Mamãe, se eu não voltar para casa hoje à noite... - A Mente é Maravilhosa

Mamãe, se eu não voltar para casa hoje à noite…

julho 25, 2018 em Psicologia 0 Compartilhados
Mamãe, se eu não voltar para casa hoje à noite...

Mamãe, se eu não voltar para casa hoje à noite, não deixe que minha voz se apague. Não deixe que desviem a atenção do mundo com minha forma de vestir ou minha forma de andar. Diga que se eu fui simpática com aquele rapaz que veio falar comigo, foi apenas por educação, não porque queria dar em cima dele.

No entanto, se fui grossa, é porque queria ficar com minhas amigas e só, não porque queria provocar. Porque mamãe, se hoje à noite eu não voltar para casa, é porque um homem me estuprou e eu me tornei mais uma vítima.

Conte para as pessoas quem eu sou de verdade. Não deixe que minha voz se apague, abafada pelo que a imprensa ou aqueles que não me conhecem queiram contar. O que disserem de mim na cidade, a má reputação que me perseguir, é porque vivi como quis, sem me importar com o que diriam. Porque eu sou dona da minha vida, e não sou prisioneira do que os outros desejam.

As mulheres são julgadas a cada passo que dão. Desde que são meninas, precisam cumprir certas expectativas. Se as ignoram, são “meninas más”, vadias, que merecem o que aconteceu.
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Amigos passando o tempo juntos

Mamãe, se eu não voltar, diga que tentei viver minha liberdade

Mamãe, diga alto e claro, até ficar sem voz, que eu só tentei viver minha liberdade. Que por fim entendam que não importa o número de relações sexuais que eu já mantive. O que importa é saber se meu agressor enxerga as mulheres como objetos.

Que fique bem claro que minha forma de vestir é para mim. Se você sexualiza isso porque está calor e minhas roupas de verão mostram mais do que as de inverno, é mais um problema seu do que meu. Pense nisso, é apenas uma roupa. Pense mais uma vez: os homens podem andar sem camisa e com as calças baixas, mostrando a cueca, e nenhuma mulher tenta estuprá-los. Por que será?

“Nossos corpos são nosso primeiro campo de batalha”.
-Barbara Kruger-

Fale sobre a pressão e os complexos aos quais somos submetidas pela sociedade. Transforme-se na voz de todas as mulheres, mostrando tudo que vivemos. Conte como já fomos tocadas sem termos concordado e, ao mostrar nossa posição, como somos insultadas e como nossos agressores ficam violentos.

Como mulher, tenho medo de me defender de uma agressão sexual porque é mais provável que acabe sendo morta. Mas se eu não me defendo, será minha palavra contra a dos outros.
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Amigos reunidos

Mamãe, fale sobre o medo que uma mulher sente ao andar sozinha

Fale sobre o medo que eu sentia quando voltava sozinha à noite depois de dar uma volta. Faça todos saberem que esse medo só eu sentia, meu irmão não. Por eu ser mulher, devido ao meu gênero, sempre corri mais perigos.

Conte como seguro com força as chaves antes de chegar em frente de casa. Faço isso para ter uma forma de me defender caso alguém me ataque no caminho. Diga que as mulheres sempre olham por cima do ombro ao andarem sozinhas ou em um lugar qualquer, seja de dia ou de noite.

“No caminho de casa eu quero ser livre, não corajosa”.
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Mamãe, não se sinta culpada

Mamãe, acima de tudo, não se sinta culpada se hoje eu não voltar para casa, porque você não podia fazer nada. Você me educou para viver como eu quisesse, sem complexos. Você me avisou sobre tudo o que podia acontecer e deixou claro que se acontecesse, eu não poderia evitar. E agora mesmo, te digo que você também não pode. Eu sou vítima por ser mulher e isso é algo que não posso mudar.

Porque mamãe, nessa sociedade machista, eu sou a vítima, mais uma mulher estuprada, mas sou quem vai receber os julgamentos mais duros das pessoas. Porque para o mundo é difícil entender que eles estupram sem que nós tenhamos provocado esse comportamento. Estupram porque o patriarcado lhes disse que somos difíceis, que é preciso insistir, que gostamos de cantadas e de qualquer atitude, mesmo quando não pedimos.

Porque saber que qualquer homem pode ser um estuprador e qualquer mulher uma vítima é difícil de entender. Mas mamãe, as pessoas só vão entender se você contar tudo o que eu te disse e fizer com que a voz de todas as mulheres seja ouvida. Não existe outra causa de um estupro além da educação que sexualiza as mulheres. E não existe outra vítima além daquela que tem uma vagina. Assim, mamãe, não deixe que minha voz seja calada, mas também não deixe que corrijam a sua. Você me conhece e sabe o que vivemos. Que a sua voz seja ouvida e se transforme em um hino.

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