Nem tudo que vem convém - A Mente é Maravilhosa

Nem tudo que vem convém

abril 8, 2017 em Psicologia 1 Compartilhados
Nem tudo que vem, convém

Nem tudo que nos envolve é significativo, nem tudo que vem convém. Aplicar no dia a dia filtros emocionais e psicológicos adequados evitará que cheguem até nós certas toxicidades. Espantará os lobos camuflados de sedutoras ovelhas e os vírus capazes de desenvolver em nós cargas excessivas, estresse e experiências amargas.

Todas estas dimensões são importantes e não são igualmente conhecidas. Contudo, e para entender um pouco melhor o que implica não aplicar no dia a dia esses “guarda-chuvas psicológicos”, comecemos falando do cansaço. O desgaste mais comum tem sua origem, como já sabemos, em um esforço físico. Contudo, e por mais curioso que pareça, existe outro tipo mais comum na população e que costuma ser mais crônico.

“As decepções às vezes matam, mas são as esperanças que nos permitem sobreviver.”
-George Sand-

Falamos do cansaço de origem emocional capaz de criar em nós um quadro psicossomático, onde não falta a dor no pescoço, nas costas, as cefaleias, problemas digestivos… Muitos o chamam simplesmente de “estar esgotado” (burnout). Arrastar este esgotamento emocional, que supera o físico até nos tornar cativos, muitas vezes nos leva a uma depressão encoberta que nem sempre é fácil de diagnosticar.

A origem desse tipo de realidade tão concreta se encontra em sermos abertamente permeáveis a tudo que nos chega, a tudo que nos envolve. O fato de não colocarmos barreiras, limites, e nos posicionarmos por trás de um escudo diante daquilo que nos desagrada, nos prejudica e nos estressa, fará com que acabemos derrotados por dentro, vencidos pela apatia, o desânimo e a frustração.

Precisamos aprender a encarar a realidade de outra forma: nos protegendo.

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A permeabilidade: um problema muito comum

A permeabilidade aplicada ao comportamento do ser humano tem uma finalidade muito real e até necessária: precisamos nos abrir a tudo que nos envolve para aprender, para incorporar novos esquemas de conhecimento e sobreviver. Filtrar no nosso ser o que outros nos trazem ou nos acrescentam nos permite crescer e isso, sem dúvida, é algo maravilhoso.

O que vem para nós, às vezes, é exatamente o que precisamos. Todos já passamos por isso em algum momento. Por isso, quem mantém um esquema de pensamento rígido e uma mente fechada não avança, não aproveita essas novas oportunidades para ser feliz. Então, na maior parte do tempo precisamos lidar com um cérebro programado para ser receptivo, poroso como uma esponja que procura absorver tudo que nos rodeia.

Contudo, e aqui vem o problema, o que o cérebro faz de forma instintiva não se adequa ao que nosso equilíbrio psicológico precisa. Ser receptivo nem sempre nos leva ao desenvolvimento pessoal, mas justamente o contrário, nos conduz a uma involução emocional. De fato, e com relação a isso, é muito interessante lembrar do que Albert Ellis, dentro do seu enfoque da terapia racional emotiva comportamental, denominou de “a tríade da infelicidade”.

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Segundo Ellis, as pessoas aplicam no dia a dia três tipos de expectativas irracionais que nos levariam, invariavelmente, a aquela clássica infelicidade onde também está o esgotamento emocional citado anteriormente.

Então, junto ao pensamento irracional de que “precisamos fazer tudo direito” ou de que “os outros sempre irão me tratar como eu quero”, está também o terceiro sobre o qual deveríamos reagir, a saber, “não tenho necessidade de enfrentar o que me incomoda ou me preocupa“. Quando somos permeáveis também deixamos de enfrentar o que não gostamos. Nos diluímos como a água e o sal, uma mistura nada agradável que engolimos todos os dias. Não é a melhor opção.

Se o que vem não convém, proteja-se

Até onde você está disposto a ceder sem renunciar ao que você é? Até que ponto você vai deixar que outros o arrastem para os seus universos pessoais? Nem tudo que vem convém, nem tudo que chega tem por que ser incorporado na sua vida.

“Tudo tem limites, apenas a nossa própria ingenuidade é ilimitada.”
-Rabindranath Tagore-

É fundamental aprendermos a colocar limites pessoais adequados. Para aprender o que supõe e implica esta estratégia tão básica do nosso próprio crescimento pessoal, visualizemos por um momento um círculo luminoso e cálido que nos envolve. Esse espaço no qual ficamos contidos é uma área que nos protege do mundo exterior e que, por sua vez, permite nos conectarmos com os outros sem a necessidade de nos fundirmos.

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Por sua vez, esse círculo mágico tem uma propriedade fabulosa: é flexível. Permite que nos relacionemos sem perdermos nossa própria identidade, e se estende, por sua vez, quando percebemos alguma coisa ou alguém que pode nos ajudar a crescer sem nos machucar.

No entanto, este círculo é sábio e implacável. Quando quiserem nos prejudicar ele irá se contrair imediatamente, porque essa barreira defensiva está intimamente ligada a nossos próprios valores, nossa autoestima e identidade. Se o que vem causa dano, o deixa de fora, e pronto. Estes limites pessoais costumam se desenvolver em nossos primeiros anos de infância e adolescência; contudo, é comum que em certos momentos das nossas vidas eles tenham ficado prejudicados, abertos forçosamente por uma permeabilidade excessiva.

Não tem problema, não é o fim. Sempre estamos a tempo de remediá-lo, de cauterizar suas partes quebradas para criar outro círculo perfeito, forte e poderoso. Um círculo que tenha a flexibilidade adequada para saber o que nos convém e o que é melhor deixar no vestíbulo dos convidados indesejados, na antessala dos falsos amigos, dos falsos sonhos e das falsas esperanças.

Nem tudo que vem convém. Lembre-se disso.

Imagem principal cortesia de Nicoletta Ceccolli.

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