Emily Dickinson e seus demônios mentais

abril 21, 2019
Emily Dickinson passou os últimos vinte anos de sua vida confinada em seu quarto. Sempre vestida de branco, sofria de enxaqueca e pediu para ser enterrada em um caixão com aroma de baunilha.

“Não é necessário ser um quarto para ser assombrado”, dizia Emily Dickinson. Poucas figuras dentro do mundo da poesia foram tão enigmáticas de um ponto de vista psicológico. Assim, em obras como I felt a funeral in my brain (Eu senti um funeral em meu cérebro, em tradução livre), transparecem, segundo muitos especialistas, várias pistas do porquê ela decidiu se recolher para sempre em seu quarto, isolando-se do mundo e da sociedade.

Ao longo das décadas, muito se especulou sobre o possível transtorno do qual a famosa poetisa norte-americana sofria. Sua reclusão teve início em 1864, quando ela tinha aproximadamente 30 anos, e terminou no dia de sua morte, quando tinha 55 anos. Ela escolheu vestir branco e nunca mais cruzar aquela linha que dividia os limites do espaço de seu quarto.

Esse isolamento escolhido lhe permitiu mergulhar plenamente em seu trabalho literário. Essa solidão lhe proporcionou, sem dúvida, inspiração suficiente para sua criação artística, mas pouco a pouco também a transformou em pouco mais do que um fantasma por trás de uma janela. Dickinson nem sequer foi capaz de comparecer ao funeral de seu pai, celebrado na sala de sua própria casa.

Foi em 2003 que o doutor David F. Maas, doutor da Universidade de Minnesota, realizou um interessante estudo que seria publicado com o título Reflections on self-reflexiveness in literature (Reflexões sobre a autorreflexividade na literatura, em tradução livre), que analisou o estado emocional da escritora.

Desde então, foram publicados mais trabalhos graças aos quais podemos construir uma ideia aproximada desses demônios mentais que devoraram a vida de Emily Dickinson. Os mesmos que, por sua vez, lhe proporcionaram um inegável impulso criativo.

“Eu senti um funeral em meu cérebro,
os enlutados iam e vinham
arrastando-se – arrastando-se – até que pareceu
que o sentido tinha se quebrado totalmente –

e quando todos estavam sentados,
uma liturgia, como um tambor –
começou a bater – a bater – até que pensei
que minha mente se tornava muda” (…)
-Emily Dickinson-

Emily Dickinson na adolescência

Emily Dickinson e os tambores de sua mente

Os poetas sempre tiveram a hábil faculdade de mergulhar como ninguém em seus complexos oceanos mentais. O próprio Edgar Allan Poe, por exemplo, escreveu em seu poema Alone que “desde a minha infância, nunca fui como os outros eram, não via como os outros viam, e tudo o que eu quis, quis sozinho”.

De algum modo, grande parte desses artistas, frequentemente marcados em partes iguais por uma genialidade extraordinária e também pela doença, sempre foram muito conscientes de suas singularidades. Emily Dickinson chega a escrever em seu poema Um funeral em meu cérebro que sua própria loucura é, na verdade, o sentido mais divino. Esse que lhe permite escrever e que lhe confere profundos sofrimentos. Vamos ver mais alguns detalhes sobre esse assunto.

Enxaqueca

Em primeiro lugar, algo que devemos entender sobre Emily Dickinson é que (assim como acontece com muitas outras pessoas) ela não sofria de uma única condição psicológica. E mais, frequentemente surgiam outros problemas físicos, orgânicos, etc. No caso da poetisa, os especialistas acreditam que ela sofria de vários episódios de enxaqueca.

“Tenho em meu cérebro um tambor, que bate e deixa minha mente entorpecida”.

Ansiedade social e agorafobia

Há estudiosos sobre a obra de Emily Dickinson que defendem uma curiosa ideia. Segundo eles, a escolha de se isolar do mundo e se recolher em seu quarto era um modo de se aprofundar melhor em seu trabalho. No entanto, devemos levar em consideração diversos aspectos.

  • O primeiro é que sua reclusão foi total. Ela não recebia visitas e não se reunia com sua família, mesmo vivendo na mesma casa.
  • Preferia se comunicar com seus irmãos e sobrinhos através da porta sempre que fosse possível.
  • Manteve grande correspondência com seus amigos através de cartas, mas nunca cruzou a porta do seu quarto após os 30 anos de idade.

Os médicos da época chegaram a informar à família que Emily sofria de uma rara doença chamada “prostração nervosa”. No entanto, atualmente, grande parte dos psiquiatras relacionam esses sintomas com a ansiedade social e a agorafobia severa. 

Emily Dickinson quando jovem

Transtorno da personalidade esquizotípica

O livro Wider Than the Sky: Essays and Meditations on the Healing Power of Emily Dickinson (Mais largo que o céu: ensaios e meditações sobre o poder curativo de Emily Dickinson, em tradução livre), de Cindie Makenzie, fala sobre como essa escritora utilizou a poesia para controlar sua própria doença. Ela sempre esteve muito consciente de que alguma coisa acontecia e de que esses demônios mentais, como ela os chamava, enevoavam a razão, o sentido e o equilíbrio.

“E eu, e o silêncio, uma peculiar raça.

Destroçada, solitária, aqui”.

Steven Winhusen, doutor da Johns Hopkins University, realizou um interessante estudo sobre Emily Dickinson concluindo algo interessante. Na sua opinião, a famosa escritora sofria, na verdade, de um transtorno da personalidade esquizotípica. Pelas informações tão gráficas que ela dá em seus poemas, pelo modo como inclusive sua caligrafia se deteriorou, pelos seus pensamentos, pela sua necessidade de isolamento, sua genialidade criativa e as emoções que impregnam seus versos, esse diagnóstico parece se encaixar.

O fim da vida de Emily Dickinson

Emily Dickinson faleceu em 15 de maio de 1886 devido à doença de Bright. Uma doença renal que, curiosamente, também tirou a vida de Mozart. Ela foi enterrada no cemitério da sua cidade, seguindo as orientações que havia deixado: em um caixão branco com aroma de baunilha.

A razão de sua reclusão é e sempre será um enigma, um mistério fantástico, como seus próprios poemas. O segredo se foi com ela para o caixão, mas além desse sofrimento que sem dúvida teve em vida devido a seus “demônios mentais”, nos resta seu legado. A nós resta sua ampla obra, assim como suas cartas brilhantes dotadas de um refinamento e uma criatividade absolutos.

  • Maas, DF (2003). Reflexiones sobre la autorreflexividad en la literatura. Et Cétera, 60 (3), 313.
  • Winhusen, S. (2004). Emily dickinson y la esquizotipia. The Emily Dickinson Journal, 13 (1), 77–96.
  • Thomas, H. H. (2008). Wider than the sky: Essays and meditations on the healing power of emily dickinson. The Emily Dickinson Journal, 17(2), 113–116,124.