Dificuldades cotidianas das pessoas com esquizofrenia

outubro 30, 2019
As pessoas com esquizofrenia sentem que, além de ter que conviver com o transtorno, também têm que fazer isso com a incompreensão e a estigmatização social. Por isso, elas pedem que a sociedade e os profissionais as escutem.

São muitas as dificuldades cotidianas das pessoas com esquizofrenia. Há diferentes tipos e elas precisam ser enfrentadas em diferentes níveis: biológico, psicológico e social.

Qualquer pessoa que sofre de uma doença sabe que ela virá acompanhada por dificuldades cotidianas; quando esta doença é de origem mental, como é o caso da esquizofrenia, é preciso considerar outros fatores, como o estigma social.

O documentário Sigue el desafío de la esquizofrenia”, no qual Eduard Punset entrevista a neuropsiquiatra Maria Ron para o programa Redes, fala sobre outra forma de entender e viver a doença por parte das pessoas que sofrem dela.

Eles se mostram especialmente críticos com temas como o diagnóstico e seus rótulos, o tratamento farmacológico generalista, o estigma social e a ausência de vias terapêuticas alternativas às farmacológicas que lhes permitam integrar-se socialmente (relação direta com o entorno, família, etc).

Manifestam que não se trata de um problema individual, mas sim da comunidade. Além disso, ressaltam que ele é tão complexo que não pode ser reduzido a um simples manual diagnóstico.

“A esquizofrenia não pode ser entendida sem compreender o desespero”. 
-Ronald Laing-

Mulher com esquizofrenia

Tipos de sintomas que as pessoas com esquizofrenia enfrentam

Segundo a neuropsiquiatra Maria Ron, atualmente a esquizofrenia é considerada uma síndrome que apresenta um conjunto de sintomas que podem se manifestar de diversas formas durante um determinado período de tempo. Estes sintomas podem ser de dois tipos:

  • Positivos: são aqueles sintomas relacionados com as alucinações, transtornos do pensamento, ideias delirantes, entre outros.
  • Negativossão os sintomas relacionados com o comportamento social e o humor. Assim, por afetar áreas tão importantes, influenciam de maneira significativa a pessoa com esquizofrenia. Alguns destes sintomas são falta de vontade, anedonia, indiferença afetiva, déficits cognitivos intelectuais, entre outros.

Vale destacar que, em geral, os medicamentos são úteis para o tratamento dos sintomas positivos. Por outro lado, a intervenção farmacológica não é tão eficaz diante dos sintomas negativos.

No entanto, estes últimos podem ser enfrentados quando a intervenção é complementada com outros tipos de terapias não farmacológicas, como a estimulação cognitiva, musicoterapia, técnicas de relaxamento, entre outras.

Por outro lado, qualquer tipo de tratamento, seja ou não farmacológico, deve ser adaptado às necessidades do paciente. Não devemos esquecer que ainda não contamos com um perfil neuropsicológico global e fechado da esquizofrenia.

Esta é a consequência da própria heterogeneidade do transtorno, apesar das coincidências em algumas alterações neuroquímicas, funcionais e anatômicas entre pacientes.

Fatores de risco

Entre os possíveis gatilhos ou fatores que podem pesar como preditores, a genética é um dos mais importantes. Como complementos, podemos acrescentar uma série de aspectos externos:

  • Consumo de drogas (cannabis, cocaína, anfetaminas, etc.).
  • Alterações no padrão de sono.
  • Acontecimentos de vida estressantes.
  • Fatores sociais, competitividade, sofre-esforço.
  • Separação da mãe na primeira infância.
  • Idade do pai na concepção.
  • Viver em regiões urbanas e não rurais.
  • Quociente de inteligência baixo. Segundo alguns estudos, as pessoas com QI baixo têm uma probabilidade maior de desenvolver uma esquizofrenia.

A importância de ouvir

Existem inúmeros projetos socioeducativos que favorecem a integração das pessoas com esquizofrenia na sociedade e ajudam a tratar os sintomas negativos do transtornos (aqueles que são mais resistentes à medicação).

Entre eles, temos o projeto Radio Nikosia, com o lema “O poder curativo das palavras”, que faz referência ao fato de que falar abertamente sobre a esquizofrenia e tudo que ela envolve é uma forma de ajudar.

Este projeto de rádio promove um espaço livre que permite que os pacientes ganhem autoconfiança, se sintam mais integrados, saiam do papel ou identidade de doentes mentais, se sintam úteis e sejam vistos como pessoas com potencialidades que vão muito além do transtorno que padecem.

Algumas pessoas que convivem com a síndrome mostram sua inconformidade diante do fato de que os diagnósticos e a medicação são padronizados, ou seja, costumam utilizar os mesmos critérios e tratam todos os afetados por igual, independentemente de sexo, idade, peso e outros fatores importantes.

O que eles querem é ser tratados como pessoas, e não como “doentes” com o rótulo de esquizofrênicos e perigosos.

As pessoas que sofrem de esquizofrenia costumam ser consideradas potencialmente perigosas, apesar dos dados atuais desmentirem esta ideia.

Os fatos analisados dizem que os crimes cometidos por pessoas com esquizofrenia são raros; em muitas ocasiões, foram encontrados casos em que a esquizofrenia foi considerada a causa de crimes para os quais não parecia haver um motivo.

Quanto aos delitos que são realmente consequência da esquizofrenia, encontramos como especialmente perigosas as pessoas com um delírio paranoide: elas atacam porque se sentem ameaçadas por um perigo que consideram real. No entanto, esta segunda ideia não deveria nos fazer esquecer a primeira.

“Não se trata de ter direitos iguais, mas de ter o direito de ser diferente”.
-Anônimo-

Terapia em grupo

Dificuldades cotidianas das pessoas com esquizofrenia

As pessoas com esquizofrenia defendem que a cura passa por atacar a causa da doença. Por outro lado, a maioria das intervenções, passadas e atuais, se centram em combater os sintomas desagradáveis com um tratamento paliativo, que tranquiliza a pessoa e faz com que ela não incomode.

Elas pedem que sejam ouvidas, que os profissionais e afetados pelo transtorno trabalhem em conjunto para dar forma a uma intervenção adaptada.

Tornar-se consciente da complexidade do transtorno e vê-lo em seu conjunto, com sintomas positivos e negativos, é um primeiro passo para entender as dificuldades cotidianas que os pacientes enfrentam.

Além disso, é fundamental ouvir todas as demandas das pessoas que padecem do transtorno e buscar soluções conjuntas.

Assim, intervenções interdisciplinares poderiam proporcionar resultados mais promissores, ao mesmo tempo em que seriam um reconhecimento da complexidade de um transtorno que, em muitos casos, só conseguimos narcotizar, com o que isso supõe a nível biológico, psicológico e social.

“A integração não é ir no mesmo ritmo, é valorizar o fato de que há diferentes ritmos”.
-Anônimo-