O efeito Dunning-Kruger: inferioridade e superioridade fictícias

O efeito Dunning-Kruger: inferioridade e superioridade fictícias

setembro 9, 2016 em Psicologia 496 Compartilhados
O efeito Dunning-Kruger: inferioridade e superioridade fictícias

O efeito Dunning-Kruger é uma distorção do pensamento que poderia ser resumida da seguinte maneira: as pessoas tolas pensam que são mais inteligentes do que aquelas que realmente são, e as pessoas inteligentes pensam que são mais tolas. Ou talvez seria mais correto dizer: as pessoas ignorantes têm a certeza de que sabem muito, e quem sabe muito acha que é ignorante.

Esse curioso efeito foi descoberto por David Dunning e Justin Kruger, dois investigadores americanos da Universidade de Cornell. O primeiro era professor de psicologia e um dia leu uma notícia que o deixou perplexo. Tratava-se do caso de um roubo cometido por um sujeito de 44 anos chamado McArthur Wheeler. A notícia dizia que ele havia invadido dois bancos, sem máscara e em plena luz do dia. Foi capturado algumas horas depois.

O que chamou a atenção de Dunning foi a explicação do ladrão sobre o seu método de assalto. Ele afirmou que não tinha usado nenhuma máscara, mas que tinha aplicado suco de limão no rosto. Esperava que isso o tornasse invisível as câmeras de segurança.

Por que ele acreditaria nessa tolice? Uns amigos seus o haviam “ensinado” o truque e ele tinha verificado: aplicou suco de limão no rosto e logo tirou uma fotografia sua. Ele pôde comprovar que a sua imagem não saia nela. No entanto, o mesmo limão o tinha impedido de ver que ele não tinha focado o seu rosto, mas sim o teto. “Como alguém pode ser tão idiota?”, perguntou-se David Dunning.

O experimento Dunning-Kruger

Após longas reflexões sobre a conduta do ladrão, Dunning fez uma pergunta que serviria como hipótese para sua investigação posterior: poderia ser que um incompetente não tenha consciência de sua própria incompetência, precisamente por isso? A pergunta parecia um trava-línguas, mas certamente, fazia sentido.

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Foi então que ele propôs ao seu melhor discípulo, o jovem Justin Kruger, que realizassem uma investigação formal a respeito. Dessa maneira organizaram um grupo de voluntários para realizar um experimento. Para cada um dos participantes foi perguntado o quão eficiente achavam que eram em três áreas: gramática, raciocínio lógico e humor. Depois um teste foi aplicado para avaliar a real competência deles em cada um desses quesitos.

Os resultados do experimento confirmaram o que Dunning e Kruger já suspeitavam. Efetivamente, as pessoas que haviam se definido como “muito competentes” em cada área obtiveram as menores pontuações nas provas. E, pelo contrário, aqueles que tinham inicialmente se subestimado obtiveram os melhores resultados no teste .

Atualmente é muito comum ver pessoas falando com aparente autoridade sobre temas que conhecem apenas superficialmente. Ao mesmo tempo, o normal é que os verdadeiros especialistas não sejam tão categóricos nas suas afirmações, já que têm consciência do quão vasto é o conhecimento e do quão difícil que é ter certeza completa de algo.

A análise do efeito Dunning-Kruger

Os organizadores desse estudo não apenas notaram que existia esse viés cognitivo, mas também se deram conta de que as pessoas mais incompetentes costumavam subestimar os mais competentes. Portanto, mostravam-se mais seguros e tinham um sentimento muito maior de suas habilidades, apesar da sua ignorância. Ou, talvez, precisamente devido a ela.

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Depois de realizado o experimento, os investigadores chegaram a quatro conclusões que compõem o efeito Dunning-Kruger:

  • As pessoas se mostram incapazes de reconhecer sua própria incompetência.
  • Costumam não reconhecer a competência das outras pessoas.
  • Não são capazes de ter consciência de até que ponto são incompetentes num determinado quesito.
  • Se são treinados para aperfeiçoar sua competência, serão capazes de reconhecer e aceitar sua incompetência prévia.

Uma vez estabelecido o efeito de distorção que havia nessas pessoas, ainda faltava responder a pergunta de por que acontecia esse fenômeno. Dunning e Kruger estabeleceram que o viés cognitivo ocorria porque as competências necessárias para fazer algo bem feito são as mesmas requeridas para avaliar o desempenho. Dito de outra maneira: como perceber que algo está mal feito se você nem sequer sabe como fazê-lo?

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As pessoas com um alto desempenho também apresentaram o viés cognitivo. Nesse caso, os investigadores estabeleceram que o que ocorria era um erro de percepção conhecido como “falso consenso”. Esse erro significa que as pessoas tendem a superestimar o grau de consenso com os outros.

Com certeza você já presenciou duas pessoas envolvidas numa discussão e finalmente, para resolvê-la, decidem pedir ajudar à uma terceira pessoa fora da disputa, inicialmente considerada neutra pelas duas partes. Nesse caso, o falso consenso agiria quando as duas partes estão convencidas de que o observador imparcial vai ter a mesma opinião que a deles.

Algo parecido acontece com as pessoas que têm um alto desempenho numa atividade: para eles é tão fácil realizá-la que eles não veem motivo para suspeitar que a maioria das pessoas não pode fazê-la tão bem quanto elas.

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