Emodiversidade: variedade de emoções como segredo de saúde mental

· fevereiro 22, 2019

Na natureza, quanto mais diversidade existir em um ecossistema, mais forte, rico e resistente ele será. A emodiversidade segue esse mesmo princípio. Assim, quanto mais heterogênea for a nossa paleta de emoções, maiores serão nossa flexibilidade e força, pois entender esse universo sem ficarmos apenas nos extremos é investir em saúde, é ganhar em inteligência e maturidade.

Se pensarmos sobre isso, uma ideia que a própria sociedade promove, assim como um grande número de livros de autoajuda, é que, para alcançar o bem-estar, devemos experimentar exclusivamente emoções positivas. Algo assim nos leva, quase sem perceber, a uma jornada arturiana em busca daquele graal de felicidade com o qual evitar a todo custo cores como a tristeza, a decepção, a frustração ou a raiva.

Esquecemos, talvez, que não há melhor estratégia do que entender o próprio inimigo. Fugir das emoções negativas é colocar uma venda nos olhos, é vetar um aprendizado de vida com o qual podemos lidar com maiores recursos diante de qualquer circunstância.

Porque a vida, assim como as emoções, é diversa e altamente complexa. Somente aqueles que se permitem aprofundar em todos os sentimentos e emoções para compreendê-los se adaptarão melhor às oscilações diárias.

Fomos condicionados a acreditar que sentimentos negativos são inimigos do bem-estar. Além disso, não falta quem pense que quem passa da alegria para a raiva, da decepção para a ilusão no mesmo dia é instável e até volúvel. Portanto, é hora de esclarecer os termos, é hora de introduzir em nossa linguagem uma ideia essencial para a saúde mental: a emodiversidade.

“Não vou me cansar de ressaltar a importância de aprender a usar as emoções negativas pelo que elas são, chamadas para a ação”.
-Tony Robbins-

Proteger a natureza e o planeta

O que é a emodiversidade?

A emodiversidade define a nossa capacidade de sentir e experimentar uma ampla gama de emoções, e quanto mais, melhor. Essa habilidade, ou melhor dizendo, o fato de nos permitirmos sentir cada sentimento sem bloqueá-lo ou negá-lo é uma vantagem adaptativa. Ou seja, não apenas conseguimos ser mais autênticos, mas também teremos mais recursos para enfrentar dificuldades e obter saúde mental.

Essa ideia não é nova. Em 2012, um estudo publicado na revista Emotion chegou a uma conclusão. A Universidade de Queensland pesquisou como a expectativa clássica de que felicidade é igual a emoções positivas poderia afetar a população australiana e japonesa.

Este princípio cultural leva a população a não saber lidar com emoções negativas e a evitá-las. A busca pela felicidade (fixada a esta base), mais cedo ou mais tarde, gera infelicidade.

Desmontando a felicidade

Para aprender a ser felizes, devemos, por assim dizer, pressionar o botão de reset no nosso disco rígido mental. Vamos começar de novo, apagando muito do que nos foi dito até agora (desaprender).

Um primeiro aspecto que devemos considerar é o seguinte: as emoções negativas não são prejudiciais. Toda emoção sentida e aceita é um compromisso com nós mesmos. Um compromisso de nos entendermos, de assumir realidades e de sermos responsáveis na hora de procurar soluções ou gerar mudanças.

Um segundo aspecto a integrar em nossa “programação” interna é que experimentar o maior número de emoções possível é ganhar resistência emocional, saúde mental e capacidade psicológica. Desta forma, quem se situar exclusivamente no polo das emoções positivas carecerá das ferramentas para lidar com dificuldades e frustrações.

Além disso, quem oscila apenas no polo da negatividade e do pesar apresenta um maior risco de desenvolver depressão, transtornos de ansiedade, etc.

Olhar da natureza

Emodiversidade como segredo de saúde

Em 2014, as Universidades de Yale, Pompeu Fabra de Barcelona e a Universidade de Cambridge realizaram um extenso estudo para analisar os benefícios da emodiversidade. Esta dimensão, entendida como a capacidade de nos permitir experimentar uma ampla gama de emoções, tem um impacto direto em nossa saúde física e emocional.

Algo que os responsáveis por este estudo viram é que aquelas pessoas que negavam suas emoções negativas ou focavam suas vidas naquele estado perpétuo de frustração, desânimo e mau humor não apenas desenvolviam mais distúrbios psicológicos, como também apresentavam uma imunidade mais fraca, maior inflamação orgânica e uma tendência a desenvolver mais doenças.

Como vemos, as emoções afetam a nossa qualidade de vida e têm um impacto direto na nossa saúde.

Cuidar e dar atenção ao nosso ecossistema emocional

Um ecossistema emocional rico em sensações, vasto em emoções aceitas, nutrido em sentimentos decifrados e valorizados como aprendizados valiosos, forma um ambiente psicológico mais forte e mais sábio. Precisamos aprender a cuidar dessa emodiversidade sendo sinceros e corajosos com nós mesmos.

A tristeza, a raiva, o medo ou a decepção não são ervas daninhas que temos que arrancar. Não são aquelas sementes de baobá que o Pequeno Príncipe temia porque, segundo ele, explodiriam seu pequeno planeta.

As chamadas emoções negativas, juntamente com as emoções positivas, compõem o que somos; não podemos agir como predadores, vetando ou escondendo aquilo de que não gostamos.

Floresta enevoada

Devemos viajar com elas, gerenciá-las, transformá-las e entender que toda essa riqueza do nosso ecossistema psicológico e emocional nos fornece ferramentas valiosas para construir cenários mais resistentes a qualquer adversidade e mais nutridos para moldar uma verdadeira felicidade (e não um falso substituto).

  • Bastian, Brock,Kuppens, Peter,Hornsey, Matthew J.,Park, Joonha,Koval, Peter,Uchida, Yukiko. Emotion, Vol 12(1), Feb 2012, 69-80
  • https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/25285428