A depressão pós-adoção: um risco incompreendido

· novembro 11, 2018

A depressão pós-adoção é uma resposta comum – mas que não ocorre em todos os casos – às mudanças derivadas de uma adoção. As novas experiências e o desconhecimento de algumas das necessidades da criança adotada podem fazer com que os pais adotivos se sintam transbordados e produzam essa resposta emocional.

Trata-se de um desafio que não está livre de cargas físicas e emocionais. Algumas pessoas nesta situação vão precisar de ajuda. A chegada de um novo filho ao lar pode despertar sentimentos de alegria, felicidade ou euforia. Isso acontece tanto com os filhos biológicos quanto com os adotivos.

Em alguns pais, as emoções predominantes podem ser as consideradas de valor negativo, como a tristeza ou a frustração. Emoções que, por outro lado, também são registradas em muitos pais biológicos depois do nascimento do filho.

Diferentemente da depressão pós-adoção, a depressão pós-parto é reconhecida como uma possibilidade depois de uma gravidez sem complicações. Neste sentido, nos últimos anos avançamos muito, já que em muitos contextos e núcleos familiares fala-se abertamente sobre o tema e ela é considerada a partir de uma perspectiva médica.

Dificuldades na maternidade

Entre 50 e 80% das mães que dão à luz podem sofrer uma depressão pós-parto de forma leve. 10% dessas mães podem sofrer esse transtorno de uma maneira grave. A causa parece estar nas mudanças hormonais.

No entanto, a depressão pós-adoção não goza da mesma compreensão social, já que, de alguma maneira, é vista como mais “ilógica”. Este tipo de depressão não é tão aceito, nem tão entendido.

Isso colide com as estatísticas. As poucas pesquisas realizadas até o momento demonstram que existe uma alta porcentagem de pais que sofrem com este problema.

Quando não existe compreensão nem apoio

As sensações de conexão e vinculação com a criança adotada costumam surgir entre o segundo e o sexto mês depois da adoção. As mães adotivas, quando estão neste ponto, não costumam pedir ajuda: elas têm medo de que alguém possa pensar que não estão preparadas ou que estão insatisfeitas.

Assim, muitas dessas mães de primeira viagem temem contar a alguém, principalmente os psicólogos e as assistentes sociais, sobre essas dificuldades de adaptação à nova vida.

Elas pensam que, se expressarem os seus problemas, as pessoas irão duvidar da sua capacidade de se responsabilizar por um filho adotivo. Desta maneira, a situação, que já é bastante complexa, pode se complicar ainda mais.

Por exemplo, pensemos que, geralmente, a ajuda que os pais biológicos costumam receber do seu círculo social depois do parto não tem nada a ver com a ajuda que os pais adotivos recebem.

Mãe desesperada com bebê chorando

Os familiares dos pais adotivos podem não entender por que a mãe não se sente plenamente feliz agora que, finalmente, tem aquilo que havia desejado durante tanto tempo.

Estes pais, então, sofrem em silêncio e morrem de vergonha e de culpa devido ao medo de decepcionar a sua família. Na verdade, são eles mesmos os que, muitas vezes, se perguntam a mesma coisa que os seus familiares, sem encontrar uma resposta.

Causas da depressão pós-adoção

Por que existe uma porcentagem tão alta de pais que sofrem deste tipo de depressão? A maioria dos pais adotivos passa anos tentando adotar uma criança. Suas esperanças, sonhos e desejos prolongados podem provocar expectativas pouco realistas sobre o que é realmente ser pai.

Os novos pais podem se sentir culpados pelas suas emoções ambivalentes. De um lado, eles amam o seu novo filho, mas por outro lado, podem se sentir chateados ou bravos com esta criança se ela não cumprir com as suas expectativas.

Acreditar em um vínculo instantâneo com este novo ser, ou em amor à primeira vista, é pouco realista. Apaixonar-se por um filho adotivo é como se apaixonar por um companheiro amoroso. A paixão e a euforia iniciais são substituídas rapidamente pelo lento e difícil processo de ajuste à presença diária de outro ser humano.

Criança adotada

Como enfrentar a depressão pós-adoção

Nem sempre é fácil se adaptar às mudanças próprias da adoção de uma criança. No entanto, existem algumas pautas que podem ser de grande ajuda. São as seguintes:

  • Ao voltar para casa com a criança de forma definitiva, assegure-se de que dispõe de tempo suficiente para compartilhar.
  • Não se sinta culpado por não querer receber visitas. Por outro lado, aceite a ajuda de que você precisar. Você não vai ser uma mãe ou pai pior porque não dá conta de fazer tudo sozinho.
  • Tente aumentar ao máximo possível o tempo da licença-maternidade.
  • Durma o suficiente e pratique exercício físico. Está comprovado que fazer atividade física melhora o nosso humor.
  • Saia com o seu filho para passear. Divirtam-se juntos e criem laços afetivos.
  • Não tenha medo de falar sobre o que você sente. Entre em contato com grupos de discussão sobre adoção ou de pais adotivos. Busque pessoas com experiências parecidas com a sua.
  • Peça ao seu círculo familiar e amigos que entendam e respeitem as suas novas decisões. Diga a eles que você os ouve, mas que tem o seu próprio critério, e que vai ser você a pessoa a dar a última palavra no que se refere ao seu filho.
  • Reserve um tempo para você e o seu companheiro amoroso, no caso de ter alguém. Se você tiver mais filhos, também não descuide deles.
  • Aceite as suas limitações e não tenha medo do fracasso. Nós somos seres humanos, não somos perfeitos em nada e, obviamente, também falhamos na tarefa de educar.

Como já foi mencionado, a depressão pós-adoção é um transtorno do humor que, em muitos casos, se alimenta da falta de compreensão (tanto do entorno quanto das pessoas que sofrem dela).

Os pais adotivos podem ter medo de que o seu novo filho não cumpra com as expectativas criadas, e isso pode fazê-los se sentirem profundamente tristes e desanimados.

Se você está nessa situação, o melhor a fazer é pedir a ajuda de um especialista. Não tenha medo de falar sobre o assunto. Os profissionais da saúde vão entender o seu caso e poderão ajudá-lo em tudo aquilo que for possível.