Freud, a série: o que é real e o que não é na nova ficção da Netflix

13 Julho, 2020
A série da Netflix não lança muita luz sobre a vida e a obra do pai da psicanálise. É uma ficção histórica inspirada na imaginação do seu diretor e com poucas partes baseadas na realidade.
 

As pessoas continuam a se interessar pela vida de Sigmund Freud. Ele é assunto de conversas e aulas, e agora uma figura de ficção. No entanto, a nova série da Netflix, ‘Freud’, não esclarece muito sobre a vida e a obra desse neurologista austríaco. Pelo contrário, contribui para criar ainda mais confusão.

Há poucos dados históricos, biográficos e acadêmicos refletidos com precisão na série, pois trata-se de uma ficção histórica. Na verdade, a série imagina como Freud poderia ter usado suas habilidades psicanalíticas para resolver crimes.

O diretor da série, Marvin Kren, afirmou que não queria que o produto final parecesse muito histórico, mas sim que o público jovem e moderno se interessasse por ele. Dito e feito.

Além disso, a série é uma mistura de elementos modernos, provocativos e históricos. Mas, por que misturar o pai da psicanálise com crimes e sessões de espiritualismo? Já não havia controvérsia e confusão suficientes associadas a ele?

Aparentemente não. Inclusive, esse interesse em torná-lo um personagem misturado com ficção não é recente. Neste artigo, falaremos sobre as “incursões cinematográficas e artísticas” prévias de Freud e esclarecemos o que é real nessa ficção recente da Netflix.

O grande interesse cinematográfico por trás de Freud

Atualmente, o trabalho de Freud é mais estudado na área das ciências humanas do que nos departamentos de ciências. Sua popularidade não vem exatamente do seu rigor científico. No entanto, Freud tinha a vantagem de ser um escritor extremamente bom que ilustrava a psicanálise com referência ao trabalho de grandes artistas, como Shakespeare, Dostoiévski e Leonardo da Vinci.

 

De certa forma, é graças à arte e ao cinema que seu trabalho e premissas teóricas despertam interesse no público em geral. Inclusive, Stefan Marianski, do Freud House Museum em Londres, disse: “Você não precisa ler Freud para viver em um mundo onde ele é importante ou pensar de maneira freudiana”.

Por outro lado, Nicholas Ray, professor da Universidade de Leeds, afirma que, para a cultura popular, seu trabalho foi processado para se tornar mais leve e transformado em uma fantasia acolhedora e tranquilizadora.

Isso não aconteceu apenas com a obra de Freud. Também é notável no caso de praticamente toda a obra de Woody Allen, na dinâmica pai-filho em Guerra nas Estrelas: O Império Contra-Ataca ou De Volta Para o Futuro, assim como em romances de Virginia Woolf e James Joyce, Salvador Dalí e os surrealistas, Os Sopranos e Frasier e, mais especificamente, o filme de 2011 Um Método Perigoso, com Viggo Mortensen.

Tentativas prévias de fazer uma série de detetives com Freud

O romance de 2006 The Interpretation of Murder (Jed Rubenfeld) explorou Freud resolvendo um caso de assassinato. Foi baseado na primeira e última visita do pai da psicanálise a Nova York em 1909.

Em 2014, Frank Spotnitz, diretor de Arquivo X, estava pronto para escrever Freud: The Secret Casebook. Nele, ele pretendia usar suas teorias para resolver casos não resolvidos. No entanto, a série nunca se materializou.

Freud, a série: o que é real e o que não é

Freud nasceu em Freiberg (uma cidade agora chamada Pribor, na República Tcheca). Sua família se mudou para Leipzig e depois se estabeleceu em Viena para sempre.

 

Poucos dados podem ser extraídos claramente dessa série. A seguir, selecionamos alguns deles.

Datas dos seus estudos médicos

Ele estudou medicina na Universidade de Viena e trabalhou no hospital da cidade. Se formou nessa universidade como médico em 1881. Mais tarde, em 1885, ele completou sua habilitação e iniciou sua carreira em neuropatologia como professor universitário.

A série se desenvolve em 1886, por isso, parece concordar com sua interessante teoria e revisão dos primeiros casos reais.

Dependência de cocaína

Freud experimentou cocaína pela primeira vez em sua juventude. Ele acreditava que era uma “droga milagrosa”. Em 1884, ele escreveu um artigo intitulado “Über coca“, uma espécie de elogio a essa substância, pois ficou impressionado com seus efeitos físicos e psicológicos. Só mais tarde ele descobriu que era viciado nessa droga.

A série de oito episódios da Netflix explora corretamente seu vício em cocaína.

Prática psicanalítica precoce com Breuer

Em 1886, ele iniciou a prática particular em Viena e começou a usar a hipnose em seu trabalho. Cabe ressaltar que a hipnose era uma abordagem impopular na época.

Curiosamente, a série explora essa parte da sua vida. Inclusive, ela adota a abordagem de seu amigo Josef Breuer, médico com quem ele colaborou para escrever Estudos Sobre a Histeria.

Seu trabalho destaca as experiências de Breuer no tratamento de sua paciente Anna O, diagnosticada com histeria. Devido a inconsistências nos resultados, Freud eventualmente abandonou a técnica da hipnose e então desenvolveu o que chamou de “associação livre”. É importante mencionar que a série não esclarece toda essa relação com seu mentor.

 
O grande interesse cinematográfico por trás de Freud

Romance com Fleur Salomé

Nessa série, há outro aspecto que parece ser baseado na vida real. Trata-se da personagem de Fleur Salomé, uma médium que se junta à trama para ajudar a resolver casos. A inspiração para essa personagem é a psicanalista Lou Andreas-Salomé.

Sempre houve rumores de que Freud e Lou Andreas-Salomé tinham sentimentos um pelo outro. No entanto, ninguém foi capaz de comprovar isso. Em termos de precisão, a série se passa na década de 1880, e historiadores afirmam que não eles não se conheceram até 1911.

Detetive de assassinato

Sigmund Freud nunca foi responsável por nenhuma investigação criminal ou ajudou a resolver crimes de qualquer tipo. A série também o retrata participando de sessões sombrias de espiritualismo. No entanto, também não há registro disso.

Ele era um grande leitor de romances policiais, incluindo aqueles sobre Sherlock Holmes. Isso nos leva a pensar que, mesmo que ele não tenha resolvido crimes na vida real, ele definitivamente era um fã dessa literatura.

Como você pode ver, há muito pouco a resgatar das teorias freudianas ao longo dos oito capítulos de Freud, mas talvez alguns dos seus conceitos tenham originado a imaginação e a construção dessa ficção.