Mulheres NoMo, muito além da maternidade

20 Março, 2021
As mulheres NoMo desejam que sua decisão de não ter filhos seja respeitada, pois sentem que, às vezes, a sociedade sugere que elas precisam ser mães pelo simples fato de serem mulheres.

Ao longo da história e em vários contextos, a maternidade compulsória foi “imposta” às mulheres. No entanto, com o passar do tempo, esse conceito mudou em algumas culturas. Agora, cada vez mais pessoas acreditam que essa associação não deve ser feita. Existem até grupos de mulheres NoMo, aquelas que decidiram não ter filhos.

São pessoas que reivindicam a sua decisão de não serem mães simplesmente porque não querem ser. Além disso, elas acreditam que fazer essa escolha não as torna menos mulheres, ou pessoas incompletas.

O termo vem do inglês Not Mothers. Ele começou a se popularizar graças à luta de muitas mulheres para que a sociedade visse a maternidade como uma opção, e não como um mandato. Ao longo deste artigo, falaremos mais sobre esse novo movimento.

Origens do movimento

Sempre existiram mulheres que não querem ou decidem não ter filhos. Só que agora é mais fácil expressar essa opção, graças aos espaços que as mulheres conquistaram em que antes não atuavam, e aos grupos que reivindicam os seus direitos.

Então, é um fenômeno com visibilidade diferenciada dependendo da cultura. Mas, como ele se popularizou? Graças às associações que atuam como garantias da liberdade e do direito da mulher de não ser mãe.

Mulher jovem trabalhando

Uma dessas associações é a Gateway Woman, que por meio de um blog, uma comunidade virtual, livros, encontros e outros recursos, convida as mulheres a separarem os conceitos de mulher e maternidade.

A sua fundadora, Jody Day, contribuiu muito para tornar visível este movimento, graças, entre outras coisas, ao seu livro Living the life unexpected, em que expressa reflexões sobre a não maternidade, incluindo algumas experiências pessoais de quando percebeu que a vida que tinham lhe mostrado e para a qual ela foi preparada desde criança não existia.

Posteriormente, graças a esses movimentos, foi-se dando cada vez mais visibilidade ao fato de que a maternidade é uma questão de escolha, e o fato de não optar por ela não é algo que mostre que essas mulheres não são boas pessoas.

A sociedade e a maternidade

A sociedade sempre viu as mulheres e a maternidade como ‘uma coisa só’. Embora atualmente existam movimentos que garantem o direito da mulher de escolher se quer ser mãe ou não, ainda existem sociedades em que a maternidade é imposta de alguma forma.

Isso fica evidenciado em frases como:

  • O seu relógio biológico não está chamando?
  • Está ficando tarde para ter filhos.
  • Não ter filhos é uma questão de egoísmo.
  • Você diz isso agora porque é muito jovem.
  • O que acontecerá quando você for mais velha e não tiver ninguém para cuidar de você?
  • O que dará sentido à sua vida?

Portanto, a pressão social é fortemente sentida por meio desses e de outros comentários. Mas, na verdade, não ter filhos está longe de ser uma situação dramática. É apenas uma decisão consciente e alinhada com os desejos da pessoa.

No entanto, são muitas as mulheres que, mesmo que assim desejem, continuam a se sentir pressionadas pelo seu meio social e não sabem como agir nesta situação. Para isso, existem vários grupos de apoio ou a opção de ir ao psicoterapeuta, importante para desatar esse nó que elas não sabem como soltar.

Mulher preocupada

Como são as mulheres NoMo?

As mulheres NoMo não deixam de ser mulheres só porque não têm filhos, nem se tornam incompletas, egoístas ou pessoas que não cumpriram o seu dever. Elas simplesmente decidiram não ter filhos. O que caracteriza esse tipo de mulher é:

  • A sua realização não se baseia em ter filhos.
  • Consideram que podem ter sucesso sem a necessidade de ter filhos.
  • Não acreditam que as crianças sejam um seguro para a velhice. Elas veem outras alternativas.
  • Acreditam que a maternidade é uma decisão pessoal.
  • Sabem que não devem cumprir o que se espera delas para se sentirem realizadas.
  • Não adiariam os seus objetivos ou projetos para serem mães.

Para as mulheres NoMo, não ter filhos não significa não ser maternal; elas podem ser maternais com bichinhos, sobrinhos, parentes, etc. Além disso, os motivos pelos quais se assumem assim devem ser respeitados.

Existem várias pesquisas sobre o tema. Sharon K. Houseknecht, professora do departamento de Sociologia da Universidade Estadual de Ohio, faz uma revisão da literatura sobre os estudos a respeito de não ter filhos de forma voluntária em seu artigo Voluntary Childlessness.

Neste artigo, Houseknecht explora questões como as tendências e a incidência do fenômeno, os motivos para não ter filhos, quais fatores estão envolvidos na decisão de não ter filhos, qual é o papel da sociedade nessa questão e quais são as diferenças entre não querer ter filhos e não poder ter filhos.

Conclusão

Assim como qualquer outra decisão, esta diz respeito a cada pessoa e a quem ela considera. É por isso que as mulheres NoMo não compreendem por que se espera que sejam mães pelo simples fato de serem mulheres. Elas têm outros objetivos e projetos, e querem que a sua opinião seja respeitada.

  • Day, J. Rocking The Life Unexpected: 12 weeks to Your Plan B for a Meaningful and Fulfilling Future Without Children. (2016) Londres: Pan Macmillan.
  • Gateway Women, United and beyond childlessness. Recuperado de: https://gateway-women.com/
  • Houseknecht, S.K. (1987). Voluntary childlessness. En Handbook of marriage and the family. Springers, Boston, MA.