Novos vícios: classificação e intervenção

setembro 2, 2019
O mundo muda, e com ele também mudam os fenômenos que desencadeiam patologias. Neste artigo, vamos falar sobre os novos vícios, seguindo a classificação elaborada por Vicente Caballo.

Os vícios estão entre os maiores problemas psicológicos, além de serem os mais difíceis de tratar. A sensação de desconforto causada pela síndrome de abstinência é tão intensa que é muito complicado para o paciente não sucumbir. Além dos vícios clássicos que todos conhecemos, atualmente surgiram novos tipos de vícios.

As drogas têm o poder de proporcionar ao nosso cérebro uma gratificação extremamente agradável curto prazo. E não é apenas isso. Também são capazes de aliviar sensações negativas.

Por exemplo, podemos ir em busca dessa fonte de satisfação quando nos sentimos tristes por alguma notícia. Ou também se estivermos aborrecidos, vazios ou com muita raiva.

Por um processo de reforço negativo, a droga alivia essa sensação que não somos capazes de tolerar. É nesse momento que surge a dependência.

Cada vez mais pessoas resistem a tolerar a sensação de incômodo provocada pelo desejo intenso de conseguir alguma coisa, seja informações sobre seus contatos nas redes sociais, a fome ou a necessidade de ser produtivo, para citar alguns exemplos.

Os novos vícios ainda não estão previstos como tal nas classificações diagnósticas. Mas é muito possível que acabem sendo incluídos em um futuro próximo. De fato, apresentam quase as mesmas características clínicas que os vícios em substâncias: perda de controle sobre o comportamento, dependência psicológica, tolerância e abstinência.

Vício em celular

Alguns tipos de novos vícios

A seguir, vamos elencar alguns tipos de novos vícios propostos pelo autor Vicente Caballo. É possível que você sinta uma identificação com alguns deles, visto que fazem parte do nosso dia a dia e, além disso, seu caráter legal faz com que estejam completamente normalizados.

No entanto, é importante perceber a presença desses vícios para procurar métodos para combatê-los. Se não fizermos isso a tempo, eles tendem a se tornar crônicos e colocar em risco nossas relações sociais e familiares, ou provocar interferências no âmbito acadêmico ou profissional.

Vício em Internet

Podemos observar que um paciente é viciado em internet quando faz um uso menor dessa ferramenta como meio para obter informações e mais como um recurso de escape psicológico da vida cotidiana.

A pessoa gasta um tempo excessivo nessa atividade, oscilando entre quatro e oitenta horas por semana, com sessões que podem chegar a vinte horas.

Ela tende a usar estimulantes como o café para prolongar as sessões de conexão, oculta seu comportamento viciante e sente uma necessidade excessiva quando fica sem acesso. Algumas pessoas podem apresentar consequências de saúde, como a síndrome do túnel do carpo.

Dentro dessa categoria, podemos distinguir o vício em sexo virtual ou em salas de bate-papo, e aplicativos de mensagem instantânea que incluem um contexto de intimidade e fomentam a aceitação por um grupo.

Vício em celular

O celular gera recompensas contínuas devido à sua função comunicativa. Permite chamar a atenção em um meio em potencial e, assim, ganhar aceitação. Tudo isso em tempo real e com absoluto imediatismo. Por isso seu poder viciante é tão forte.

Combater o vício em celular é muito complicado, já que hoje em dia este é um elemento tão cotidiano que se transformou em uma verdadeira necessidade.

Vício em comida

Também é chamado de “comportamento alimentar hiperfágico”, é caracterizado pela ingestão voraz, por comer grandes quantidades de alimento sem sentir fome física, continuar comendo até sentir uma sensação desagradável e, além disso, sentir culpa e desolação após o consumo exagerado.

Costuma ser uma consequência de estados ansiosos ou estressantes que se mantêm por muito tempo, assim como de estados depressivos. Por isso, os alimentos preferidos costumam ser os carboidratos de metabolização rápida (como os doces) que estimulam a atividade serotoninérgica.

Vício em doces

Vício em trabalho

A pessoa tem pensamentos recorrentes sobre a necessidade de ser produtiva. Isso gera um grande impulso de trabalhar de forma constante. A pessoa se sente irritada em períodos de férias e, além disso, apresenta distorções cognitivas sobre as exigências profissionais.

“Se eu não for à reunião e não terminar os relatórios para amanhã, serei um fracassado”. A baixa autoestima e os esquemas de perfeccionismo estão muito relacionados a esse tipo de vício.

Outros novos vícios que poderíamos considerar incluem o vício em sexo, o vício em fazer compras e o vício em praticar exercício físico.

Tratamento dos novos vícios

Como os vícios comportamentais compartilham aspectos comuns com os vícios químicos em relação ao início e à continuidade, os programas de intervenção propostos são similares.

Para os vícios comportamentais, o programa proposto por Echeburúa, Corral e Amor (2005) é o mais detalhado.

Sua principal finalidade não é conseguir chegar à abstinência total, como ocorre nos vícios químicos, mas desenvolver uma reaprendizagem do controle do comportamento por parte do paciente, ao tratar comportamentos que são necessários para a vida cotidiana.

O programa citado é constituído pelos seguintes elementos: motivação para a mudança, análise dos estímulos associados ao vício, controle de tais estímulos, exposição e aprendizagem de estratégias de solução perante problemas específicos e prevenção de recaídas.

Por outro lado, para o problema dos vícios tecnológicos, existem algumas recomendações mais específicas.

Dentre elas, podemos citar: interromper hábitos de conexão, estabelecer metas para definir um tempo realista de conexão, utilizar ferramentas externas de alerta (alarmes), uso de avisos lembrando para se desconectar e praticar a abstinência do aplicativo específico sem abandonar o uso do recurso em si.

  • Caballo, V. (2014). Manual de psicopatología y trastornos psicológicos. Edición Pirámide. 2º edición