O impacto do divórcio nos filhos

· novembro 20, 2017

O número de casais divorciados aumentou muito nos últimos anos. O divórcio fornece um quadro legal que regula as relações de tal forma que todos os membros da família fiquem protegidos, mas pode ser uma das experiências mais problemáticas da vida familiar. Às vezes o procedimento é de comum acordo, embora seja habitual que uma das partes dê o primeiro passo. A família nos transmite um sentimento profundo de proteção, amor e reconhecimento. Quando ela acaba, o impacto do divórcio nos filhos deixa solidão, medo, dor ou raiva.

Um rompimento abre a porta para os fantasmas do passado. As crises refletem a nossa história pessoal e a capacidade de enfrentarmos o presente. Portanto, para cada pergunta, cada membro do casal tem uma resposta diferente. Algumas pessoas deixam de lado o ódio e o ressentimento, outras apagam bons momentos. Algumas pessoas não aceitam o que aconteceu e estão esperando uma reconciliação que nunca chega, outras tentam superar a separação com um novo relacionamento, ou com muitos e sucessivos… Como vimos, a variedade de reações é muito ampla.

No entanto, enquanto o casamento é reversível, a maternidade e a paternidade são para toda a vida. Para se divorciarem, os adultos devem assumir a dissolução do casal, mas não o seu papel como pais. As crianças não podem ser envolvidas em um clima de violência e ressentimento. Os filhos nunca devem se transformar em um instrumento: balas com as quais ferimos o outro ou mensageiros da esperança de uma possível reconciliação.

Mãe fazendo carinho em criança

Quando a guerra não termina

O divórcio não deve ser um impedimento para o exercício da paternidade/maternidade ou um processo que prejudique a intimidade, a confiança e a segurança de que a criança precisa. Os filhos não são membros do casal e não pertencem a nenhum dos pais. Portanto, não devem se tornar um instrumento à serviço da vingança, do ódio ou das disputas.

As crianças dependem dos seus pais e, embora não lhes pertençam, precisam manter um relacionamento com ambos para crescerem saudáveis. É comum ver como alguns pais afirmam ter um amor mais profundo, que é mais cuidadoso, sugerindo que o carinho do outro não é necessário. Este é um dos erros mais sérios e que pode causar muito sofrimento para a criança. As crianças precisam do contato com ambos os pais para ter um desenvolvimento emocional saudável. É um direito da criança, é um direito dos pais, para poderem desfrutar juntos.

Após um divórcio conflituoso, é comum que os pais interfiram nos relacionamentos um do outro. Nos casos mais graves, um dos dois pais negligencia o filho ou ambos o abandonam. Podem ocorrer diferentes situações, por exemplo, que o pai e a mãe abandonem as crianças, que apenas um dos pais abandone os filhos ou que o pai e/ou a mãe envolvam as crianças nos conflitos relacionados ao divórcio.

As repercussões dos conflitos no casal, nas crianças e nas relações parentais dependerão da maneira como a situação será enfrentada. Além disso, o custo emocional pode ser intensificado, dependendo de como você está tentando resolver a situação e a duração dos conflitos. Quando os conflitos são enfrentados de forma inadequada, geram insatisfação, agressão e tensão nas duas partes, causando desconforto emocional e distanciamento dos membros da família.

Pintura mostrando pai e filho

O impacto do divórcio nos filhos quando há abandono

Um divórcio implica uma grande mudança na dinâmica familiar, especialmente na relação com os filhos, mas de modo algum deve haver o abandono das crianças. O sofrimento da criança aumenta se um divórcio conflitante provocar a ausência, a inconstância ou o desaparecimento de um dos membros do ex-casal. Aceitar que um pai/mãe não está presente é muito difícil, e se torna ainda mais doloroso quando a criança entende que o pai/mãe está ausente, que não a visita ou não quer saber dela.

A criança que foi abandonada muitas vezes se apega exageradamente ao pai/mãe que se encarrega da sua custódia. É comum tentarem controlar o relacionamento e monopolizar todo o seu tempo através de comportamentos muito exigentes. Por trás de tudo isso, reside o medo de perdê-lo, um sentimento de insegurança fortemente enraizado. A aceitação da separação do pai/mãe ausente é um processo muito difícil. A criança deve se desapegar internamente. É muito comum que imaginem e sonhem com o seu retorno, idealizando o relacionamento e evitando o desapego.

Se os pais desaparecem, a criança sente que foi punida. Ela pode se sentir obrigada a reprimir todas as manifestações de hostilidade e raiva, e ainda mais, tornar-se extremamente obediente e submissa, usando a violência contra si mesma. Ou então, pode se tornar impulsiva e adotar uma posição agressiva e briguenta.

“Ter filhos não faz de você um pai, da mesma maneira que ter um piano não o transforma em um pianista”.
– Michael Levine –

Conflito de lealdades

A lealdade é um sentimento de solidariedade e compromisso que unifica as necessidades e expectativas de várias pessoas. É um vínculo, uma dimensão ética e, no caso da família, compreensão e coerência entre os membros. Geração após geração, têm existido sistemas de valores que são transmitidos de pais para filhos. O indivíduo está inserido em uma rede de lealdades familiares, onde a confiança e a competência são muito importantes.

Em muitas famílias, tais lealdades podem estar disfarçadas, isto é, não se fala explicitamente das expectativas, mas existe uma série de regras que todos os membros da família devem cumprir. É uma medida de justiça dentro da própria família, uma ética nos relacionamentos que permite a identificação com o grupo. Tudo isso implica que cada membro da família precisa ajustar as suas necessidades individuais à rede familiar.

Quando um casal se separa, e isso não supõe o fim do confronto, mas um novo marco para prolongar a disputa, as crianças acreditam que têm a necessidade de assegurar o carinho, pelo menos, de um dos pais. Isto é o que chamamos de conflito de lealdades: as crianças são pressionadas, geralmente de forma velada, para tomar partido. Caso contrário, se sentem isoladas e desleais em relação a ambos os pais. Por outro lado, se decidirem se envolver para encontrar mais proteção, sentirão que estão traindo um dos dois. Uma dinâmica familiar na qual a lealdade a um dos pais implica na deslealdade em relação ao outro.

“O melhor legado de um pai para seus filhos é um pouco do seu tempo todos os dias”.
– Battista –

Mãe abraçando seus dois filhos

A responsabilidade diante do conflito

É essencial não enviar mensagens de duplo sentido para as crianças, isto é, gerar situações onde a criança possa perceber contradições. Por exemplo, dizer para o seu filho que não se importa se ele for com seu pai, mas deixar de ser carinhosa. Neste tipo de mensagem existem “dois lados”, uma linguagem verbal e não verbal que envia mensagens de maneira confusa, de tal forma que provocam um conflito na criança. Ela percebe que não está se comportando bem, mas não entende o que está acontecendo, uma vez que é o próprio adulto quem causa o conflito emocional. Esses tipos de dinâmicas são muito prejudiciais para a saúde mental das crianças.

Um casal não precisa continuar junto até o final da vida. Se as duas pessoas e a família estão sofrendo, se um relacionamento é muito destrutivo, talvez a melhor solução seja a separação. Quando uma união causa dor, é necessário tomar decisões: pedir o divórcio ou buscar a ajuda de um profissional em terapia familiar ou de casal. No entanto, uma separação não implica desconsiderar as responsabilidades como pais ou usar as crianças contra os ex-parceiros. O processo de divórcio corresponde a duas pessoas adultas que devem agir de forma madura tentando gerenciar os conflitos e os sentimentos sem incluir as crianças. As crianças e os adolescentes precisam de apoio e proteção dos adultos para se sentirem seguros e cuidados. É responsabilidade dos pais promoverem esta estabilidade para minimizar o impacto do divórcio nos filhos.

Se o processo de divórcio se tornar muito desgastante para um dos membros do casal ou para ambos, é aconselhável pedir ajuda psicológica para receber orientação. Por exemplo, como regular as emoções, gerenciar os conflitos, tomar decisões, lidar com a responsabilidade, buscar apoio, etc. Em suma, enfrente uma nova etapa superando e fechando a anterior. Portanto, a maneira como enfrentamos os conflitos é que os torna construtivos ou destrutivos e, mais ainda, se houver crianças envolvidas.

“Exigir dos pais que estejam livres de defeitos e que sejam a perfeição da humanidade é arrogância e injustiça”.
– Silvio Pellico –