Julio Cortázar, a biografia do grande intelectual argentino

maio 4, 2019
Julio Cortázar nos presenteou com obras tão inesquecíveis quanto essenciais dentro da história da literatura. Livros como 'O Jogo da Amarelinha' e 'Bestiário' são duas maravilhas para as quais o tempo o nunca vai passar, assim como a nossa admiração por esse estilo inconfundível.

Julio Cortázar foi um maravilhoso cultivador de contos. Esse autor nos emocionou com O Jogo da Amarelinha e nos ensinou, acima de tudo, a entender que a vida cotidiana também tem esse lado especial, mágico e inesquecível. Poucas vozes na literatura hispano-americana emergiram com tanta força para inspirar gerações inteiras como esse grande narrador da história da literatura.

Muito recentemente completaram-se 35 anos de sua perda devido a uma leucemia. No entanto, hoje em dia, o nome de Cortázar continua sendo visto como um dos inovadores mais importantes na arte da escrita. Apesar de ser muito comum ouvir frequentemente que em matéria de narrativa é muito difícil fazer algo novo, o mestre argentino conseguiu.

Foi um artista renomado na hora de dar forma ao relato curto dotado de uma estranha prosa poética. Além disso, através de seu estilo, frequentemente surrealista, conseguiu nos trazer as luzes e as sombras do nosso dia a dia, com os aspectos mais duros e também os mais inspiradores. Bestiário, por exemplo, continua sendo hoje em dia uma obra-prima para a qual o tempo nunca passa, assim como a nossa admiração.

Sua bibliografia é imensa. Ele nos deixou como legado muitos contos, romances, ensaios, poesias, peças de teatro… Ele deu um passo além no campo literário, e nos deixou, por sua vez, o caminho percorrido por um homem que foi firme a todo momento com seus ideais. Julio Cortázar chegou inclusive a optar pela nacionalidade francesa em protesto ao governo militar em seu país, a Argentina.

“Por trás desse triste espetáculo de palavras, estremece indescritivelmente a esperança de que você me leia, de que eu não tenha morrido completamente na sua memória”.
-Julio Cortázar-

Julio Cortázar jovem

A biografia de Julio Cortázar

Julio Cortázar nasceu em 1914, na Bélgica, coincidindo justamente com o início da Primeira Guerra Mundial. Sua família, de origem argentina, permaneceu durante vários anos na Europa devido ao trabalho de seu pai: ele era embaixador argentino na Bélgica.

Portanto, somente cinco anos depois Julio Cortázar conheceu pela primeira vez a terra de seus pais. O segundo país que, assim como a França, marcaria sua vida pessoal e também a literária.

Um homem das letras

Sua formação e seus primeiros anos de juventude foram vividos na Argentina. Cursou o magistério e, durante alguns anos, trabalhou como professor em pequenas cidades. No entanto, em 1951 voltou à sua cidade preferida, Paris, graças a uma bolsa. Nessa cidade se estabeleceu durante um bom tempo trabalhando como tradutor para a UNESCO e dando continuidade ao seu trabalho literário.

Ao mesmo tempo, vale destacar que antes de sair de Buenos Aires, já havia publicado algumas obras importantes, como, por exemplo, seu famoso Bestiário. Havia colaborado também em diversas revistas como Realidade e Os Anais de Buenos Aires, dirigida por Jorge Luis Borges.

No entanto, foi na década de 1960 que seu nome começou a brilhar com luz própria. Julio Cortázar se transformou em uma verdadeira referência no universo das letras hispano-americanas. Seu nome já aparecia ao lado de figuras como García Márquez, Juan Rulfo, Mario Vargas Llosa, Mario Benedetti e seu objeto de admiração, Jorge Luis Borges.

Cortázar trazia seu estilo sensível, inovador e sua grande consciência social, identificando-se desde cedo com as classes marginalizadas.

Julio Cortázar, o ativista social

Julio Cortázar nunca simbolizou o clássico intelectual discreto e introvertido. Em seus anos de juventude, participou de várias manifestações contra o peronismo. No entanto, foi só nos anos 1960 que demonstrou um ativismo mais enérgico e seguro. Até então, e com o objetivo de preservar seu trabalho, tentou fazer com que fossem suas produções literárias que assumissem o eco da sua voz e dos seus pensamentos.

Livros como La otra orilla (A outra margem, em tradução livre) ou o conto Casa Tomada simbolizam esses tempos turbulentos pelos quais a Argentina passava à época. No entanto, no momento em que ele começa a ser conhecido e tem acesso à esfera pública, surge um perfil mais firme. Cortázar viaja à Cuba para conhecer Fidel Castro, assiste à tomada de posse de Salvador Allende e não hesita em apoiar o movimento sandinista na Nicarágua.

De repente, ele se transforma em um escritor reivindicativo que inspira milhares de pessoas e que busca, além disso, defender os direitos humanos. Passa a dar palestras e publica obras tão notáveis quanto Chili: le dossier noir (Dossiê Chile: o livro negro, em tradução livre), no qual fala abertamente do regime de Pinochet.  Vale destacar que seu ativismo não foi bem aceito pelo governo argentino, chegando ao ponto de ter sido investigado pela direção da inteligência policial.

Julio Cortázar

A pressão (e até a perseguição), por fim, leva Julio Cortázar a pedir a nacionalidade francesa para poder se mudar à sua cidade predileta: Paris. Lá, vive seus últimos anos até que, após completar 69 anos, acaba deixando este mundo devido a uma leucemia.

“O absurdo é sair pela manhã e encontrar à porta a garrafa de leite na soleira e ficar tranquilo porque ontem aconteceu o mesmo e amanhã também acontecerá”.
-Julio Cortázar-

O Jogo da Amarelinha, um tesouro literário de Julio Cortázar

Não nos equivocamos ao afirmar que a publicação de O Jogo Da Amarelinha, em 1963, marcou um antes e um depois na literatura hispano-americana. Cortázar conseguiu realizar nessa obra algo nunca visto até o momento.

Seu dom para criar fábulas, para renovar os planos linguísticos, o universo técnico-estilístico e o da argumentação abre as portas para um novo gênero do qual ele é o único autor.

Estrutura

Para começar, quem já leu O Jogo Da Amarelinha sabe que há duas maneiras de mergulhar em suas páginas. Podemos fazer do modo “normal”, ou seja, lendo do capítulo 1 ao 56. Mas, como o próprio Cortázar explica, também podemos ler de outra maneira, seguindo sua “tabela de direcionamento”.

Nesse caso, começaríamos no capítulo 73 e seguiríamos a ordem indicada ao final de cada capítulo. Nada mais e nada menos do que isso. A recomendação é ler das duas maneiras para participar desse jogo, dessa revelação literária com a qual é possível descobrir perspectivas e brincar com as realidades.

Julio Cortázar

Estilo

O Jogo da Amarelinha foi escrito em prosa poética. Assim, um dos objetivos de seu autor não era apenas nos surpreender com sua estrutura inovadora. A finalidade última é fazer o leitor refletir, levando-o a ver como a história pode ser reescrita, mudada, reinscrita e até destruída.

Cortázar foge da linguagem convencional para entrar no âmbito mais emocional da nossa mente através de jogos de palavras, mudanças na pontuação e uso de neologismos.

Argumento

O personagem do livro é Horacio Oliveira. Trata-se de um personagem intelectual, um pouco frio e analítico. Em última análise, é um homem em crise que representa, sem dúvidas, uma grande parcela da população. No entanto, seu mundo muda quando, de repente, encontra outro ser inesquecível do mundo literário: Maga.

Trata-se de alguém puro, emocional, espontâneo e livre de convencionalismos. Nela, está a essência do próprio surrealismo do qual Cortázar se nutriu em terras francesas.

Esse personagem é um desafio perante a própria sociedade. É o oposto de Horacio Oliveira, é um ser excepcional, mas primitivo ao mesmo tempo; que deseja curiosamente ter o dom da palavra enquanto os próprios intelectuais invejam sua intuição, magia e simplicidade.

O Jogo da Amarelinha simboliza, em essência, as duas esferas da nossa própria sociedade: o intelectual e o emocional, o rígido e o revolucionário, o existencialismo e o convencionalismo… Poucos livros são tão indispensáveis para desafiar nossa mente e nos fazer refletir sobre uma realidade na qual o tempo parece não passar.

Julio Cortázar nos presenteou com obras tão inesquecíveis quanto essenciais dentro da história da literatura. Livros como O Jogo da Amarelinha e Bestiário são duas maravilhas para as quais o tempo o nunca vai passar, assim como a nossa admiração por esse estilo inconfundível.

  • Herraez, Miguel (2011) Julio Cortázar, una biografía revisada. Alreves