conseguimos tirar os olhos da tela até o final.

Constatamos que os monstros existem e que às vezes fazem parte de famílias, não ficam em lúgubres e isoladas esquinas noturnas. Os monstros podem estar muito perto, e isso pesa ainda mais.

Custódia com um monstro

A história é apresentada através da juíza que cuida do caso de divórcio e da custódia dos filhos do casal. É difícil ter uma visão total do caso, embora alguns de seus elementos mais importantes pareçam evidentes, como a violência exercida pelo pai em relação à mãe.

É a partir daí que tudo começa a parecer mais difuso e a justiça parece cometer deslizes. Não deveria haver dúvidas em questões tão importantes quanto saber se é conveniente ou não obrigar um filho a passar um tempo com o agressor de sua mãe.

O advogado de Miriam descreve um homem particularmente possessivo e violento, ao passo que o advogado de Antoine nega essa descrição e defende que é anormal que Miriam queira impedir Antoine de demonstrar o amor por seus filhos.

Ecoa na sala o relato da declaração de uma criança pedindo para não ficar com seu pai. Enquanto isso, a magistrada crava seu olhar em ambos os progenitores tentando detectar alguma anomalia ou algum gesto que determine seu veredito, duvidando da sua futura decisão.

Para o advogado da mãe, é difícil encontrar uma prova clara sobre o verdadeiro caráter do pai. Um agressor sabe adaptar seu comportamento em relação aos seus interesses em determinada situação. Assim, o véu sobre a verdadeira personalidade de seus protagonistas só será levantado posteriormente no filme.

A partir da decisão judicial na qual se estabelece a custódia compartilhada, podemos adivinhar que a catástrofe está por vir. Uma lenta explosão de violência, repressão e inquietação atravessa a tela por meio da magistral interpretação de Thomas Gioria como Julien, a criança da família.

Da fria decisão judicial ao inferno da guarda compartilhada

Desde o primeiro momento em que o pai (Denis Ménochet) assume sua custódia, vive-se um clima de tensão latente. Um primeiro plano do rosto da criança assustada; um diálogo sem palavras capaz de eriçar os nervos e transmitir uma sensação de asfixia.

O olhar da criança e suas expressões narram a história do que é vivido, do que é sentido. A ausência de música faz com que os sons da vida cotidiana soem como ameaças. Uma chave ao abrir a porta, o som que é o gatilho do medo para muitas mulheres vítimas de maus-tratos.

Nós percebemos que não estamos diante de um caso de alienação parental, um rótulo diagnóstico de base científica duvidosa. O pervertido narcisista Antoine às vezes sabe se mostrar um ser incompreendido e que quase poderia ser uma vítima, uma vítima porque ama sua família.

Custódia mostra que os monstros não são de mentirinha

Ninguém da família acredita nesse papel interpretado pelo pai. Sabem que qualquer aproximação não é um arrependimento sentido, mas uma aproximação maior do controle que deseja recuperar. A grande força desse filme reside especialmente na forma como o diretor, Xavier Legrand, nos deixa sem ar ao fazer uso de uma mistura de medo e esperança um tanto perversa.

Intuímos uma cena de alta voltagem como culminação de toda a tensão e frustração do pai. Um pai que não consegue que a custódia compartilhada o reaproxime de sua assustada mulher, que vive se escondendo e mentindo para evitar qualquer tipo de agressão.

A estratégia do pai de se aproximar da esposa, Miriam (Léa Drucker) através da intimidação do filho parece fracassar. Já sabemos que a frustração é um componente a ser levado em consideração como percursor da raiva e da violência.

É então que se começa a escutar um timbre, um som constante que nos faz prender a respiração. Voltamos à fria sala onde se estabelece a custódia. Não sabemos como foi exatamente o caso de maus-tratos que ocorreu, mas intuímos que foram muitas situações sem solução.

Cena do filme 'Custódia'

A responsabilidade social

O desenrolar da história antecipa a catástrofe. Só merece o adjetivo de devastador. A protagonista se apega à possibilidade de que esse som do “telefone” cesse. Ela sabe que está lá embaixo, sabe que vai tocar por muito tempo. Intui que irá embora.

No entanto, o som acaba e começam outros, mostrando que dessa vez Antoine não está disposto a parar. A última cena desse filme é terrível, sem necessidade de efeitos especiais nem maquiagem lúgubre. O protagonista já não parece um ser humano, somente uma fera cegada pelo orgulho e pela vingança.

É tamanha a realidade que se respira que a empatia por essa mãe e seu filho chega a doer. Somos a vizinha que avisa sobre o que acontece, o policial que atende a chamada tentando usar todo o seu conhecimento.

Constatamos que os monstros existem e que às vezes fazem parte de famílias. Os monstros podem ter o mesmo sobrenome que nós e isso pesa ainda mais. Não se pode combater com terapias cognitivo-comportamentais, isso virá depois.

Os monstros são combatidos com a força da educação, a fuga da empatia, o escudo da solidariedade, as grades da justiça e a aplicação de uma intervenção.