Estilos de criação que causam sofrimento

Estilos de criação que causam sofrimento

julho 8, 2016 em Psicologia 14 Compartilhados
Estilos de criação que causam sofrimento

Muitos são os psicólogos que prestaram especial atenção aos relacionamentos que existem dentro das famílias e nos estilos de criação para explicar a psicopatologia que um dos seus membros apresenta. Na verdade, toda a psicologia com suas diferentes correntes se interessa por este fato e o considera como fator responsável de muitos transtornos nos indivíduos.

Famílias aglutinadas, desligadas, estilos paternais democráticos versus autoritários, alianças de gerações, relacionamentos que fomentam o vínculo familiar duplo, superproteção, abandono, negligência, etc. Muitos são os fenômenos estudados que relacionam algum tipo de doença mental a algum tipo de condicionante familiar.

Por que é tão difícil falar deste tema

Se este tema tem alguma coisa de difícil é a sua correta abordagem, explicação e tratamento, ainda mais quando na sociedade se assumem certas ideias como verdades absolutas que, infelizmente, nem sempre são verdade. O sangue faz o parentesco, mas não implica muito mais do que isso. São dadas como certas algumas frases do tipo “não há nada como a família”, “a família nunca quer prejudicar” ou “entre família é preciso perdoar tudo”.

Tudo isto causa muita dor, culpa e confusão nas pessoas que sentem que seus familiares não souberam responder à incondicionalidade que a sociedade nos diz que deveriam manter, que sofreram maus-tratos físicos ou psicológicos ou que percebem que o sistema de criação recebido brecou a sua evolução e independência emocional.

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Existem famílias que chegaram a prejudicar intencionalmente e outras que o fizeram sem saber, dando amor, conselhos e educação que achavam convenientes sem considerar que seus filhos não queriam o futuro que haviam projetado para eles.

Com este artigo não temos a intenção de apontar quão mal alguém se comportou, mas vamos procurar demonstrar determinados mitos para explicar realidades, e a verdade é que há famílias que curam e famílias que adoecem.

Papeis designados e rótulos que estigmatizam

Da frase “é um pouco inquieto” a “tem uma personalidade difícil” existe uma constante imperceptível de pequenas frases que ditas e repetidas no núcleo familiar podem destruir aqueles que as ouvem. No fundo, é uma forma de dar identidade a cada um dos filhos, de economizar explicações ou, em muitos casos, de cobrir as próprias deficiências paternais na educação.

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Rotular um filho é uma forma de perpetuar o seu comportamento, fazendo-o crer que o seu comportamento é “incorrigível” e inerente ao seu ser. Estes rótulos vão se perpetuando de pais a professores e conhecidos, penetrando no ambiente direto que rodeia a criança.

Os rótulos dos filhos não apenas ficam no âmbito familiar, mas são transmitidos a professores e conhecidos da criança. Quando este quer mudar o seu comportamento, se depara com muralhas de desconfiança.
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Amor mal-entendido

Muitas vezes ouvimos a tão desgastada frase “Ninguém vai amá-lo da forma como a sua família o ama”. Esta frase fere os sentimentos de muitas pessoas que não viveram isso, dificultando que detectem e inclusive denunciem comportamentos de abuso. Também não podemos esquecer que esses maus-tratos podem se dar em duas direções, das gerações anteriores para as posteriores, ou das posteriores para as anteriores.

O fato de alguém “carregar o seu sangue” não implica que não possa prejudicá-lo com seu comportamento. O parentesco é uma coisa biológica, genética, e o bom vínculo é afetivo, comunicativo, e está sujeito à variabilidade dos indivíduos, que pouco tem a ver com o hereditário.

Os genes estabelecem um vínculo hereditário que não implica um vínculo afetivo satisfatório. Este tipo de crença assumida pela sociedade dificulta a detecção das nossas necessidades e verdadeiros interesses como indivíduos.
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A superproteção que sufoca e limita

Não basta amar sem limites; até no amor é preciso aplicar a virtude do equilíbrio. Logo no desenvolvimento dos bebês se observa a sua necessidade de explorar o meio tendo como referência uma figura de apego relevante, uma coisa que os psicólogos John Bowlby e Mary Ainsworth demonstraram.

As pesquisas com macacos realizadas por Harry Harlow colocam em evidência que o afeto e o carinho de um bebê com a sua mãe é fundamental para desenvolver um apego seguro que lhe permita explorar o mundo com independência. Contudo, o apego não deve ser confundido com superproteção.

As inspirações incompletas projetadas nos filhos

O fato de ter filhos ser a opção de vida escolhida pela maioria da humanidade e de ser conduzida com naturalidade não implica que deixe de ser uma decisão para se transformar em uma obrigação. O planejamento familiar e a incorporação massiva da mulher ao mundo profissional fizeram com que o número de filhos por casal diminuísse e com que alguns casais defendam publicamente a opção de não ter descendência.

Portanto, ao se tratar já de uma opção e não de uma obrigação como acontecia no passado, nos situamos em um cenário mais complexo e que demanda maior responsabilidade e sinceridade: os filhos não devem ser a tábua de salvação de um casal, não são uma forma de validação emocional e não tem por que suportar o peso das nossas frustrações.

Desejar para o seu filho uma infância melhor do que você viveu, talvez cheia de carências emocionais ou dificuldades financeiras, o honra como pessoa. Mas se você deseja projetar no seu filho tudo aquilo que não pôde ou não se atreveu a fazer, possivelmente esteja errando.

Colocar sobre os nossos filhos metas relacionadas com o que conseguiram ou não, comparar e pressionar a escolha de um determinado caminho é acabar com a sua individualidade. Portanto, o nosso papel como pessoas que as amam é de ajudá-los a encontrar o seu caminho e impulsioná-los a conseguir as melhores ferramentas para avançar em direção a ele.

Sejamos conscientes de que os filhos não nos pertencem; a sua única dona é a própria vida que lhes foi dada.
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