Quem é feliz não precisa do prazer das drogas

· novembro 2, 2017

O consumo e o vício em determinadas substâncias são explicados por diferentes perspectivas e talvez todas elas tenham um pouco de razão. Uma das mais exploradas é a que engloba os fatores ambientais que foram identificados em diferentes pesquisas como fatores de risco, associados ao consumo e ao vício no prazer das drogas.

Por outro lado, tentar isolar o componente viciante de um droga sem levar em consideração as circunstâncias e as características particulares de cada pessoa que a consome é um erro. Se quisermos realmente entender o problema, somos obrigados a ir mais além da substância em si, com seu poder viciante e não nos esquecermos do consumidor, de cada consumidor.

Dessa maneira, podemos responder uma pergunta simples que, por sua vez, exemplifica a ideia que queremos expor. Por exemplo, por que há pessoas que consomem álcool, inclusive que o consomem com certa frequência e em altas quantidades, e não ficam viciadas?

Os ratos que só tinham o prazer das drogas e os que tinham tobogãs

Podemos tentar analisar o fenômeno da dependência examinando testes laboratoriais. No primeiro experimento, temos um rato em uma gaiola com duas opções de água. Uma só com água e outra com heroína ou cocaína diluída.

Em quase todas as vezes em que o experimento foi repetido, o rato ficava obcecado com a água com droga e bebia até morrer. Isso pode ser explicado pela ação da droga no cérebro. No entanto, nos anos setenta, um professor de Psicologia de Vancouver, Bruce Alexander, revisou e alterou o experimento.

Esse psicólogo construiu um parque para ratos (Rat Park). Tratava-se de uma gaiola de diversão na qual os ratos tinham bolas coloridas, túneis para passear, muitos amigos e comida em abundância; definitivamente, tudo o que um rato poderia desejar. No parque de ratos, todos provaram os dois frascos de água porque não sabiam o que continham.

Experimento com ratos sobre os efeitos das drogas

O que aconteceu foi que os ratos que tinham uma vida boa não ficaram “prisioneiros” do prazer das drogas. Em geral, eles evitavam beber a água com droga, consumiram menos de um quarto da quantidade dessa água se comparado com a quantidade consumida pelos ratos isolados. Nenhum deles morreu. Ao passo que os ratos que estavam sozinhos e infelizes ficaram viciados e tiveram menos sorte.

No projeto do primeiro experimento, não foi levado em consideração que o rato sozinho poderia ficar vagando pela gaiola seguindo seus reflexos e estímulos básicos ou se limitaria a beber a água com a droga, algo que pelo menos representava uma atividade motora diferente e alguma coisa para fazer, independentemente da possível atração que aquela água representasse para ele.

Em contrapartida, no segundo experimento era oferecida uma alternativa excelente, e não qualquer alternativa: uma atividade interessante e que se reforçava por si mesma. Os ratos que tinham uma boa alternativa ou simplesmente uma rotina na sua vida agradável não sentiam a necessidade de beber continuamente a água misturada com uma substância que estimulava seu centro de prazer; ou pelo menos não notavam esse desequilíbrio.

Foi ainda mais surpreendente quando, em uma terceira revisão do experimento, foram introduzidos ratos que tinham passado 57 dias confinados em gaiolas com a única opção de consumir a droga. Foi observado que uma vez superada a abstinência e a possibilidade de viver em um ambiente feliz, todos os ratos se recuperaram.

Uma vida feliz: a melhor maneira de não se deixar levar pelo prazer das drogas

Se você está feliz, não vai precisar preencher um vazio, mas se você está infeliz, talvez busque compensar esse desequilíbrio químico com uma substância. O núcleo accumbens, o centro da recepção de dopamina no cérebro e, portanto, da emissão das sensações de prazer associadas a um comportamento, é um rei encarregado de receber seus súditos ambientais e químicos.

Há súditos muito fiéis que vão reaproveitando bens e posses para ele de forma contínua, funcionários químicos da dopamina: água, comida, interação social reforçadora, uma boa cama para descansar… se, além disso, esses fatores ocorrerem de maneira individual ou restrita em condições de privação, então mais prazer será adicionado.

Milhares de soldados na guerra do Vietnã ficaram dependentes de heroína. Ao voltar aos seus lares e após terem superado a síndrome de abstinência, os soldados que viviam em um ambiente positivo retomaram suas vidas normais.

Guerra do Vietnã

A droga não é por si mesma um intensificador do comportamento suficientemente potente se não se basear em vidas órfãs de carinho. Rotinas saudáveis ou um trabalho digno combatem a dependência. Talvez, uma vez estabelecida, a droga se transforme em um comportamento viciante que se mantém por mera repetição e/ou destruição da própria vida, mas seu ponto de partida é muito mais complexo.

Esta é uma explicação que nos dá esperança e sentido, alheia a visões moralistas ou quimicamente reducionistas que apresentam a pessoa viciada como alguém de caráter fraco. Nos faz entender que os viciados, salvo as diferenças, poderiam ser como os ratos da primeira gaiola: isolados, sozinhos e com apenas uma via de escape à sua disposição: o prazer das drogas. Em contrapartida, uma pessoa que usa drogas, mas que retorna a um ambiente positivo, pode evitar a dependência porque tem ao seu alcance vários outros estímulos que ativam o seu circuito cerebral de recompensa.

Nesse sentido, o segredo está em construir uma “gaiola” de liberdade. Uma “gaiola” na qual temos diferentes alternativas que podemos alternar para produzir sensações de prazer, de maneira que não acabemos criando dependência de nenhuma. Nesse sentido, as drogas são ruins, mas são ainda piores quando aparecem em um contexto de desesperança no qual a pessoa não é capaz de ver nenhuma alternativa possível à qual se apegar para se sentir bem… porque todos nós queremos nos sentir bem, mesmo que seja apenas por alguns instantes.