Mulheres na Índia: a revolução da menstruação

· maio 4, 2019
Há uma revolução silenciosa acontecendo na Índia, onde mulheres das áreas rurais encontraram um modo de romper com os estereótipos e os estigmas que o enraizado tabu da menstruação feminina impõe para a cultura.

Hoje queremos falar sobre um documentário incrível que estreou no Netflix recentemente. ‘Absorvendo o Tabu’ fala dos costumes, dos estereótipos, dos estigmas e dos tabus que ainda hoje rodeiam a vida das mulheres na Índia.

Dessa vez a questão gira ao redor de um tabu contra o qual muitas pessoas e movimentos estão lutando. Estamos falando da menstruação feminina. Algo que no Ocidente é visto de forma absolutamente normal acaba sendo uma das principais barreiras para as mulheres na Índia, de tal forma que parece inconcebível para nós.

Algo tão básico quanto a natureza feminina foi ocultado e demonizado durante séculos. A boa notícia é que um grupo de mulheres na Índia encontrou uma forma de estar no mundo e avançar no que diz respeito ao pensamento sobre algo tão intrinsecamente feminino quanto a menstruação. Vejamos a seguir.

A luta silenciosa das mulheres na Índia

O documentário foi gravado em uma área rural de Hapur, na Índia, próximo a Delhi. Sem dúvida a revolução da mulher na Índia já está acontecendo, mas nas zonas rurais ainda persistem ideias ultrapassadas baseadas em tradições que tornam as mulheres escravas de um passado cruel. Esse contexto continua condenando mulheres à violência doméstica, a casamentos infantis forçados, ao abandono dos estudos e ao papel de mãe sem qualquer outra oportunidade.

Pouco tempo atrás, porém, as mulheres de uma pequena comunidade em Hapur começaram uma revolução silenciosa contra o estigma mais profundamente enraizado em sua cultura. A menstruação na cultura indiana é um tabu tanto para homens quanto para mulheres. E agora as próprias mulheres resolveram estabelecer novas bases para um despertar.

Os absorventes higiênicos são elementos recentemente incorporados ao mercado indiano. Ainda assim, só é possível encontrá-los nos comércios das grandes cidades. Isso torna os absorventes higiênicos praticamente inacessíveis para a maioria das mulheres, também por seu preço elevado. Agora, o projeto Pad converteu uma antiga casa abandonada em Hapur em uma fábrica onde um grande grupo de mulheres de todas as idades fabricam seus próprios absorventes, que também são vendidos em todos os comércios.

Criaram, dessa forma, uma maneira de solucionar um problema que em muitos casos era até mesmo um obstáculo para alcançar as metas pessoais. Essas mulheres construíram uma cooperativa com a qual podem obter retorno financeiro pelo seu trabalho, para muitas delas pela primeira vez na vida.

A menstruação e o abandono dos estudos

O primeiro e provavelmente mais grave problema que o estigma da menstruação para as mulheres na Índia supõe é que ainda existe um costume de abandonar os estudos com a aparição da primeira menstruação.

Esta, na realidade, é uma tradição antiga que marca o ponto em que as mulheres começam seu período de fertilidade. Por isso, elas devem abandonar todo o resto para se dedicar ao casamento aos filhos. Na Índia, estar menstruada ainda é considerado um motivo de vergonha e desgraça, que impede a entrada das mulheres nos templos de oração por seu “estado impuro”. Isso acontece até mesmo nos templos que consagram divindades femininas. É esse o nível do absurdo do estigma.

Apesar de muitas mulheres na Índia já terem começado a encontrar na sua educação uma forma de lutar contra os casamentos forçados e prematuros, muitas outras são forçadas a abandonar a escola por causa do início da menstruação. Elas não dispõem de lugares adequados para se trocar e todas utilizam pedaços de panos que são enterrados depois de serem usados, algo que não podem fazer no colégio de maneira confortável e segura.

Mulheres indianas

O projeto Pad e as mulheres na Índia

Foi na cidade de Los Angeles que o projeto Pad tomou forma pela primeira vez. Essa organização sem fins lucrativos arrecadou os fundos necessários para a primeira máquina de fabricação de absorventes 99% biodegradáveis que as mulheres da cooperativa de Hapur colocaram em funcionamento.

O empoderamento que esse fato gerou para essas mulheres foi devido não apenas ao novo modo de olhar para a menstruação, mas também devido à nova possibilidade de ganhos financeiros para elas e para suas famílias. Os efeitos secundários também foram notáveis: ganharam o respeito dos homens da comunidade e puderam custear os estudos das meninas mais jovens.

Sua marca de absorventes tem o nome de Fly (voar, em inglês). Um nome que escolheram devido ao seu simbolismo, porque o propósito final de seu projeto e seu trabalho era – e é – permitir que as mulheres indianas, por fim, abram suas próprias asas para voar.

Superando a ignorância

O estigma da menstruação na Índia tem muito de ignorância e desconhecimento. O documentário mostra jovens de Hapur que não sabem o que é a menstruação. Alguns pensam que é uma doença que ataca mais as mulheres do que os homens.

Para muitos dos homens da zona rural, esse projeto envolveu também o poder de desfazer a ignorância deles mesmos sobre a natureza feminina, e foi capaz de aproximar os dois mundos: o feminino e o masculino. As mulheres do projeto Pad esperam poder eliminar por completo o estigma que rodeia a menstruação feminina ao longo do tempo.

É incrível como um projeto tão simples, tão acessível, está sendo capaz de dar luz a um assunto e gerar uma revolução pacífica e cheia de esperança, lutando contra a ignorância e os estereótipos sustentados durante séculos.