Debriefing psicológico: uma ferramenta contra o trauma

· maio 2, 2018

O debriefing psicológico é uma intervenção breve realizada nos primeiros dias após um evento traumático. Esse evento pode ser uma catástrofe natural, como um terremoto ou enchente, ou acidentes, seja de trânsito, aéreo ou ferroviário.

Em um debriefing, colegas que viveram algo juntos ou mesmo desconhecidos que passaram por alguma situação semelhante formam um grupo que é coordenado por um profissional. O objetivo é gerar um espaço de apoio intergrupal para as pessoas que estão vivendo ou viveram coisas parecidas.

Esse espaço funciona como um lugar para se expressar de forma segura, para expor todos aqueles sentimentos, pensamentos e reações que surgiram com o acontecimento. Isso ajuda a prevenir futuros transtornos mentais pela significação do ocorrido dentro da vida de cada um.

Essas pessoas se reunem, então, para aliviar a carga emocional acumulada por trás da vivência. O encontro dirigido por psicólogos busca a exposição verbal da experiência, momento difícil para aqueles que passam por acontecimentos traumáticos.

Por isso, o debriefing é uma técnica destinada a trazer um fechamento e integrar os acontecimento potencialmente traumáticos, introduzindo oportunidades de aprendizagem emocional e técnicas para gerir emoções. Essa ferramenta é considerada de grande ajuda para evitar o aumento dos sintomas também em profissionais que lidam com emergências.

Atendimento psicológico após um trauma

Os profissionais também sofrem

Os profissionais que lidam com emergências também são humanos. Também adoecem, sofrem e, às vezes, também precisam de ajuda. Muitas vezes eles acabam sendo esquecidos. Esses profissionais têm um alto risco de sofrer um dano psicológico ligado ao seu trabalho. Isso faz com que seja de suma importância que recebam assistência imediata em situações de grande impacto, mesmo que seja com um fim apenas preventivo.

Frequentemente eles assumem trabalhos que não levam em consideração sua idade, sua formação, suas habilidades e experiência anterior. Isso pode causar a aparição de sintomas de estresse que vão se tornando cada vez mais agudos. Em outros casos é o próprio profissional que não é capaz de reconhecer que a situação está exigindo mais do que ele pode dar.

A intervenção em uma catástrofe não tem horário para acontecer, nem para terminar depois que acontece. As demandas para os profissionais surgem nas mais diversas formas e urgências, em turnos que são estabelecidos também sem planejamento ou preparação prévia.

Os profissionais devem ter à mão diversos recursos para serem utilizados nesses momentos. Diante da gravidade, podem surgir propostas que são aparentemente pouco eficazes, mas isso é normal se entendermos a dimensão e as características da situação que está sendo enfrentada. Os profissionais também devem estar preparados para lidar com esse fato.

Sintomas que os profissionais de emergência experimentam

Os sintomas que os profissionais de emergência podem ter no atendimento após catástrofes são muito variados. Fisiologicamente, o técnico que desenvolve sua função sofrendo muita pressão pode ter fadiga, náuseas, calafrios, falta de ar, etc… sintomas de ansiedade e esgotamento.

O nível cognitivo do profissional deve estar sempre muito alerta e vigilante, mas ele terá pensamentos negativos que deverá saber como parar. Afinal, sua resposta afetiva será como a de qualquer outra pessoa: de medo, ansiedade, irritação, e até mesmo de choque emocional.

No contexto motor, uma característica muito comum é a incapacidade de descansar, a fala acelerada e o uso de gritos durante as conversas. Para evitar que esses sintomas se acentuem, o debriefing é, sem dúvida, uma ferramenta excepcional.

Por que é importante reconhecer o próprio estresse e agir contra ele?

Os efeitos do estresse entre os profissionais de emergência podem trazer muitos danos para a pessoa. Vamos ver alguns desses efeitos:

– No ambiente de trabalho:

  • Deterioração da qualidade de seu trabalho.
  • Aumento de faltas no trabalho.
  • Menor envolvimento.
  • Aumento dos conflitos entre os colegas, superiores ou subordinados.

– No ambiente familiar:

  • Conflitos nos relacionamentos da pessoa.
  • Precisar de apoio para emoções negativas e relatos para os quais o familiar não está preparado.
  • Isolar-se, fechar-se e não se envolver na família.
Psicólogos discutindo

Colocando o debriefing psicológico em prática

A ajuda aos profissionais de emergência não termina com a intervenção deles em campo. Ela deve continuar após o término do turno ou proposta. Isso é uma questão que deveria estar explícita já na organização do trabalho. Uma espécie de tarefa de manutenção para evitar que o desgaste se acumule nas peças mais importantes da engrenagem, garantindo que tudo funcione. Essas peças são justamente as pessoas.

Essa técnica de apoio grupal ou reuniões para acolhimento emocional já tem muitos seguidores. Muitas organizações utilizam esse procedimento em sua versão original ou adaptada para ajudar as pessoas a gerirem suas emoções após trabalharem em catástrofes naturais.

Essas reuniões têm uma série de regras e são comandadas por um especialista. Durante as mesmas, os participantes narram na sua visão diferenciada os acontecimentos objetivos e as reações subjetivas, cognitivas e emocionais que os fatos implicaram para cada um.

Uma vez terminado o trabalho, o turno, ou finalizado o salvamento ou resgate, deve haver ainda um encontro final do grupo de trabalho em que os participantes possam:

  • Narrar os fatos vividos.
  • Falar sobre os sentimentos experimentados.
  • Informar-se sobre os sintomas e identificar o que pode estar experimentando, ou o que pode vir a sofrer nos próximos dias.
  • Dar e receber indicações de como agir diante desses sintomas.
Apoio emocional

Fases do debriefing

O processo de debriefing não é um improviso, e sim um encontro estruturado que passa pelas seguintes fases:

  • Explicação dos objetivos.
  • Fatos: cada membro se identifica e explica o que aconteceu com ele.
  • Pensamentos: cada membro descreve o que viveu e viu e os pensamentos que teve.
  • Reação: comentam as reações. Pede-se que cada membro foque no pior que tenha vivido.
  • Sintomas: cada membro comenta as respostas de estresse que sofreu imediatamente depois do fato e as ainda presentes.
  • Ensinamentos: o especialista mostra a normalidade das reações e ensina ou recorda os participantes sobre alguns mecanismos de enfrentamento.
  • Reentrada: as dúvidas são esclarecidas e há a oportunidade de dizer novas coisas que ainda não foram trazidas, além de oferecer a possibilidade de algum apoio adicional que se mostre necessário.

Depois do debriefing, quando tudo já “está de volta ao normal”, os profissionais de emergência podem seguir manifestando alguns sintomas. Esses sintomas incluem a rejeição ao descanso, a autocrítica sobre sua atuação, sentir-se incompreendido dentro de seus relacionamentos mais próximos ou conhecidos, etc.

Como vimos, o estresse que pode ser produzido diante de intervenções de emergência ou em uma catástrofe podem alcançar níveis muito altos e difíceis de manejar. O debriefing é realizado entre as primeiras 24 a 72 horas após o incidente crítico.

Mediante a necessidade do debriefing, o objetivo é colocar o sofrimento em palavras, dar uma estrutura aos acontecimentos e aliviar o estresse provocado nos participantes pela vivência. Isso é feito de modo planejado e estruturado por especialistas no assunto.

Trata-se de aprender a entender e lidar com as reações normais que derivam de um acontecimento traumático difícil. Isso é feito em um espaço em que as pessoas se sintam, enfim, seguras, acompanhadas e guiadas terapeuticamente no processo de integração e resolução de seus problemas.

Referências bibliográficas

  • Costa Marcé, A. & Gracia Blanco, M. de. (2002). Debriefing y tría psicológica en intervención, en crisis: una revisión. Debriefing and Psychological Triage in crisis intervention: a review, 23(5), 198-208.
  • Echeburúa, E. & Corral Gargallo, P. de. (2007). Intervención en crisis en víctimas de sucesos traumáticos: ¿cuándo, cómo y para qué? Crisis intervention in victims of traumatic events: when, how and what for?, 15(3), 373-387.