Onde está a linha que separa a preocupação da obsessão?

Onde está a linha que separa a preocupação da obsessão?

fevereiro 25, 2017 em Psicologia 0 Compartilhados
Onde está a linha que separa a preocupação da obsessão?

Todos nós já tivemos uma preocupação que perturbou nosso pensamento e que interrompeu nossa vida normal. As preocupações afetam em nossas tarefas no trabalho e influenciam a nossa atenção enquanto mantemos uma conversa ou assistimos a um filme. Afinal, trata-se de uma preocupação ou obsessão?

Os problemas que vão aparecendo ocupam nosso pensamento e nos fazem procurar uma solução efetiva que acabe com a nossa preocupação. Há pessoas que se preocupam mais do que o normal com coisas que não merecem tanta atenção ou angústia. Quando uma preocupação para de ser “normal” e se transforma em doença? Como podemos saber que ultrapassamos o limite da preocupação e o sentimento passou a ser uma obsessão?

Existem diferentes patologias catalogadas como transtornos de ansiedade, e elas estão relacionadas com a forma, quantidade ou intensidade de preocupação que é sofrida ou com o motivo de tal preocupação. Falamos da ansiedade generalizada, fobias, fobia social ou transtorno de estresse pós-traumático.

Mas, se há uma patologia que se caracteriza pelas obsessões que inundam a mente de quem sofre com ela, é o Transtorno Obsessivo Compulsivo, que foi separado dos transtornos de ansiedade no novo Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais.

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As obsessões são a prisão do pensamento

É preciso que a diferença que existe entre um episódio de preocupação normal e um período “obsessivo”, ou uma obsessão concreta, seja muito clara.  Os seguintes pontos podem te ajudar a identificar uma obsessão:

  • Sua preocupação é realista? O motivo da sua preocupação é pouco provável e você está antecipando um fato que é muito improvável ou impossível de acontecer?
  • Sua preocupação é desmedida? A quantidade de preocupação não corresponde com a gravidade do problema ou com o assunto que você não para de revirar em sua cabeça.
  • Você passa uma grande parte do dia pensando em um assunto ou sobre um problema concreto? Você passa o dia inteiro se preocupando ao ponto de que isso interfira em seu dia a dia?
  • Você sente um mal-estar por estar constantemente com essa ideia? As obsessões são egodistônicas, ou seja, geram um grande mal-estar, e você gostaria de eliminá-las de sua mente, mesmo que isso pareça impossível.
  • Estes pensamentos te forçam a fazer algo que você sabe que é absurdo ou que não vai solucionar o problema, mas mesmo assim você faz? Lavar constantemente as mãos, abrir e fechar qualquer porta um determinado número de vezes, não tocar nenhum objeto com as mãos, etc.
  • Você sente vergonha de reconhecer isso para os outros? Você sabe que tem um problema, que seu pensamento e/ou comportamento não é “normal”, mas prefere manter em segredo porque ninguém vai te entender ou vão pensar que você é estranho.
  • Você não pode controlar seu aparecimento nem sua duração? Os pensamentos que te atrapalham aparecem de repente, sem avisar, e você pouco pode fazer na tentativa de controlá-los e fazer com que eles desapareçam.

Se você respondeu “sim” a alguma destas perguntas, é recomendável que procure ajuda com algum profissional para aprofundar e analisar o problema. As diferenças fundamentais são que as obsessões aparecem involuntariamente, interferem em nosso pensamento, geram mal-estar, ocupam grande parte do dia e, em alguns casos, forçam a realizar ações  e “rituais” (compulsões) na tentativa de reduzir a ansiedade associada.

Obsessões comuns

Embora sejam ciclos de pensamento muito heterogêneos expressados de diferentes maneiras, existem objetos de obsessão típicos. Estes seriam algumas das obsessões mais comuns:

  • Medo  de ser contaminado. Temer tocar objetos diretamente com as mãos por medo de ser contaminado, pensar que as mãos estão sujas mesmo quando são limpas constantemente. Temer ficar próximo de alguém que esteja doente e pensar que vai ser contaminado por isso.
  • Sobre a saúde e a aparência física. Obsessão pela aparência física, procurar defeitos onde não tem, olhar-se constantemente no espelho.
  • Relacionadas ao sexo. É muito comum entre as pessoas que têm este tipo de obsessão ter pensamentos sobre sua orientação sexual, se é homossexual, por exemplo. Normalmente, um pensamento que não corresponde com a realidade.
  • De conteúdo agressivo. Medo de fazer algo violento, agredir alguém ou medo de que algo aconteça com alguém muito próximo.
  • Obsessões somáticas ou hipocondria, medo de ficar doente, fazer milhares de exames para saber se tem alguma doença. É comum, neste tipo de obsessão, a pessoa pensar que contraiu HIV ou qualquer outra doença potencialmente perigosa.
  • Ter pensamentos considerados “maus”, de preconceito para com uma pessoa ou pensamentos obscenos que não param de surgir e que atormentam a pessoa, fazendo com que ela se sinta culpada por tais pensamentos.
Todas as obsessões têm algo em comum, pois são pensamentos intrusivos, recorrentes e persistentes, percebidos como repugnantes ou sem sentido.
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Compulsões para reduzir a ansiedade

Em muitos casos,  as obsessões acompanham compulsões, com o objetivo de reduzir a ansiedade provocada. Em algumas ocasiões, a compulsão não está aparentemente conectada com a obsessão, ou a intensidade com que é realizada não concorda com a realidade. Da mesma forma que existem obsessões típicas, também existem compulsões típicas, como as seguintes:

  • Tomar vários banhos. Inclusive há casos de pessoas que tomam tantos banhos que chegam a ter feridas.
  • Verificar constantemente se não deixou o gás aberto, uma porta destrancada ou uma luz acesa…
  • Tocar uma determinada quantidade de vezes um objeto.
  • Contar mentalmente ou em voz alta até um determinado número para poder começar uma ação, abrir uma porta, por exemplo.
  • Organizar, ter tudo no lugar e, mesmo que já esteja tudo organizado, mexer novamente no objeto até que ele esteja perfeito aos seus olhos, e se ele sofrer qualquer mudança, tem que começar de novo… às vezes até quando tudo está intacto.
  • É intolerável a ideia de ter que se desfazer de algo, mesmo que a pessoa já não use o objeto há anos e  saiba que nunca mais vai precisar dele; a ideia de jogar fora causa muita angústia.
  • Rezar várias vezes por acreditar ter pecado, por ter pensamentos que considera intoleráveis ou imperdoáveis, como se fosse uma forma de se redimir por seus maus pensamentos.

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Mesmo que as compulsões possam reduzir a ansiedade por um curto espaço de tempo, o efeito não é duradouro e, em seguida, é preciso continuar repetindo os rituais. Mesmo que não proporcione nenhum tipo de gratificação, o prazer transmite uma falsa e curta sensação de controle sobre as obsessões que invadem o pensamento.

Existe uma saída para a obsessão?

Uma especialista no assunto, Judith L. Rapaport, estudou e experimentou diferentes tratamentos em pessoas que sofrem Transtorno Obsessivo Compulsivo (TOC). Concretamente, seus estudos se concentraram na utilização da clomipramina (Anafranil) como tratamento para as obsessões.

As obsessões diminuíram em uma grande porcentagem de pessoas, mesmo que em outras o efeito tenha sido nulo. Hoje em dia são utilizados antidepressivos ISRS, que têm menos efeitos colaterais e perseguem o mesmo objetivo, embora a escolha do fármaco possa variar.

Como terapia psicológica, existe a Exposição com Prevenção de Respostas (EPR) que consiste no paciente enfrentar seu objeto de obsessão através da imaginação ou de maneira direta, evitando os rituais e as compulsões. Estes tratamentos são considerados efetivos e, se combinados, podem ter uma resposta muito positiva, supondo o alívio do grande sofrimento que as pessoas passam sob uma obsessão.

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