Depressão com alta funcionalidade: sinais para reconhecê-la

abril 23, 2019
A depressão com alta funcionalidade caracteriza pessoas que cumprem com seus trabalhos, que são ativas e aparentam ser felizes. No entanto, por trás desta máscara frequentemente se esconde uma distimia mantida por muito tempo.

A depressão com alta funcionalidade não é percebida facilmente. Tem a cara daquela pessoa que cumpre com o seu trabalho, que pratica exercícios regularmente, que posta fotos em suas redes sociais sempre sorrindo para todos. No entanto, por trás desta aparente normalidade está mascarado um tipo de depressão que pode se arrastar por anos com episódios bastante graves.

Há uma imagem muito comum que a maioria das pessoas tem em mente quando fala-se de depressão. É fácil visualizar alguém deitado na cama, com as janelas fechadas e incapaz de enfrentar os desafios que as circunstâncias apresentam.

São poucos os que poderiam pensar que um determinado companheiro de trabalho, a caixa do supermercado ou inclusive nossa própria mãe sofra de um tipo de condição psicológica que os coloca em um estado de sofrimento permanente, de desamparo mascarado.

A depressão com alta funcionalidade caracteriza pessoas que, nas primeiras impressões, demonstram um rendimento normal em qualquer área de suas vidas. Trabalham, se relacionam, sorriem, se comunicam… No entanto, arrastam consigo mesmas um mal-estar profundo por muito tempo. Tal sentimento é evidenciado, por exemplo, ao se levantar pelas manhãs.

As primeiras horas do dia têm nuances de uma ansiedade tremenda. Uma ansiedade na qual há uma pressão asfixiante em ter que “dar conta de tudo”, “continuar sendo perfeita, aparentar normalidade, cumprir com todas as obrigações”. Cedo ou tarde, estas dificuldades vão acabar se tornando crônicas até levar a uma depressão maior.

“Nossa maior glória não está em nunca cair, mas em nos levantarmos cada vez que caímos.”
-Confúcio-

Homem triste por sua vida profissional

A depressão com alta funcionalidade: o que é e quais sintomas apresenta?

A depressão com alta funcionalidade descreve o que é clinicamente conhecido como distimiaEntretanto, apresenta uma particularidade que a diferencia do diagnóstico mais clássico: neste caso, a falta de energia não aparece. A razão disso está no fato de que muitos pacientes evidenciam um alto sentimento de perfeccionismo. Parar ou falhar em algum aspecto são coisas que eles não toleram.

Sendo assim, alguém que lida com uma distimia é capaz de se levantar todos os dias e cumprir com as suas obrigações. E mais, às vezes acomete profissionais de muito sucesso e pessoas altamente competentes das quais ninguém suspeitaria que, em seu interior, lutam contra a angústia, o desespero e a infelicidade.

Além do que podemos pensar, a depressão com alta funcionalidade é uma condição grave. Às vezes podemos encontrar casos nos quais uma pessoa chegou a cometer suicídio sem que ninguém à sua volta soubesse a razão. Nada explica como alguém com a vida em perfeita aparência optou por um fim tão dramático.

Não podemos nos esquecer de um aspecto importante. Estudos como o realizado na Universidade de Medicina da Universidade de Pittsburgh, nos Estados Unidos, chegaram a conclusão de que a distimia afeta quase 6% da população. Não detectá-la ou não procurar ajuda fará com que leve a uma depressão maior com sérias características.

Vamos conhecer, portanto, quais sintomas a depressão com alta funcionalidade apresenta.

Médica exausta tomando café

Dificuldade para sentir alegria, para sonhar e ter motivação

A pessoa com esta condição psicológica é capaz de expressar emoções positivas. No entanto, expressá-las não significa senti-las. Porque esse tipo de paciente é incapaz de sentir tamanha alegria, motivação por alcançar objetivos ou aproveitar as coisas de que gosta.

Isso gera, sem dúvida, uma ambivalência que esgota, porque elas precisam aparentar normalidade, simular eficácia e competência.

Autocrítica implacável

Já dissemos isso antes. A depressão com alta funcionalidade caracteriza, principalmente, pessoas muito exigentes consigo mesmas. São perfis perfeccionistas que não hesitam em criticar a si mesmas em qualquer aspecto. Não se permitem falhar, ter dúvidas, nem aparentar fracasso.

Dessa forma, chega uma hora em que essa autocrítica se desloca também para o exterior. Finalmente, acabam processando toda a sua realidade como algo cheio de erros, de aspectos irritantes, incômodos e vazios. Tudo isso aumenta ainda mais o sofrimento.

As coisas pequenas ficam enormes

Quando alguém se atrasa, quando o metrô está cheio, quando o parceiro esquece algo, quando os filhos sujam a sala, quando não há internet, etc. Essas pequenas coisas do dia a dia, com as quais sempre é possível lidar da melhor forma, são um obstáculo de enorme magnitude para as pessoas com depressão com alta funcionalidade. Vamos pensar no seguinte: a pessoa tem que superar estes pequenos problemas com todo o peso que já arrastam dentro de si.

Assim, é fácil que reajam de forma exagerada. Elas fazem isso com um elevado nível de estresse, e longe de demonstrar abatimento ou inatividade, iniciam respostas aumentadas com as quais, em muitos casos, é possível solucionar estes problemas. No entanto, isso tem um custo psicológico imenso, e elas fazem isso até não suportarem mais.

Manipulação da mídia

Uso de estratégias próprias de enfrentamento da depressão com alta funcionalidade

O curioso destes tipos de pacientes é que a distimia é arrastada durante anos sendo gerenciada “de sua própria forma”. São conscientes de seu mal-estar, de sua angústia e infelicidade. Entretanto, longe de procurar ajuda profissional, optam por aplicar suas próprias estratégias de enfrentamento.

Porém, são recursos que atuam como uma válvula de escape. São formas de camuflar o problema, de despistá-lo. Por isso optam por ver de forma compulsiva suas séries de TV favoritas, por fazer esportes de forma intensa, por comer ou inclusive, em casos mais extremos, por abusar do consumo de álcool ou drogas.

Para concluir, a depressão com alto funcionamento caracteriza todos aqueles que são incapazes de parar e ter plena consciência de que precisam de ajuda psicológica. A necessidade de viver com pressa e de mostrar que somos eficazes esconde, frequentemente, uma realidade implícita séria e preocupante.

Se pararmos, a realidade vai bater à nossa porta: a realidade de que não sabemos lidar com a nossa vida, com nós mesmos, com esta depressão com a qual convivemos no modo automático por muito tempo. Sendo assim, pare um pouco e busque a ajuda de especialistas. A distimia tem tratamento e merecemos nos sentir melhor, viver melhor.

  • American Phychiatric Association. (2002). Trastornos del estado de ánimoDSM-IV-TR Manual diagnóstico y estadístico de los trastornos mentales (pp. 79–81). https://doi.org/10.1016/j.ejmech.2013.09.028
  • Spanemberg, L., y Juruena, MF (2004). Distimia: características históricas y nosológicas y su relación con transtorno mayor depresivo. Revista de Psiquiatria Do Rio Grande Do Sul , 26 (3), 300-311. https://doi.org/10.1590/s0101-81082004000300007