Não sou o que aconteceu comigo, sou o que decido ser

· agosto 24, 2016

Sou algo mais do que todas as minhas batalhas perdidas ou minhas horas de aflição. Nego-me a ser também parte de quem me machucou. O que meu espelho reflete no presente é a atitude diante desse passado que, longe de apagar, eu aceito e supero para ser alguém melhor, mais forte, mais digno.

Boris Cyrunlnik, célebre neurologista, psiquiatra e etólogo francês, afirma em seus trabalhos que a resiliência é como uma camisa de lã que fomos tecendo sem saber ao longo de todo o nosso passado. Cada fio que a forma e a define é uma emoção, um pensamento, uma conduta positiva e valente que nos permitiu ser o que desejamos de verdade e merecemos: pessoas mais fortes.

Estudos como a psicologia da Gestalt também contribuem com estratégias interessantes sobre o tema. Para os gestaltistas, a única experiência que importa é a de viver o “aqui e o agora”, estando cientes de nós mesmos. Pois bem, então… “onde fica o nosso passado?”

O passado existe e é importante porque pode determinar tanto a realidade quanto a qualidade do nosso presente. Por isso, devemos atuar com responsabilidade administrando esses conflitos que, de alguma maneira, hoje nublam nosso equilíbrio.

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Quero ser mais do que tudo aquilo que passei

Você não é aquela voz que, quando criança, o acusava constantemente de ser repulsivo e fazer tudo errado. Hoje você é sua atitude diante dessa lembrança, desse passado. Você é a pessoa que demonstrou a si mesma, “você é inteligente e faz as coisas realmente bem”.

Entre a vivência traumática de ontem e a reação do presente, abre-se todo um caminho de uma luta pessoal delicada e profunda. Trata-se simplesmente de “costurar” a cada dia nossos pedaços quebrados e nossas feridas graças ao fio da autoestima, os botões da esperança e estas vertentes de resiliência que foram definidas pelo Dr. Cyrulnik .

O artesanato de curar corações fragmentados e almas cheias de pesares não se soluciona de um dia para o outro. O tempo, ao contrário do que se costuma dizer, não apaga, nem edita a dor de ontem. Na verdade, nos transforma. A pessoa que administrou de forma adequada essa vivência complicada avançará em direção ao horizonte pessoal de forma mais madura, mais valente e renovada.

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Em compensação, quem se apega ao seu passado de uma maneira cega e obsessiva perde seu futuro. Quem se empenha em mergulhar novamente nas suas cavernas obscuras, nas vozes que gritaram ou nos rostos que o machucaram, cairá numa complexa agonia psíquica. Em um labirinto pessoal muito doloroso. Oferecemos a seguir estratégias adequadas para que você consiga evitar isso.

A arte de navegar entre as correntezas

Se imaginamos a vida como uma viagem por um rio entenderemos que, em algum instante, podem aparecer correntezas intensas onde a força da água pode nos machucar ou até nos afundar. A arte de navegar por essas águas, por vezes calmas e em outros momentos cheias de imprevistos, requer acima de tudo ser um hábil estrategista emocional.

É preciso estar consciente de que diante da adversidade, nossos cérebros vão reagir de forma primária e com mecanismos de defesa bem específicos. Um exemplo disso é o estresse e a resposta cognitiva baseada no medo,  na insegurança e nessa tendência de antecipar o futuro de uma forma muito negativa. Se por acaso não administrarmos essas situações, nos converteremos numa folha frágil levada de forma caótica pela correnteza do rio e pelo vento.

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A arte do bom navegante requer saber manter o equilíbrio. A aflição, o pensamento negativo, os medos ou o ressentimento são como pedras no coração que irão fazer com que, irremediavelmente, afundemos em nossos rios vitais. Não permita que isso aconteça.

  • A Gestalt lembra que é preciso estar ciente desses acontecimentos passados que nos atrapalham neste exato momento. É necessário desconstruí-los, colocá-los sob a luz dos nossos microscópios para entender como eles estão afetando nosso aqui e nosso agora.
  • Uma vez que estivermos conscientes de como eles nos modificam, como nos distanciam do que realmente gostaríamos de ser no presente, é chegada a hora de enfrentá-los.
  • Lembre-se de que você não é os seus erros de ontem. Você não é quem lhe negou seu amor. Também não é quem o menosprezou ou quem o deixou por outra pessoa. Olhe-se agora no espelho e lembre-se de quem você gostaria de ser de verdade.
  • Todos nós somos nossa atitude perante a vida e não um simples resultado de tudo o que nos aconteceu. A mente interpreta, avalia e enfrenta cada ato vivido com a autoestima, a resiliência e a esperança.

Coloque tudo isso em prática; não se limite apenas a “se deixar levar” através dos canais do rio. Batalhe cada dia por aquilo que você deseja e lembre-se de que às vezes é melhor esquecer o que você sente e lembrar o que você merece de verdade.