Lóbulo frontal: o grande gestor da nossa personalidade

Lóbulo frontal: o grande gestor da nossa personalidade

6, maio 2017 em Psicologia 553 Compartilhados
Lóbulo frontal: o grande gestor da nossa personalidade

O cérebro é um órgão muito sensível aos traumatismos cranianos, e um acidente que o provoque pode causar danos com sequelas importantes. Após uma forte pancada na cabeça, diferentes funções podem ser comprometidas. A linguagem, a memória, a visão, etc. Dependendo da área do cérebro que recebe o impacto, o resultado pode ser diferente.

Cada lóbulo cerebral tem a sua função. O lóbulo frontal é de grande importância em funções como as funções executoras, a flexibilidade mental, a resolução de problemas, mas também é responsável por várias das características que definem a nossa própria personalidade.

Apesar de parecer estranho, a priori, um acidente poder mudar a nossa personalidade, a verdade é que isso pode acontecer. A personalidade é um compêndio de características mais ou menos estáveis e sobre as quais influenciam a genética, mas também nossas próprias experiências. Existem pessoas que, depois de um acidente, sofrem variações importantes nestas características, explicadas pelos danos que o próprio acidente provocou.

O surpreendente caso de Phineas Gage

Phineas Gage

Este caso é um dos mais famosos no âmbito da neuropsicologia. Tudo começa quando Phineas sofre um acidente trabalhando, e a partir de então já não volta a ser ele mesmo. Neste acontecimento desafortunado, uma barra de ferro de 1 metro de comprimento lhe atravessou o crânio. Surpreendentemente não só saiu com vida, como não perdeu a consciência.

Este sujeito chegou a se recuperar completamente fisicamente, mas alguma coisa mudou nele. Se tornou irreconhecível para as pessoas ao seu redor. As pessoas que o conheciam diziam que era um homem responsável, mas depois do acidente se tornou irregular, blasfemo, agressivo e impaciente. Seus relacionamentos sociais foram seriamente prejudicados, assim como o seu rendimento no trabalho.

Como consequência destas mudanças, foi rolando de trabalho em trabalho até que acabou exibindo as suas feridas no circo. Tanto o crânio quanto a barra estão no museu da Universidade de medicina de Harvard. Graças a este caso, começamos considerar o lóbulo frontal como o grande gestor da personalidade, das emoções e dos relacionamentos sociais.

O lóbulo frontal e a personalidade

Apesar de anteriormente o lóbulo frontal ter sido considerado uma estrutura sem função, com o caso de Gage foram retomadas as pesquisas sobre as funções desta área. O lóbulo frontal é bastante amplo e se encarrega de muitas funções. Por exemplo, os movimentos motores ou a articulação das palavras (área de Broca).

Mas o córtex pré-frontal é a área que se encarrega de definir nossa personalidade. Encarrega-se do caráter, do controle das emoções, da iniciativa e do julgamento do indivíduo. Também é importante no processo de atenção. Considera-se que a atividade fundamental desta região cerebral é a coordenação de pensamentos e ações de acordo às metas internas.

cerebro-lobulo-frontal

A função executora faz referência à capacidade de estabelecer diferenças entre pensamentos conflitantes, realizar julgamentos sobre o bem e o mal, prever as consequências futuras de atividades atuais. Também administra o trabalho conforme metas determinadas de antemão, realiza previsão de resultados, cria expectativas e participa no controle de impulsos em entornos sociais (inibição de comportamentos inadequados).

Lesões no córtex pré-frontal que afetam a personalidade

As lesões que afetam o córtex pré-frontal podem desencadear mudanças drásticas de personalidade. Tanto lesões provocadas por um traumatismo craniano, como o que acontece por um acidente de trânsito, como a lesão de tecido durante uma cirurgia, podem causar essas mudanças. Dependendo da área afetada, as mudanças de personalidade podem acontecer em um sentido ou em outro.

Então, por exemplo, pode acontecer uma síndrome de apatia que consiste em:

  • Redução da espontaneidade motora e verbal.
  • Perda de iniciativa.
  • Atividade motora e verbal mais lenta.
  • Indiferença afetiva.
  • Emotividade escassa.
  • Menos interesse pelo sexo.

Também pode surgir uma síndrome de desinibição:

  • Dificuldade de reduzir a velocidade de certas condutas.
  • Perda da autocrítica.
  • Conduta social inadequada.
  • Indiferença pelos outros.
  • Desinibição sexual.

As lobotomias

O psiquiatra e neurologista Egas Moniz foi o primeiro a usar a técnica da lobotomia em 1935. Consiste em uma sessão cirúrgica em um ou mais fascículos nervosos de um lóbulo cerebral. Neste caso, separou-se a conexão entre o córtex pré-frontal e o resto do cérebro. Durante anos foi utilizado para o tratamento da depressão e outros transtornos psiquiátricos.

Embora Moniz dissesse ser uma intervenção de sucesso, ela tinha devastadores efeitos colaterais. Além de causar a morte de 6% dos pacientes, foram registradas mudanças adversas de personalidade e do funcionamento social na maioria dos pacientes. Apesar de conseguir alguns resultados um tanto questionáveis, recebeu um prêmio Nobel de medicina.

Walter Freeman popularizou essa prática nos EUA. Mediante a técnica do “pica-gelo”, martelava no conduto lacrimal tal ferramenta até separar o lóbulo frontal do resto do cérebro. O usava como tratamento de qualquer doença psicológica conhecida naquele então. Hoje em dia essa técnica é considerada uma barbárie da história da psiquiatria, e felizmente foi erradicada em 1967.

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