Hair Love: uma pequena joia que vale a pena assistir

maio 30, 2020
Podemos dizer muito com poucas palavras, podemos nos emocionar em apenas alguns minutos. Estamos falando de Hair Love, o curta-metragem ganhador do Oscar de melhor curta de animação que busca uma maior representatividade do cabelo afro no mundo da animação.

Todos os anos, depois de conhecer os vencedores dos grandes prêmios do cinema, a mídia se enche de notícias que comentam desde os looks do tapete vermelho até os discursos dos vencedores. Todo mundo fala sobre os filmes, diretores e atores vencedores do Oscar, mas não podemos esquecer que outras categorias também competem nesses prêmios e, muitas vezes, são esquecidas, embora possam abrigar pequenas joias como Hair Love.

No ano passado, todos ficaram surpresos quando um filme sobre menstruação ganhou a estatueta de melhor documentário, um curta-metragem que revelou uma realidade silenciada. Essas categorias, muitas vezes ignoradas, também abrigam talento e potencial. Os curtas-metragens são capazes de concentrar, em poucas palavras, mensagens que podem nos comover, nos entusiasmar ou despertar.

Este ano, a pequena descoberta dura apenas seis minutos e podemos encontrá-la facilmente no YouTube. Hair Love ganhou o prêmio de melhor curta de animação e nos oferece uma história comovente que visa normalizar o que já deveria ser assimilado na sociedade.

Divertido e emocionante, simples, mas muito eficaz, Hair Love mostra um pai penteando os cabelos indomáveis ​​da filha.

A história por trás do curta

Matthew A. Cherry dedicava-se ao futebol americano até que, aos 27 anos, decidiu se afastar do esporte para se dedicar totalmente ao cinema. Na verdade, os seus filmes iniciais não foram muito bem-sucedidos.

Depois de dirigir alguns videoclipes com mais ou menos sucesso e ousar com títulos de filmes independentes, ele lançou uma proposta em 2017 no site Kickstarter, uma plataforma destinada a arrecadar fundos para projetos artísticos e criativos.

O projeto tinha como objetivo arrecadar 75.000 dólares e acabou alcançando 300.000. Assim, Cherry começou a trabalhar e se cercou de pessoas com sólida formação no campo da animação.

A produtora Karen Rupert Toliver se juntou a Cherry e o curta-metragem chegou a ser exibido nos cinemas como prelúdio do filme Angry Birds 2. A partir desse começo humilde, chegou ao Oscar. Do mesmo curta-metragem, também surgiu um livro ilustrado por Vashty Harrison, que recebeu críticas mais do que favoráveis.

Uma peça simples, delicada e cativante, mas com um profundo componente normalizador e reivindicativo. Hair Love nos apresenta uma imagem absolutamente positiva da paternidade e surge da necessidade de encontrar uma maior presença negra nos espaços de animação. Algo tão simples quanto o cabelo acaba se tornando um elemento de união e representatividade.

Hair Love: inspiração em vídeos virais

Os padrões de beleza geralmente esquecem os cabelos afro e a pele negra. Até pouco tempo atrás, parecia que um cabelo liso e brilhante era o único símbolo possível de beleza. Poucos anúncios de cosméticos ou cuidados com os cabelos incluíam mulheres negras ou cabelos afro. Algo tão cotidiano quanto o cuidado com os cabelos parecia excluir uma boa parte da população.

É verdade que campanhas de publicidade cada vez mais realistas e inclusivas estão se esforçando para atingir um público mais amplo, mas ainda há muito trabalho a ser feito.

Para Cherry, o campo da animação precisava explorar esse caminho e, depois de ver inúmeros vídeos em plataformas como o YouTube, que compensavam as deficiências da mídia convencional, surgiu a ideia. São vídeos que viralizam, vídeos de pais penteando suas filhas. Eles serviram de inspiração para este curta-metragem.

Além disso, esses pais pareciam romper, de alguma forma, com a tradição dos papéis de gênero em que as mulheres são responsáveis ​​por pentear as meninas.

Essa ideia de vlogs de beleza está muito presente no curta, em uma história que, com originalidade e graça, nos leva a um campo de batalha com os cachos indomáveis ​​de uma menina.

Cena do curta Hair Love

Amor e família

Nos últimos anos, estamos testemunhando uma reinvenção da masculinidade tradicional nos meios de comunicação de massa. Da publicidade ao cinema, não é mais surpreendente ver um homem chorar ou usar produtos para o cabelo ou para a pele.

O cinema sempre foi um lugar para heróis masculinos, principalmente brancos; felizmente, essa ideia foi mudando ao longo do tempo.

Se começamos o artigo lembrando o prêmio do ano passado para “PeriodEnd of Sentence” (no Brasil, Absorvendo o Tabu) e o elogiamos pela naturalização ou normalização de algo tão cotidiano como a menstruação, Hair Love nos traz um sorriso através de uma história feliz e divertida, mas com uma mensagem que não deve ser esquecida.

De fato, deveríamos nos perguntar por que muitos acham cativante – para não dizer surpreendente ou estranho – ver um pai penteando o cabelo da filha, mas não pensam o mesmo de uma mãe. Talvez consideremos que, para a mãe, é algo natural, embora não seja para o pai.

O curta-metragem busca essa normalização. De uma maneira simples, mas bonita, ele conta uma história sobre família e amor. Conforme indicado no tutorial que é visto em Hair Love, com esforço e amor alcançaremos tudo.

De alguma forma, ele nos convida a enfrentar os problemas a partir de uma perspectiva positiva, desde os obstáculos mais simples, como um emaranhado no cabelo, até os problemas mais sérios que afetam nossas vidas. Nunca um penteado foi tão reivindicativo.