O Bebê de Rosemary: terror em estado puro

dezembro 29, 2019
Quando o terror parece já ter explorado tudo, quando o terror não surpreende mais e acaba entediando, é preciso analisar os clássicos. Nesse sentido, 'O Bebê de Rosemary' oferece uma visão imperecível do horror sobrenatural, cuja estrutura repousa sobre a incerteza do espectador.

O Bebê de Rosemary é, provavelmente, um dos filmes mais reconhecidos do cineasta Roman Polanski. Esse reconhecimento não vem apenas da sua alta qualidade cinematográfica, mas também dos mistérios que parecem envolvê-lo.

Rodado no edifício em que, pouco mais de uma década depois, John Lennon seria assassinado, o mesmo edifício onde viveu e morreu Boris Karloff, e apenas um ano antes do assassinato da esposa do cineasta, Sharon Tate, O Bebê de Rosemary é um filme que, ainda hoje, desperta horror e mistério.

Polanski é, atualmente, um dos cineastas mais controversos, envolto em diversos problemas legais. No entanto, seu legado cinematográfico é quase inigualável.

Um jovem casal, vizinhos extraordinariamente peculiares e uma gravidez trágica são alguns dos principais pontos do filme. Rosemary e seu marido se dedicam à habitual tarefa de buscar um lar e formar uma família.

No entanto, as ambições do marido superam as expectativas familiares, obrigando o casamento a mergulhar em um inferno menos inverossímil do que aparenta.

O Bebê de Rosemary é um longa-metragem que nos leva por um caminho entre o fantástico e o racional, um caminho cheio de armadilhas, desventuras e claustrofobia. Trata-se, sem dúvida, de uma das grandes joias do cinema de terror.

A incerteza como a chave do terror

O filme é repleto de incerteza, toma a liberdade de plantar dúvidas no espectador e fazê-lo caminhar na corda bamba. Uma corda que roça a agonia, a asfixia e até a claustrofobia, embora seja sempre rodeada por pinceladas de racionalidade.

Falando em incerteza, já no século XIX, Pedro Antonio de Alarcón, um dos grandes estudiosos de Edgar Allan Poe, se permitia dizer que o brilhante de Poe residia, precisamente, no fato de “ser racionalista e aspirar a ser fantástico”.

Uma afirmação que hoje, dois séculos depois, se encaixa perfeitamente no filme de Polanski tema desse artigo. A incerteza, a dúvida e o terror psicológico são as bases de O Bebê de Rosemary.

“Eu não quero que o espectador pense isso ou aquilo; quero simplesmente que não tenha certeza de nada. Isso é o mais interessante: a incerteza”.
-Roman Polanski-

Polanski consegue que o espectador duvide do real e do fictício. Os sonhos são apenas sonhos, ou fruto da realidade? O que acontece com Rosemary e seus vizinhos?O espectador vai se perguntar e se questionar a respeito do que está vendo na tela.

É verdade que, em meados do século XX, as religiões tinham um papel fundamental. Nesse sentido, o longa era uma verdadeira revelação, até uma blasfêmia. No entanto, em plena era racional e cética, em pleno século XXI, o espectador acaba por se perguntar o mesmo que várias décadas atrás.

Assim, O Bebê de Rosemary demonstra a imortalidade do seu discurso e manifesta um terror que, longe de ser lido sob a lupa de uma época específica, continua aterrorizando e desconcertando nos dias de hoje.

Essa dúvida ou questionamento entre o impossível e o possível, entre o real e o irreal, é a verdadeira chave do terror e do suspense no filme de Polanski.

A forma de direcionar o nosso olhar, de nos situar em um determinado ponto de vista graças ao enquadramento, e de apresentar os personagens nos momentos certos, não entende de épocas, nem de tendências, e apela diretamente ao psicológico.

Em definitiva, mexe com a nossa mente, nosso medo do desconhecido e da incerteza despertada pela dúvida.

Polanski não inventou os cultos satânicos; trata-se de algo que provém diretamente da nossa própria realidade. Polanski também não inventou o cenário, mas começa em um ponto de partida conhecido.

Como se começasse no fim de uma comédia romântica, o cineasta usa o jovem casal para destruí-lo e até ridicularizá-lo. Ele faz isso sem se esquecer do papel fundamental do público, que dará sentido a uma história de aparência fantástica, mas verossímil, e que vai acabar por duvidar de tudo que vê na tela.

Cena de filme de terror

O Bebê de Rosemary, um filme maldito

Boa parte do culto – ou admiração – que o longa envolve reside nos estranhos acontecimentos que o acompanham. Como já adiantamos, o filme foi rodado no edifício Dakota de Nova Iorque, um lugar que, na sua construção, ficava muito longe do centro da cidade.

No entanto, com o tempo e o crescimento da mesma, se transformou em um edifício desejado pela alta sociedade e diversas personalidades do mundo do cinema, da música e da cultura.

Apesar disso, parece que Polanski foi advertido e ouviu que rodar o filme naquele local era uma espécie de suicídio. Tragicamente, sua esposa foi assassinada apenas um ano depois. O próprio compositor da trilha sonora, Krzysztof Komeda, morreu pouco depois. O protagonista da história, John Cassavetes, também faleceu pouco depois.

Não se sabe ao certo se Boris Karloff havia praticado espiritismo – ou não – enquanto morava no edifício, mas poucos anos depois das filmagens do longa, John Lennon faleceu na porta do edifício Dakota, lugar onde morava.

Uma infinidade de mistérios se unem ao perfeccionismo de Polanski, um cineasta que não hesitou em colocar seus atores em situações limite. Sua protagonista, Mia Farrow, teve que comer carne crua apesar de ser vegetariana, e foi obrigada a rodar uma cena cruzando uma rua que não havia sido interditada. Por isso, os veículos que vemos freando para não atropelá-la não são coisa de cinema, e sim a própria realidade.

A jovem atriz recebeu os papéis do divórcio de Frank Sinatra enquanto rodava o filme, e enfrentou diversas inimizades no set. Assim, O Bebê de Rosemary não é maldito apenas pelos temas que trata, mas também pelos mistérios e acontecimentos incômodos que envolveram a sua produção.

Mulher falando no telefone

O verdadeiro terror

Apesar de tudo isso, não diremos que o terror reside nas anedotas e horrores associados ao filme, e sim no filme em si. Poucas vezes estivemos diante de um terror que não entende de épocas nem de modas, que independe de quanto tempo já passou, pois continua em alta.

O Bebê de Rosemary apresenta algo universal, faz uso do cinema e dos recursos estilísticos para configurar uma atmosfera claustrofóbica, aterradora e sem esperança.

O filme, na realidade, é uma adaptação do livro homônimo de Ira Levin. A proposta passou pelas mãos de Hitchcock, Jane Fonda foi cogitada para o papel de Rosemary, e houve muitas mudanças até chegarmos ao resultado oferecido por Polanski.

Um resultado estremecedor, belo, e que desperta todo o imaginário cinematográfico, mas que ganhou apenas um Oscar, o de Ruth Gordon pelo papel de Minnie Castevet.

Polanski tornou seu o roteiro, conseguiu apelar para o freudiano em um sonho sem igual, que contrasta o real e o fantástico, que desconcerta o espectador.

Sem dúvidas, estamos diante de um dos melhores filmes de terror de todos os tempos, um longa em que o velho e até o obsoleto não têm lugar. Ele apela para o subconsciente, a nossa sensação quase animal de “estar em alerta”, como se algo excepcional fosse acontecer enquanto assistimos ao filme.