Junte e forme

· agosto 26, 2016

Nunca fui fã de quebra-cabeças. É claro que muitos são soberbos. Exemplos: os que retratam a Ponte dos Suspiros de Veneza, o Taj Mahal da Índia. Ou mesmo aqueles com reproduções de pinturas impressionistas com paisagens de sonhos.

Também reconheço a extrema paciência e habilidade dos que se dedicam a juntar pecinha por pecinha. Mas quem pratica quebra-cabeças sabe que todas as partes vieram na caixa. É questão de separá-las e ajustá-las.

os puzzles da vida real são bem mais complicados, pois vêm com peças faltando. Na verdade, eles se assemelham mais a louças partidas.

Alguma vez você experimentou colar cacos de uma xícara? Uma vez quebradas, estilhaçadas pelo chão da cozinha, as loucinhas são irregulares, imperfeitas. Há também a necessidade do cuidado para não sangrar os dedos.

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Mas você insiste. Recolhe fragmentos embaixo do fogão, da geladeira, do armário. Põe tudo sobre a mesa e começa a montar o quebra-cabeça. Faz isso por amor. Afinal, aquela xícara – agora em pedaços – tem um significado especial.

Ora porque ela faz décadas de companhia, ora porque foi um presente de pessoa querida, ora porque custou caro comprá-la. Ou mesmo por nenhuma justificativa. Simplesmente você quer ressuscitar aquela xícara.

Deseja que ela volte ao aparador. Reivindica o direito de tomar seu café nela. Então você pega o celular. Manda um WhatsApp contando mentira qualquer para se desvencilhar do compromisso da tarde. Pois o único que interessa no mundo é colar aquela xícara.

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Você faz. Depois de uma ou duas horas, surge uma nova xícara. Olhando para ela, você constata que está diferente. A asa ficou meio torta, os lábios ásperos. Seu equilíbrio, manco. Ao contrário do quebra-cabeça de fábrica, a junção é imperfeita.

Porque ao se quebrar, alguma matéria se perdeu para sempre. Alguma lasquinha pode ter escapado pelo ralo do piso da cozinha. Irrecuperável agora. Ouvindo bem, até o tilintar da colherzinha na nova louça soa distinto.

É outra xícara? Não. É a mesma. Só que mais madura. Passou pela experiência da queda e da consequente quebra. Você também nunca mais será a mesma pessoa. Aprendeu a reunir e colar caquinhos.

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