Negligência parental, uma forma de abuso infantil

A negligência é uma forma de abuso infantil que deixa sequelas tanto físicas quanto psicológicas nas crianças, as quais podem perdurar até a idade adulta.
Negligência parental, uma forma de abuso infantil

Última atualização: 26 março, 2022

Embora a maioria dos pais se responsabilize adequadamente pelos cuidados, pela educação e pela proteção de seus filhos, também é fato que existem pais que não possuem habilidades suficientes para cuidar deles de maneira ideal. Ou então que, por outros motivos, não cuidam bem deles ou até mesmo os maltratam. Isso é o que se conhece como negligência parental.

A negligência parental é o oposto do cuidado integral da criança. Assim, implica não atender às suas necessidades e, em casos mais graves, maltratá-la. Por isso estamos falando, na verdade, sobre uma forma de abuso infantil exercida pelos pais, tutores ou cuidadores em relação às criança.

Esse abuso ou falta de cuidado persiste ao longo do tempo e tem um impacto inegável no bem-estar e no desenvolvimento da criança, que precisa ser amada, protegida e cuidada. O que mais seria interessante sabermos sobre esse tipo de abuso? Quais são as suas causas e consequências? Quais são os tipos de negligência que existem?

A negligência parental

A negligência parental, também chamada de negligência infantil, é uma forma de abuso exercida por parte dos pais (ou tutores) sobre os filhos. Essa forma de abuso se manifesta de diferentes formas: falta de atendimento às necessidades básicas, cuidado inadequado, abuso ou maltrato físico ou psicológico, etc.

Os pais que exercem a negligência parental em relação aos filhos são incapazes de detectar as necessidades e os cuidados de que os filhos necessitam para crescer de forma saudável, tanto fisicamente quanto mentalmente. Além disso, eles também podem considerar as suas próprias necessidades (como pais) mais importantes do que as de seus filhos. Mas quais são as causas dessa negligência?

Criança triste devido à negligência dos pais
Pais negligentes são incapazes de detectar as necessidades de seus filhos.

Causas da negligência parental

São muitas as causas da negligência parental. Porém, entre as mais comuns, encontramos:

Falta de recursos

A falta de recursos dos pais, tanto financeiros quanto emocionais, pode ser uma das causas da negligência parental. Assim, essa falta de recursos prejudicaria a sua capacidade para atender às necessidades e ao cuidado de seus filhos.

Existência de transtornos mentais sem tratamento

Os pais afetados por transtornos mentais, sobretudo aqueles que não recebem tratamento psicológico ou farmacológico, também estão na base de muitas situações de negligência parental.

Afinal, para educar e cuidar de uma criança adequadamente, é essencial que a própria saúde mental esteja preservada. Por outro lado, também cabe notar que falar de problemas ou dificuldades de saúde mental não é o mesmo que falar de transtornos mentais (mais graves).

Atitudes parentais inadequadas ou estilos parentais tóxicos

Os estilos parentais também influenciam para o aparecimento de uma situação de negligência parental, da mesma forma que as atitudes parentais. Por um lado, existem estilos parentais que podem ser muito negativos para as crianças, tais como rigidez excessiva, autoritarismo ou, em casos extremos, punição e maus-tratos.

As atitudes dos pais (aquelas que nos permitem educar de forma saudável) também são importantes nestes casos; portanto, se estas forem nulas ou deficitárias, é mais provável que ocorra uma situação de negligência parental.

Ausência de habilidades parentais

Um conceito semelhante ao anterior é o das competências parentais. Em um artigo de López, Martín, Cabrera e Máiquez (2009), estas são definidas como “o conjunto de capacidades que permitem que os pais enfrentem, de forma flexível e adaptativa, a tarefa vital de ser pais, de acordo com as necessidades evolutivas e educativas dos filhos”.

Mas se essas habilidades estão ausentes, nunca foram aprendidas ou são deficitárias, então pode surgir um caso de negligência parental. Por sua vez, as causas dessa falta de competência também podem ser variadas:
  • Histórico familiar, pessoal e social (dos pais) de abuso, abandono ou exclusão social.
  • Perdas ou rupturas importantes durante a infância dos pais e mães dessas crianças.
  • Proteção inadequada ou inexistente para esses pais, durante a sua infância.

Tipos de negligência parental

Em linhas gerais, podemos falar de três tipos de negligência parental :

  • Negligência física: comportamentos que dificultam o desenvolvimento físico adequado da criança (por exemplo, oferecer uma má alimentação).
  • Negligência psicológica: não estimular as habilidades cognitivas e emocionais da criança de forma adequada; ignorá-la, menosprezá-la, etc.
  • Negligência educacional: não fornecer uma educação formal para a criança (impedindo que vá para a escola).
menino triste
A negligência dos pais deixa uma marca emocional nas crianças que pode se estender até a vida adulta.

Consequências emocionais do abuso

A negligência parental tem um impacto negativo no bem-estar emocional da criança, que um dia também crescerá e envelhecerá. Por isso é tão importante detectar estas de situações parentais inadequadas e, acima de tudo, preveni-las. Ainda nesta linha, no que diz respeito às consequências, a Sociedade Espanhola de Psiquiatria (SEPSIQ) avaliou os efeitos emocionais mais frequentes da negligência parental.

De acordo com os especialistas, a parte emocional é crucial e, muitas vezes, as crianças que sofrem com esse tipo de situação crescem com a crença de que seus pais não as amavam. Adicionalmente, muitas também sentem culpa.

Além disso, essa situação também pode gerar traumas infantis com efeitos a curto e longo prazo durante a vida, bem como problemas de autoestima, dificuldades para estabelecer vínculos de forma saudável, etc.

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