O poder moderno não busca reprimir, mas angustiar

O poder moderno não busca reprimir, mas angustiar

dezembro 3, 2016 em Emoções 375 Compartilhados
O poder moderno não busca reprimir, mas angustiar

O medo é uma emoção humana completamente natural que garante a nossa sobrevivência. Mas, quando levado ao extremo, ele tem a capacidade de condicionar o pensamento, as emoções e o comportamento das pessoas. O poder e os seus representantes sempre souberam que o medo é um meio eficaz para controlar a vida dos outros e fazê-los pensar, sentir e agir exatamente como eles desejam.

Historicamente, as pessoas que estão no poder recorrem ao medo para submeter as consciências daqueles que estão sob seu comando. Na sua expressão mais simples, o medo é colocado na mente da pessoa através de castigos físicos, que ameaçam a integridade ou a vida do indivíduo.

Os espancamentos, as privações ou a dor, são ferramentas utilizadas ao longo da história para punir os insubordinados, alcançar a subjugação dos inimigos ou manter viva uma ameaça latente entre os que obedecem.

“O poder tende a corromper, o poder absoluto corrompe completamente”.
-Lord Acton-

Mas, controlar alguns criados da sua propriedade, como nos tempos medievais, é bem diferente de manter controladas as grandes multidões no momento presente.

Muitos poderiam escapar desses castigos físicos, porque seria impossível detectar todos os atos que vão contra o poder, ou aplicar a punição para aqueles que realmente o afrontam. Por isso, o poder atual se tornou muito mais sofisticado. Já não se trata de reprimir algumas pessoas que saíram do controle, mas de implementar mecanismos que garantam a obediência da maioria das pessoas.

O poder e o medo na atualidade

Atualmente, o medo é uma emoção instalada massivamente na mente das pessoas. É um medo difuso, impreciso, que vem do reconhecimento de centenas de ameaças latentes, embora não existam dados precisos sobre o perigo. Os riscos não são totalmente claros e, portanto, o medo se instala e invade a nossa vida emocional sem que percebamos. Um nome mais preciso para este tipo de medo é “angústia”.

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No fundo, o que sentimos é um medo de viver e, “sem querer ou querendo”, enfrentamos esse medo “sendo obedientes”. Entre consciente e inconscientemente, nós respeitamos as ordens que nos são impostas; tentamos nos juntar ao rebanho. Somos rebeldes de uma maneira submissa: nos excedemos em um jogo de futebol, mas poucos têm a liberdade interior para “jogar tudo paro alto” e lutar pelo que sempre sonharam.

Muitos são ainda capazes de renunciar aos seus direitos, em troca de um suposto estado de maior segurança. Os políticos sabem disso e, portanto, justificam a redução dos direitos e da liberdade através de alguma ameaça.

Os serviços de saúde são limitados para não criar um colapso financeiro. Se cobram mais impostos é para garantir a sua pensão na velhice. Se aprovam que a polícia entre na sua casa sem um mandato judicial, é para evitar as ameaças terroristas. É por tudo isso que dizem que os políticos nos prometem sonhos, mas atuam como conspiradores de pesadelos.

A fábrica de ameaças

O mundo de hoje não é exatamente uma canção que exalta a harmonia e a fraternidade, mas também não é o esgoto imundo que, dia após dia, os telejornais e a imprensa nos mostram. Os principais meios de comunicação se especializaram em transformar o crime, a violência e a corrupção na única realidade. Tudo isso é verdade, mas também existem milhões de pessoas boas e honestas que só querem viver em paz.

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Mas, para se manter, o poder precisa de pessoas angustiadas e ansiosas, porque alguém ansioso é vulnerável, e as pessoas que se sentem vulneráveis sentem ao invés de pensar. E quando a pessoa sente sem pensar, se torna uma presa fácil do medo que habita o seu interior e aceita o inaceitável: vivem de acordo com conversas fúteis em um dispositivo móvel, cultuam os músculos do corpo, cursam cinco mestrados para se sentirem competentes ou procuraram obsessivamente um grande amor. Acreditam que tudo isto lhes trará a felicidade almejada.

Existem profissionais assustados e angustiados. Não existe nenhum funcionário que não tenha medo de ser demitido, porque na maioria das empresas o fantasma do “corte de pessoal” assusta os empregados.

Poucas mães conseguem educar tranquilamente os seus filhos: existe a ameaça dos pedófilos, o transtorno da hiperatividade com déficit de atenção e milhares de outras coisas. Estamos todos de frente para a incerteza do próximo desequilibrado que provocará uma guerra, ou do próximo irresponsável que vai mudar as regras do jogo e nos tirar dele.

Por que punir com castigos? Por que reprimir? Angustiar as sociedades é suficiente? Para isto, existe a fábrica do medo, para nos ensinar que não podemos assumir o controle das nossas vidas. Existem ameaças que excedem a nossa capacidade de reagir, e isto justifica o fato de existirem centenas de pessoas repulsivas em postos de poder.

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