Hikikomori, jovens japoneses isolados em seus quartos

· outubro 31, 2017

Os Hikikomori são jovens japoneses que evitam sair dos seus quartos. Na cultura japonesa, a solidão sempre foi um valor tradicional que representava a busca e a sabedoria de si mesmo, da natureza e das relações sociais. De certa maneira, é uma perspectiva feudal, embora positiva. Mas na atual sociedade japonesa a solidão construtiva se tornou um isolamento patológico.

Hikikomori, jovens japoneses isolados em seus quartos

Na sequência da Segunda Guerra Mundial, a sociedade japonesa começou a se desenvolver economicamente de maneira desenfreada, o que levou a um ritmo de estudos e de trabalho cada vez mais exigente e competitivo. Os jovens recebiam uma educação cada vez mais rígida, que se manifestou em um sistema educativo que promovia uma ferrenha disciplina de aquisição de conhecimento, deixando de lado temas comunicativos e psicológicos dos alunos nas salas de aula.

As famílias dos Hikikomori veem seus filhos como uma vergonha, como algo a esconder dos vizinhos e dos familiares, com medo de escândalos e da provável estigmatização.

Expostos a essas pressões por parte das suas famílias e da sociedade, os jovens japoneses desenvolveram uma forma de isolamento desconhecido para o mundo ocidental: eles se enclausuraram em seus quartos durante meses ou anos sem a intenção de voltar ao mundo real.

Hikikomori, um fenômeno a definir

A primeira pessoa que cunhou o ter Hikikomori foi o psiquiatra japonês Tamaki Saito, em seu livro “Hikikomori, Rescue Manual”, em 2002. Nesta obra, ele descreve os jovens japoneses que se isolam em seus quartos como vítimas de um sistema educacional e de um mercado de trabalho cada vez mais asfixiante e competitivo. Ele aponta que o principal problema é a deficiente comunicação que existe entre os pais e os filhos de algumas famílias japonesas.

A sociedade japonesa atual

A sociedade japonesa vem se desenvolvendo em uma velocidade vertiginosa há algumas décadas. Mas de alguns anos para cá, tem se desenhado um crise econômica na qual se alguém quiser ascender socialmente, é preciso mostrar uma capacidade e uma disciplina impecáveis. Muitos casais que viveram esse crescimento econômico tiveram apenas um filho. Eles depositaram nesse filho todas as esperanças de um futuro de vida melhor e talvez tenham projetado nele alguns desejos frustrados das suas juventudes.

A pressão no ambiente de trabalho atual

As famílias fazem enormes esforços econômicos para que os filhos possam vencer no mercado de trabalho, levando-os às melhores escolas, com muitas atividades extracurriculares e com um currículo que não deixa o menor espaço para o lazer e o relacionamento com seus iguais.

As escolas no Japão

As escolas no Japão têm um nível educacional e um projeto curricular muito exigente e variado. Elas têm uma dinâmica de provas constantes, tarefas de casa e uma rígida supervisão do professor em relação às atividades do aluno. Muitas vezes os jovens japoneses fazem sessões intensivas extracurriculares que envolvem tardes e finais de semana passados na escola.

Mas não é só isso, às vezes são organizados acampamentos intensivos nas escolas, nos quais os estudantes dormem e comem nas salas de aula, e são avaliados em várias matérias até conseguirem passar. Muitos deles não dormem se não conseguem resolver todos os testes aos quais são submetidos.

“Nunca considere o estudo como uma obrigação, e sim como uma oportunidade para entrar no belo e maravilhoso mundo do saber.”
-Albert Einstein-

No entanto, muitos deles nunca conseguem se adaptar, seja porque têm necessidades educacionais especiais ou porque o estresse tão intenso provoca o surgimento de vários transtornos psicológicos. Infelizmente, o Japão possui uma rede assistencial deficitária para ajudar esses jovens que estão cada vez mais perturbados com esse ritmo.

A relação com os iguais: competição, falta de comunicação e perseguição

Muitas dessas crianças e muitos desses adolescentes começam a ver seus iguais com receio e desconfiança. E muitos deles sofrem perseguição por causa dos seus baixos resultados em comparação com o grupo ou por causa de outros aspectos pessoais. Os jovens não recebem o atendimento de nenhum psicólogo ou educador social dos centros educacionais, o que faz o problema se tornar cada vez maior.

Jovem se sentindo julgada pela sociedade

Além disso, eles veem o mercado de trabalho não como uma ferramenta para satisfazer sua independência pessoal e colocar em prática suas habilidades, mas como um terreno hostil, em relação ao qual temem não estar à altura e não conseguirem ser produtivos.

Muitos deles se veem sozinhos, tensos, isolados, pressionados por suas famílias e com um futuro profissional à frente que se apresenta muito competitivo para as suas capacidades. Se a tudo isso acrescentarmos o incrível desenvolvimento tecnológico no país, temos uma bomba caseira: muitos desses jovens vão se sentir mais atraídos pelo isolamento e por criar uma “vida virtual”. É uma maneira de dizer basta à sociedade e às suas famílias.

Onde está a solução para os Hikikomori?

As famílias dos Hikikomori veem seus filhos como uma vergonha, como algo a esconder dos vizinhos e dos familiares, com medo de escândalos e da provável estigmatização. Elas pensam que este pode ser um problema passageiro.

No entanto, se um jovem fica trancado no seu quarto durante semanas e não há uma resposta clara dos pais, o problema tende a se tornar crônico. Os jovens abandonam a escola e se trancam nos seus quartos em um isolamento social. Eles comem, dormem e têm seu lazer virtual dentro dessas 4 paredes.

O mundo parece melhor ao se relacionar com as pessoas através de um computador, assistindo filmes, lendo mangás, jogando videogames, escutando música e dormindo. Eles têm uma higiene pessoal bastante limitada e se precisam cortar o cabelo, por exemplo, o fazem sozinhos. Passam anos assim. E hoje é uma epidemia no Japão, pois existem aproximadamente dois milhões de Hikikomori no país.

Os jovens japoneses são vítimas de um sistema educacional e um mercado de trabalho cada vez mais asfixiante e competitivo. 

As autoridades japonesas já colocaram em prática um plano de intervenção, pois essa é uma grande perda de toda uma geração. Além disso, estão pesquisando maneiras para ajudar esses jovens. Muitos psicólogos apontam que a melhor intervenção é a sistêmico-familiar, para fazer com que, progressivamente, a família se comunique com o jovem e possa conseguir tirá-lo do seu confinamento.

A reintegração à sociedade deve ser gradual e, muitas vezes, os Hikikomori recuperados são as pessoas que orientam e apoiam esses jovens para saírem desse confinamento voluntário. O problema não é de fobia social, agorafobia ou timidez excessiva, problemas que existem em outros países do mundo; sua abordagem, portanto, deve ser diferente.

A solução seria mais de caráter preventivo, pois a sociedade japonesa deve tomar nota desse problema para diminuir o nível de exigência e isolamento social que promove nas suas escolas.