Kintsukuroi: minhas cicatrizes emocionais me tornaram mais forte

Kintsukuroi: minhas cicatrizes emocionais me tornaram mais forte

1, agosto 2017 em Psicologia 425 Compartilhados
Kintsukuroi: minhas cicatrizes emocionais me tornaram mais forte

Kintsukuroi é um método para curar as feridas emocionais. É inspirado na antiga arte japonesa homônima com a qual se restauram as cerâmicas quebradas. A chave do método Kintsukuroi consiste em deixar à mostra as cicatrizes embelezadas com ouro e prata. Elas são a melhor demonstração da sua força emocional.

Mas, para que existam cicatrizes, as feridas precisam se curar. Uma coisa que muitas vezes não permitimos com nosso próprio comportamento. Sucumbimos diante das tentações que nos tiram a dor de forma imediata, mas que a longo prazo impedem a ferida de curar; queremos curar as feridas dos outros muito rápido, sem deixar que estas criem casca. Falamos de uma cicatrização que começa com o reconhecimento do sofrimento

Não minimize o meu sofrimento

Pare de me dizer que não é para tanto. Não me diga que tem gente pior do que eu. O que você entende de emoções?! Falta empatia para você, está banalizando a minha dor e menosprezando o meu valor e a minha maturidade, a mesma maturidade que vai me proteger de cair nas redes do conformismo e do complacente autoengano.

Mulher triste por dificuldades

Sou uma pessoa corajosa. Você não vai me ver enganando a mim mesmo. Me atrevo a olhar minha feridas, a curá-las, a saná-las e a embelezar minhas cicatrizes, já que elas são a melhor mostra de que estou vivo, de que vivi intensamente e de que estou disposto a enfrentar todos os medos que aparecerem na minha intenção de continuar vivendo plenamente.

Nas minhas cicatrizes existe orgulho, em parte porque encarei o tempo que demoraram para se formar como uma janela de aprendizagem. Meus filhos não repetirão a minha dor, meus amigos não se sentirão sozinhos e julgados, as pessoas que amo encontrarão em mim um exemplo de que não há que temer a vida e de que podemos superar a dor se soubermos como.

A dor é algo circunstancial da vida, tanto a dor física quanto a dor emocional, mesmo que não queiramos falar disso. Todos já sofremos, sem dúvida, e aquele que negar será acusado da pior das mentiras: o autoengano.
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Por acaso você já não sofreu?

Olhe nos os olhos. Olhe as minhas cicatrizes. Eu me quebrei por amor. Já senti a mesma dor que sentia minha filha, chorei uma perda e eu maldisse mil vezes esse estúpido sofrimento sem sentido. Eu olho nos olhos e sinto empatia e compaixão. Eu me importo com o que acontece com as pessoas ao meu redor. Como você…

Fui capaz de recolher os pedaços da minha alma quebrada. Recolhi todos e cada um, limpos de emoções tóxicas como a ira, o rancor ou o ressentimento. Recolhi e arrumei todos eles depois de tocar lá no fundo: uma tarefa que me ajudou a entender o que aconteceu e a representação mental que fiz do que aconteceu.

Viva intensamente sem medo de se quebrar. Mas você não precisa se preocupar, já que a nossa mente, assim como o corpo, é dotada de um mecanismo de adaptação chamado de impulso de reparação, que se encarregará de curar a nossa dor e de embelezar nossas cicatrizes.
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Já analisei o que me aconteceu e fiz isso procurando eliminar os filtros, interpretações e enganos. Eu não quis ficar preso à dor, e para conseguir isto tive que abrir a ferida que tanto me doía novamente. Achei que já estava limpa, mas me enganei. Tive que limpá-la e enquanto fiz isso pude aprender o que aconteceu.

Percebi que fui meu pior juiz, que tinha que compreender o que aconteceu do ponto de vista do amor e da compaixão. Revisei o que significou para mim essa ferida e repassei as conclusões que elaborei de forma precipitada e mal aconselhada pela dor, a mesma dor que me oprimia a alma.

Procuram nos convencer o tempo todo de que precisamos ser felizes, existem rios de tinta que nos encorajam a buscar a felicidade; mas ninguém fala de como precisamos administrar a adversidade, do que podemos fazer para curar nossas feridas emocionais e como podemos superar os pequenos e grandes problemas do dia a dia.
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Conecte-se com a sua força emocional

Percebi que precisava me conectar com a minha própria força emocional, que tinha que aprender a analisar as pessoas, a tomar decisões e a administrar a adversidade. Aprendi a criar distância, a pensar diferente, sob um novo ponto de vista mais construtivo. Foi então quando entendi que a ação e o valor são os motores do crescimento emocional.

Analisei o meu diálogo interior e adquiri a habilidade de diferenciar aquilo que pode ser mudado daquilo que não. Aceitei a minha incapacidade de lutar com titãs, mas mudei tudo aquilo que estava ao alcance da minha mão. Parei de tentar derrubar muros e procurei portas. Superei meu temor ao mar e aprendi a nadar. Parei de amaldiçoar o rio e me dediquei a construir pontes.

Mulher de olhos fechados

Trabalhei, pensei e fui corajoso… entendi que os medos podiam me deter, mas não me vencer… e no fim desse processo, vi nas minhas cicatrizes a beleza que refletiam. Essas cicatrizes emocionais falam de mim, falam da minha força, falam da minha capacidade de aprender com o sofrimento para superar a adversidade. Minhas cicatrizes me lembram que sou frágil e forte ao mesmo tempo. Quando olho para elas não vejo a dor, mas vejo a força e vejo tudo aquilo que fui capaz de superar…

Quando vejo minhas cicatrizes me sinto mais forte, mais seguro e talvez… também mais feliz… Talvez este seja o segredo da felicidade?

“Parei de amaldiçoar o rio e me dediquei a construir pontes.”
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Transforme as suas cicatrizes em pedagogia

Estou plenamente convencido de tudo que aprendi. Não é necessário se queimar para entender que o fogo pode machucar. Normalizei o que é normal. Ajudei outras pessoas a não se sentirem bichos esquisitos e aceitarem que seu sofrimento se encaixa nas circunstâncias pelas quais passam nessas horas, uma coisa reservada unicamente às pessoas que vivem e amam intensamente.

Hoje mostro minhas cicatrizes sem medo, sem culpa, sem vergonha. Algumas das adversidades que tive que superar foram fortuitas, fruto do mais puro azar. Outras não. Sem ser consciente disso, às vezes eu mesmo provoquei meu sofrimento com as decisões que tomei ou que deixei de tomar, com as pessoas que não analisei, com as expectativas que criei ou com as desilusões que tive.

A vida, como a cerâmica, é frágil e bela ao mesmo tempo. A vida pode se romper a qualquer momento em mil pedaços, mas podemos reconstrui-la, e se formos capazes de aprender com os acontecimentos seremos pessoas mais belas e mais fortes.
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Hoje compartilho a minha sensibilidade. Hoje construo um nova realidade. Uma realidade onde a compaixão, a empatia e o amor baniram o julgamento, os estereótipos e as mentiras. Hoje faço parte dessa nova realidade, a realidade na qual posso aceitar que sofri e que minha alma chorou; mas que nem uma só dessas lágrimas foi derramada em vão, já que todas elas, junto com todas as minhas cicatrizes, me ensinaram algo que eu deveria aprender.

Graças ao Kintsukuroi, hoje sou uma pessoa mais forte e mais segura. Graças ao Kintsukuroi, hoje não me envergonho das minhas cicatrizes, da minha sensibilidade, da minha fragilidade e da minha força.

Algumas pessoas acham que o Kintsukuroi é uma antiga técnica japonesa para reparar a cerâmica quebrada, mas estão enganados. Kintsukuroi é muito mais do que uma simples técnica; Kintsukuroi é uma arte, a arte de curar as feridas emocionais.

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