Neuropsicologia da distimia: a anatomia da tristeza crônica

· julho 25, 2018

O transtorno depressivo persistente nem sempre responde a um tratamento farmacológico. A apatia crônica, a desesperança e o mau humor têm uma origem muito mais complexa do que costumamos imaginar. Desse modo, a neuropsicologia da distimia nos lembra de que essa condição se relaciona com uma série de processos cerebrais e situações sociais que devemos levar em consideração.

Quando revisamos a incidência da distimia na população, há um detalhe que não podemos deixar de lado. Os estudos clínicos dizem que esse transtorno afeta aproximadamente 5% da população, em especial as mulheres, Agora, se há algo que os especialistas sabem bem é que há muitas pessoas que vivem toda sua vida com esse quadro psicopatológico sem saber e sem pedir ajuda. Essa indefinição e abatimento crônico se dão de tal forma que é muito provável que os dados de incidência sejam ainda maiores do que pensamos hoje.

A distimia ou, de acordo com a nomenclatura mais recente, o transtorno depressivo persistente, se caracteriza por desânimo, cansaço e tristeza recorrente. São estados que podem se arrastar durante anos.

Por outro lado, cabe destacar que desde o último volume do Manual Diagnóstico e Estatístico dos Transtornos Mentais (DSM-V), o termo mudou de distimia para transtorno depressivo persistente. Essa mudança não mudou o interesse dos cientistas pelo tema. O propósito da comunidade médica e científica é poder delimitar e compreender muito melhor essa condição. Estamos diante de uma doença muito mais leve que a depressão maior. Mesmo assim, e dada a grande dificuldade na hora de tratar essa condição, é comum que muitos pacientes acabem desenvolvendo outros transtornos ou condições mentais em algum momento.

Homem com distimia

Neuropsicologia da distimia, ou transtorno depressivo persistente

Foi o psiquiatra Robert Spitzer quem, nos anos 60, cunhou, definiu e dissecou essa condição clínica diferenciando-a de outros termos médicos que não a definiam perfeitamente. Até o momento em que esse célebre especialista se empenhou para melhorar e polir a classificação das doenças mentais, a distimia era mais relacionada a um tipo de personalidade específico. Definia aquelas pessoas que possuem um modo de vida mais depressivo, neurótico e com um ânimo fraco.

Desde os anos 60 até os dias de hoje, o transtorno depressivo persistente segue sendo redefinido e melhor definido para que possamos chegar à raiz do problema. O que se sabe hoje é que, para a pessoa receber esse diagnóstico, ela deve se encaixar nas seguintes características classificatórias:

  • Humor deprimido com uma duração mínima de 2 anos.
  • Presença de ao menos duas das seguintes características:
    • Perda ou aumento do apetite
    • Insônia ou hipersonia
    • Falta de energia ou fadiga
    • Baixa autoestima
    • Déficit de concentração ou dificuldade para tomar decisões
    • Sentimentos de desesperança
  • Mal-estar e sofrimento contínuos
  • Não há episódios psicóticos, maníacos, nem outras doenças orgânicas ou suspeita de uma depressão maior.
O impacto da distimia no cérebro

Qual é o efeito da distimia no cérebro?

Quando uma pessoa recebe o diagnóstico, o que ela sente muitas vezes é um grande alívio. Isso acontece por uma razão muito evidente. Há quem arraste essa sombra consigo desde a adolescência. Um vazio que faz parte da vida e entra de forma constante por uma porta entreaberta para derrubar a pessoa com um cheiro persistente de tristeza que envolve tudo a sua volta.

A neuropsicologia da distimia diz que essa condição tem uma origem. Acredita-se que o estresse e o incremento que ele gera de catecolaminas e hormônios como o cortisol afetam nossa capacidade de regular o humor.

  • As pesquisas clínicas, e sobretudo o avanço das tecnologias de imagens cerebrais, como a ressonância magnética, nos deram a oportunidade de descobrir dados muito relevantes. Um deles é a presença de uma baixa atividade em todas as áreas cerebrais relacionadas com a resolução de problemas, a regulação do sono e o apetite, e inclusive com a nossa sociabilidade.
  • A maioria desses processos citados se concentram em uma área muito especial. Estamos falando do córtex cingulado anterior, encarregado do controle executivo e emocional, a mesma área que fica em evidência, como dissemos, com uma baixa atividade em todos os pacientes com o transtorno depressivo recorrente.
Cérebro humano

O córtex cingulado e os neurônios de Von Economo

  • O córtex cingulado anterior é parte de uma rede encarregada de gerar múltiplos processos. Ele nos ajuda a processar a informação, tanto a sensorial quanto a emocional. Ajuda também a manter a atenção enquanto nos movemos ou interagimos com os demais. É essa área que facilita que mantenhamos o interesse no nosso ambiente e que atua como ponte entre a emoção e a atenção.
  • Além disso, nessa área cerebral também temos os chamados neurônios de Van Economo. Todos já ouvimos falar dos neurônios-espelho, mas esse outro tipo de neurônio também merece a nossa atenção por uma razão muito simples. Essas células nervosas se conectam com outras para facilitar e processar a informação relativa à dor, à fome, e o que é mais importante, são elas que estimulam a geração das emoções sociais como a confiança, o amor, o ressentimento…
  • Os neurônios de Van Economo estão presentes também nos macacos, golfinhos, baleias e elefantes. Animais que, assim como nós, também se deprimem, também mostram o chamado sofrimento social. Ou seja, fatores como a solidão, a rejeição ou a perda de uma posição em uma hierarquia de grupo podem gerar tristeza e dor emocional.
Mulher aflita

Como conclusão, estamos em busca de respostas

Chegamos até aqui sabendo o que a neuropsicologia nos revela sobre a distimia. A pergunta agora é a seguinte: o que faz com que essas áreas relacionadas com esse transtorno deixem de funcionar conforme deveriam? Além disso, o que podemos fazer para que voltem ao normal? Em vista do fato desses estados se prolongarem no tempo e de que nem sempre reagem a um tratamento medicamentoso, é necessário seguir aprofundando o conhecimento nessas questões.

Já se sabe, por exemplo, que há um componente hereditário e genético. A partir disso, a sensação de isolamento ou de ter sofrido uma perda ou o simples fato de não nos sentirmos úteis em um dado momento gera esses estados crônicos de sofrimento. A neuropsicologia da distimia diz que muitos pacientes melhoram quando iniciam novos projetos de vida. O simples fato de fazer alguma mudança na vida e de nos sentirmos envolvidos com algo ou alguém já gera muitos avanços positivos, e isso traz bastante esperança.

Não vamos nos render. À medida que formos conhecendo mais sobre esses transtornos, estaremos cada vez mais aptos a dar melhores respostas. Até o momento ficaremos com isso: a distimia é tratável e, com uma boa intervenção a partir de um enfoque psicoterapêutico, podemos superá-la.