Frances Farmer, uma atriz com personalidade - A Mente é Maravilhosa

Frances Farmer, uma atriz com personalidade

setembro 27, 2017 em Psicologia 187 Compartilhados
Frances Farmer

Ela foi uma mulher diferente, talvez muito ousada para os anos 40, quando para ser atriz bastava ser bonita e obediente. Frances Farmer se atreveu a ser obstinada e foi chamada de histérica. Ela se atreveu a ter voz e, por isso, foi chamada de ingênua. Quando a atriz quis escapar desse mundo já era tarde demais, foi então que a chamaram de “louca”.

É muito provável que hoje em dia poucas pessoas se lembrem do nome de Frances Farmer. Ela é mais uma figura feminina que se perdeu no tempo, atrás dessa cortina empoeirada em que costumam ficar escondidas histórias interessantes e sempre impiedosas que, frequentemente, refletem uma determinada época, mas que ainda hoje continuam sendo um grito contido de ajuda que merece ser lembrado.

“A única coisa boa é que estou me acostumando a sofrer.”
-Frida Kahlo-

No entanto, dentro do mundo da psiquiatria o nome dessa atriz é muito conhecido por uma série de motivos: os tratamentos psicológicos aos quais essa mulher foi submetida ao longo de vários anos refletem uma época tão obscura quanto terrível, na qual as mulheres, curiosamente, costumavam ser as vítimas mais diretas.

Frances Farmer quando era jovem

Frances Farmer, uma mulher educada para ter voz e fama

Atualmente, temos à nossa disposição uma ampla documentação sobre a vida de Frances Farmer. Sua própria irmã publicou o livro “Look Back in Love”, no qual relatou cada uma das cruéis experiências pelas quais a jovem atriz passou ao longo dos anos em que esteve internada em vários hospitais psiquiátricos. Por sua vez, através da pesquisa chamada “Will There Really Be a Morning?” refletimos também sobre sua personalidade, seu meio familiar e se realmente ela sofria, como se afirmava, de uma esquizofrenia paranoica.

Seja como for, como sempre costuma acontecer nesses casos de grande complexidade, existem alguns fatores que não podem ser deixados de lado: a educação e o contexto histórico. Se no início desse artigo afirmamos que Frances foi uma mulher muito ousada para sua época, isso se deve sobretudo a um motivo muito específico: sua mãe lhe ensinou desde bem cedo a obrigação de ter voz, de saber dar sua opinião e de assumir sempre uma atitude crítica em relação às coisas nas quais estava envolvida.

Já adolescente, chegou a aparecer nos jornais locais de Seattle por fazer discursos reivindicativos sobre a temática feminina ou sobre não acreditar em Deus baseando-se no legado de Nietzsche. Mais tarde, sua mãe a inscreveu em aulas de teatro com um objetivo específico, relacionado à realização de uma vontade pessoal, um desejo frustrado da sua própria juventude: alcançar a fama no cinema. Um objetivo que conquistou enquanto Frances estava na universidade e mantinha uma das suas principais paixões: escrever artigos críticos sobre a sociedade da sua época.

Não fale, não diga, obedeça

Em 1935, quando já tinha feito um ou outro papel no cinema, Frances Farmer realizou seu principal objetivo: se formar em jornalismo. No entanto, antes de que começasse a projetar sua vida nessa área, sua mãe a convenceu a adiar temporariamente seus objetivos pessoais e se concentrar no mundo da fama. Frances concordou e seu agente conseguiu um teste na Paramount Pictures.

Frances Farmer

O teste não podia ser mais simples: usar um belo vestido, ficar sentada e olhar para a câmera. Frances Farmer possuía uma beleza clássica, na qual em poucos momentos a ousadia e a sedução mais atrevida apareciam, sendo esses fatores mais que suficientes para a indústria cinematográfica. Ofereceram a ela um contrato de 7 anos, no qual as únicas coisas que ela precisava fazer era obedecer, aprender alguns roteiros e comparecer a festas de diretores de vez em quando, além de guardar segredo em relação ao que poderia acontecer nesses eventos.

Frances se rebelou contra esse mundo. Ela detestava os papéis de mulher ingênua que lhe eram oferecidos. Detestava a imprensa e, sobretudo, detestava ter que seguir outro roteiro na sua vida, na qual tudo deveria estar imerso no glamour e em uma requintada falsidade. No entanto, ela cedeu. Ela cedeu convencida pela sua mãe e pelos seus agentes, chegando inclusive ao extremo de se casar com outro ator com o objetivo de reforçar ainda mais seu papel de estrela emergente.

Anseio de liberdade e a camisa de força

O declínio na carreira de Frances Farmer começou prematuramente. Ela se negava a gravar determinadas cenas, recusava roteiros e não cumpria os contratos assinados com seus agentes. À noite ela costumava sair dirigir com o desejo de escapar de tudo, inclusive de si mesma. Ela pisava no acelerador em uma fuga impossível que não costuma terminar bem. Ela era bem conhecida pela polícia de Santa Mônica por acumular infinitas multas de direção perigosa e sob efeito de álcool.

“Às vezes eu penso que tenho o coração esculpido em pedra.”
-Frances Farmer-

No entanto, tudo se complicou quando deu um soco em um dos diretores de Hollywood. Depois disso voltou a fugir, mas ela não foi muito longe. A polícia foi atrás de Frances e, em meio a gritos, chutos e vãs tentativas de se livrar de todas essas sombras de autoridade que caíam sobre a sua pessoa, chegou-se a um acordo: ela seria internada em um hospício para amenizar sua rebeldia, sua natureza e sua personalidade reacionária.

Frances Farmer

Os médicos a diagnosticaram com “esquizofrenia paranóide”. Ela foi tratada com a clássica terapia de eletrochoques e também com a terapia do coma insulínico ou a cura de Sakel. Após alguns meses de internação, ela saiu e foi nesse momento em que decidiu romper completamente com a sua vida de atriz e se afastar para sempre daquele mundo opressor e degradante.

No entanto, Lillian Farmer, a mãe de Frances, considerou que a sua filha não estava curada, que não estava no seu “juízo perfeito” e assim, contando com a ajuda dos diretores de Hollywood, ela conseguiu determinar a incapacidade mental da sua filha para interná-la de novo em um hospício.

Cinco anos no abismo

Frances Farmer foi internada do hospital de Steilacoom, em Washington. Lá, ela passou 5 anos, aos quais posteriormente sua irmã daria voz através de um livro. Aos tratamentos rigorosos, foi acrescentada a coisa mais terrível de todas: os abusos sexuais e as repetidas violações. Por fim, assim como um dos enfermeiros do hospital revelou, foi realizada uma lobotomia em Frances Farmer sem a permissão da família. O objetivo? Amenizar sua personalidade, seu mau caráter, seu histerismo…

Frances Farmer sofreu uma lobotomia

Depois disso, depois de 5 anos de confinamento, de abuso e de trauma, Frances nunca mais voltou a ser ela mesma. Ela apareceu em uma ou outra entrevista, em alguma peça de teatro, em algum programa de televisão, nos quais sua simples presença gerava alvoroço e muita audiência. No entanto, sua atitude já não existia mais, sua força tinha se perdido, seu caráter tinha evaporado e sua beleza, que definia a verdadeira Frances Farmer, tinha sido roubada.

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