A dignidade é a linguagem da autoestima, nunca do orgulho – A mente é maravilhosa

A dignidade é a linguagem da autoestima, nunca do orgulho

novembro 24, 2017 em Emoções 0 Compartilhados
a dignidade

A dignidade não é uma questão de orgulho, mas sim um bem precioso que não podemos colocar em bolsos alheios nem perder levemente. Dignidade é autoestima, respeito por si mesmo e saúde. E também é a força que nos levanta do chão quando estamos com as asas quebradas, na esperança de chegar a um ponto distante onde nada doa, o que nos permite olhar o mundo novamente com a cabeça erguida.

Poderíamos dizer, quase sem equívocos, que poucas palavras têm tanta importância hoje como a que intitula desta vez nosso artigo. Foi Ernesto Sábato quem disse há pouco tempo que, aparentemente, a dignidade do ser humano não estava prevista neste mundo globalizado. Todos nós vemos diariamente, nossa sociedade está cada vez mais articulada em uma estrutura onde vamos perdendo cada vez mais direitos, mais oportunidades e inclusive liberdades.

“Além da dor e alegria, existe a dignidade de ser”
-Marguerite Yourcenar-

No entanto, e isso é interessante ter em mente, são muitos os filósofos, sociólogos, psicólogos e escritores que tentam nos oferecer estratégias para dar forma ao que eles chamam de “a era da dignidade”. Eles acreditam que é o momento de se definir, de ter voz e trabalhar em nossos pontos fortes pessoais para encontrar uma maior satisfação em nosso ambiente imediato, e gerar assim uma mudança significativa nesta sociedade cada vez mais desigual.

Personalidades como Robert W. Fuller, físico, diplomata e educador, colocou sobre a mesa um termo que sem dúvidas vamos começar a ouvir com mais frequência. Se trata do “hierarquismo”. Nesse termo são incluídos todos esses comportamentos do dia a dia que vão corroendo nossa dignidade: ser intimidados por terceiros (parceiros, chefes, colegas de trabalho), sofrer assédio, sexismo e inclusive ser vítima da hierarquia social.

Todos nós, em algum momento de nossas vidas, sentimos essa sensação de estar perdendo a dignidade de alguma forma. Seja devido a um relacionamento abusivo ou por realizar um trabalho mal remunerado, são situações com um alto custo pessoal. Exigir uma mudança, nos posicionar a nosso favor e lutar por nossos próprios direitos nunca será um ato de orgulho, mas sim de nos atrevermos a ser corajosos.

A dignidade na obra de Kazuo Ishiguro

Recentemente nos levantamos com a notícia de que o escritor britânico de origem japonesa, Kazuo Ishiguro, seria o Prêmio Nobel de Literatura deste ano. O grande público o conhece principalmente por um de seus romances, “Vestígios do dia”, uma obra que, por sua vez, foi levada ao cinema de forma excepcional. O mais curioso de tudo isso é que nem todos percebem qual é o tema central desse livro tão meticuloso, às vezes desesperador, mas sempre lindo.

Poderíamos pensar que “Vestígios do dia” nos fala sobre uma história de amor. De um amor covarde e de barreiras, daquelas onde os amantes nunca chegam a tocarem suas peles e as pupilas ficam perdidas em qualquer outro lugar, exceto na pessoa amada. Talvez podemos deduzir que o livro seja a história de uma casa e seus habitantes, senhores e servos, e como um nobre, Lord Darlington, procurou a amizade dos nazistas diante da passividade de seu mordomo que via seu mestre trair a pátria.

Poderíamos dizer isso e muito mais, porque essa é, sem dúvida, a magia dos livros. No entanto, “Vestígios do dia” fala da dignidade. Da dignidade da personagem que é o narrador e que, por sua vez, é o protagonista da história, o Sr. Stevens, mordomo de Darlington Hall.

Todo o romance é um puro mecanismo de defesa, uma tentativa de justificação contínua. Estamos diante de uma pessoa que se sente digna e honrada pelo trabalho que faz, mas tal trabalho não é mais do que o reflexo da servidão mais sangrenta e absoluta, onde não há espaço para a reflexão, para a dúvida, o reconhecimento das próprias emoções e ainda menos para o amor.

No entanto, chega um momento em que a imagem do “excelente mordomo” desmorona. Durante um jantar, um dos convidados de Lord Darlington faz uma série de perguntas ao Sr. Stevens para demonstrar a total ignorância das classes mais baixas. Um ataque direto ao seu “eu” onde o mordomo fica de um lado para abrir caminho para o homem ferido que nunca teve dignidade e que vivia debaixo de uma couraça. O homem que recusou o amor verdadeiro para servir aos outros.

Recuperar e fortalecer nossa dignidade

É certamente curioso como o observador externo e até mesmo o leitor que navega página por página em livros como “Vestígios do Dia” sabe de imediato como determinada pessoa está sendo manipulada ou como tece um trabalhoso autoengano para justificar cada ato que aos nossos olhos é inexplicável No entanto, nós também podemos estar realizando certas tarefas muito semelhantes às do mordomo de Darlington Hall.

“A dignidade não consiste em nossas honras, mas sim no reconhecimento de merecer o que temos”.
-Aristotle-

Pode ser que estejamos dando tudo por esse amor, por esse relacionamento nocivo, tóxico e até cansativo. Às vezes amamos com os olhos cegos e o coração aberto, sem perceber que, nesse vínculo, vamos cortando pouco a pouco todo o tecido de autoestima. Pode ser também que estejamos ocupando muito tempo nesse trabalho mal remunerado, onde não nos valorizam, a vida e dignidade estão desaparecendo … mas o que se pode fazer, os tempos são o que são e sempre será melhor o mal conhecido de que um conta corrente vazia.

Devemos acordar, como dissemos no início, essa deve ser a idade da dignidade, essa onde todos devemos lembrar o nosso valor, nossa força, nosso direito de ter uma vida melhor, de sermos merecedores do que queremos e precisamos. Dizer isso em voz alta, estabelecer limites, fechar portas para abrir outras e nos definir antes que os outros não é um ato de orgulho ou egoísmo.

Evitemos perder a nossa individualidade, deixemos de justificar o que é injustificável e evitemos fazer parte dessa engrenagem que extingue todos os dias as nossas virtudes e personalidades maravilhosas. Aprendamos, portanto, a deixarmos de ser súditos da infelicidade para criá-la com nossas próprias mãos e vontades.

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