Os filhos não se “perdem” na rua, mas sim dentro de casa

· fevereiro 18, 2017

Os filhos não se “perdem” na rua. Na verdade, essa perda se inicia no próprio lar com o pai ausente, com a mãe sempre ocupada, com um acúmulo de necessidades não atendidas e frustrações não gerenciadas. Um adolescente se destrói depois de uma infância de desapegos e de um amor que nunca soube educar, orientar, ajudar.

Começaremos por deixar claro que sempre haverá exceções. Obviamente existem jovens com comportamentos desajustados que cresceram em lares onde há harmonia, e adolescentes responsáveis que conseguiram se distanciar de uma família disfuncional. Sempre há eventos específicos que escapam dessa dinâmica mais clássica onde o que acontece diariamente em uma casa marca irremediavelmente o comportamento da criança no exterior.

Na realidade, e por incrível que pareça, um pai ou uma mãe nem sempre acaba por aceitar esse tipo de responsabilidade. Na verdade, quando uma criança evidencia comportamentos agressivos na escola e o diretor entra em contato com os pais, é habitual que a família coloque a culpa no sistema, no próprio instituto e na comunidade escolar por “não saber educar”, por não pensar nas necessidades e por não aplicar as estratégias adequadas.

É certo que no que se refere à educação de uma criança, todos somos agentes ativos (escola, meios de comunicação, organismos sociais…), mas é a família que fará germinar no cérebro infantil o conceito de respeito, a raiz da autoestima ou a chama da empatia.

Propomos que você reflita sobre isso.

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Os filhos, o legado mais importante do nosso futuro

H. G. Wells disse uma vez que a educação do futuro andava de mãos dadas com a própria catástrofe. Em sua famosa obra “A máquina do tempo”, ele viu que no ano de 802.701 a humanidade se dividiria em dois tipos de sociedade. Uma delas, a que viveria na superfície, seriam os Elói, uma população sem escritura, sem empatia, inteligência ou força física.

Segundo Wells, o estilo educativo que predominava em sua época já apontava resultados nesta direção. O início das provas padronizadas, da competitividade, da crise financeira, do curto período de tempo dos pais para educar os filhos e da preocupação nula para incentivar a curiosidade infantil ou o desejo inerente por aprender faziam com que, no auge do século XX, o célebre escritor não augurasse nada de bom para as gerações futuras.

Não se trata de alimentar tanto pessimismo, mas de colocar sobre a mesa um estado de alerta e um sentido de responsabilidade. Por exemplo, algo que muitos terapeutas, orientadores escolares e pedagogos se queixam é da falta de apoio familiar que costumam encontrar na hora de fazer uma intervenção com aquele adolescente problemático, ou com aquela criança que apresenta problemas emocionais ou de aprendizagem.

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Quando não há uma colaboração real ou até mesmo quando um pai ou uma mãe tira a autoridade ou boicota o profissional, professor ou psicólogo, o que vai conseguir é que a criança, seu filho, continue perdido. Além disso, esse adolescente terá mais força para continuar desafiando e buscará na rua o que não encontra em casa, ou o que o próprio sistema educativo também não foi capaz de lhe dar.

Crianças difíceis, pais ocupados e emoções contrapostas

Há crianças difíceis e exigentes que gostam de agir como autênticos tiranos. Há adolescentes incapazes de assumir responsabilidades e que adoram ultrapassar os limites que os outros lhes impõem, aproximando-se, assim, da delinquência. Todos nós conhecemos mais de um caso assim, no entanto, temos que ter consciência de algo: nada disso é novo. Nada disso é culpa da internet, nem dos videogames, nem de um sistema educativo permissivo.

No final do dia, estas crianças mostram as mesmas necessidades e comportamentos de sempre, contextualizados em novos tempos. Por isso, a primeira coisa que devemos fazer é não patologizar a infância nem a adolescência. A segunda é assumir a parte da responsabilidade que cabe a cada um de nós, bem como educadores, profissionais da saúde, publicitários ou agentes sociais. A terceira, mas não menos importante, é entender que as crianças são, sem dúvida, o futuro da Terra, mas antes de mais nada, são filhos de seus pais.

A seguir, vamos refletir sobre alguns aspectos importantes.

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Os ingredientes da verdadeira educação

Quando um professor chama uma mãe ou um pai para advertir sobre o mau comportamento de um filho, a primeira coisa que a família sente é que estão colocando em causa o amor que eles sentem pelos seus filhos. Isso não é verdade. O que acontece é que às vezes esse afeto, esse amor sincero, se projeta de forma errônea.

  • Amar um filho não é satisfazer todos os seus caprichos, não é abrir todas as fronteiras para ele nem evitar dar respostas negativas. O amor verdadeiro é o que guia, o que inicia desde bem cedo um sentido real de responsabilidade na criança, e que sabe gerir suas frustrações dando um “NÃO” a tempo.
  • A educação de qualidade sabe sobre emoções e entende sobre paciência. A criança exigente não detém seus comportamentos com um grito ou com duas horas de solidão na própria casa. O que ela exige e agradece é ser atendida com palavras, com novos estímulos, com exemplos e com respostas a cada uma de suas ávidas perguntas.

Também temos que tomar consciência de que nesta época em que muitas mães e muitos pais são obrigados a cumprir jornadas de trabalho pouco ou nada conciliadoras com a vida familiar, o que importa não é o tempo real que compartilhamos com os filhos, mas sim a QUALIDADE desse tempo.

Os pais que sabem intuir as necessidades e as emoções, que estão presentes para guiar, orientar e para favorecer interesses, sonhos e expectativas, são os que deixam marcas e também raízes em seus filhos, evitando assim que essas crianças busquem tudo isso na rua.

Imagens cortesia de A.Varela.