Metadesumanização: o que penso que pensam de mim

· novembro 5, 2018

Desumanizar consiste em atribuir a outras pessoas traços que consideramos típicos de animais, e negar a essas mesmas pessoas traços humanos. Em outras palavras, desumanizar é considerar alguém “menos pessoa e mais animal”. Mas e a metadesumanização?

Não só podemos desumanizar as pessoas a nossa volta, como também podemos nos sentir desumanizados. É isso que se chama metadesumanização. Dessa forma, a metadesumanização é pensar que outras pessoas nos desumanizam.

É pensar que os outros nos consideram inferiores à representação que temos da categoria de pessoa. Esse processo acontece na nossa cognição, é uma crença. O prefixo “meta” significa que consiste em pensar no que os outros pensam de nós.

Dessa forma, a metadesumanização se caracteriza por pensar que os outros nos desvalorizam e que atribuem traços animais a nós. Essa metacognição pode levar ao desenvolvimento de comportamentos hostis em direção a quem acreditamos que nos enxerga dessa forma.

Formas de entender a desumanização

A desumanização, em um nível grupal, pode ser entendida como um processo biológico que afasta os outros da sua identidade de grupo. Coloca a pessoa fora da moral socialmente aceita e ressalta a inconsistência de seus valores com os nossos. Esse processo facilita a violência contra a pessoa ou o grupo desumanizado.

Dentro da teoria da desumanização, podemos destacar os seguintes modelos: o da infra-humanização e o modelo dual de desumanização.

Segundo a infra-humanização, os indivíduos negam emoções aos membros de outros grupos, de forma que não podem ser diferenciados dos animais. Dessa forma, quem desumaniza atribui uma essência animal aos desumanizados, enquanto mantém em sua concepção uma essência humana para os membros do seu grupo.

Evidentemente, as emoções que essas pessoas negam são aquelas mais humanas, ou seja, as emoções secundárias como a vergonha e a euforia. Não há, no entanto, negação das emoções primárias, como o medo e outras que compartilhamos com os animais.

De acordo com o modelo dual de desumanização, existem dois tipos dela: a animalização e a mecanização. Por um lado, ao negar os traços exclusivamente humanos que nos distinguem dos animais, como o comportamento cognitivo, o refinamento e a civilidade, estaríamos animalizando.

Por outro, podemos negar alguns traços que são típicos da natureza humana, mas não necessariamente nos distinguem de outros animais. Estamos falando da emotividade e da afetividade. Se negamos essas características, estamos mecanizando.

Então, os grupos aos quais são negadas essas características que os fazem humanos acabam equiparados aos animais. E os grupos aos quais é negada qualquer característica animal – afinal, o ser humano também é um animal – acabam equiparados a objetos inanimados e máquinas, robôs.

Tipos de desumanização

A desumanização também pode se dar de duas formas distintas. Assim como acontece com o preconceito, podemos encontrar uma desumanização sutil e outra explícita. As formas de desumanização sutil negam alguns traços, mas não todos.

Dessa forma, a pessoa não é considerada totalmente humana, mas também não é equiparada com os animais. Por outro lado, a desumanização explícita consiste em considerar diretamente que os membros de um grupo estão mais perto de animais do que de pessoas. Essa é uma manifestação mais radical da desumanização.

Uma das diferenças entre essas duas formas de desumanização está nas suas consequências. Como é evidente, uma forma mais explícita do processo pode ter consequências mais negativas que uma forma mais sutil.

No entanto, as formas mais sutis de desumanização são mais fáceis de serem aceitas, porque são mais difíceis de identificar e eliminar.

“Demonizar as pessoas de classes sociais inferiores tem sido uma forma conveniente de justificar uma sociedade desigual ao longo dos séculos”.
-Owen Jones-

Evolução do ser humano

A metadesumanização

O que acontece quando pensamos que alguém nos desumaniza? Quando a metadesumanização ocorre, a resposta mais evidente é a própria desumanização. Isso é, se acreditamos que alguém está nos negando as características humanas, é muito provável que nossa resposta seja adotar a mesma atitude.

É como se fosse um círculo vicioso, mas esse círculo vicioso não acaba aí. Porque sentir-se desumanizado também se relaciona com a adoção de respostas e comportamentos hostis.

Podemos dizer então que sentir-se desumanizado por alguém leva mesmo a uma desumanização. Isso, por sua vez, leva ao desenvolvimento de atitudes hostis. Por atitudes hostis estamos nos referindo a agredir, apoiar medidas violentas ou não estar dispostos a compartilhar.

Por exemplo, podemos usar o caso dos imigrantes para dizer que se pensarmos que eles nos desumanizam, isso pode levar ao desenvolvimento de comportamentos hostis. Pensar que eles nos desumanizam vai fazer com que apoiemos leis que impeçam sua entrada em nosso país e apoiar medidas como a tortura e a vingança.

Definitivamente, quando alguém nos nega nossa humanidade, também vamos negar a sua. Só que isso vai gerar um círculo vicioso cujo resultado vai incluir comportamentos agressivos em direção ao outro, enquanto o outro também terá comportamentos agressivos direcionados a nós.

Esse é o grande perigo da metadesumanização: uma hostilidade mútua que é difícil de ser quebrada.