O Médico e o Monstro: o estranho caso de Dr Jekyll e Mr Hyde 

· outubro 11, 2018

Pela mente de Robert Louis Stevenson rondava a ideia de uma natureza dupla no ser humano. A ideia de que todos nós possuímos uma versão boa e outra ruim, que ambas convivem em nosso interior e que a versão ruim era reprimida pela sociedade. O resultado destes pensamentos foi a conhecida obra ‘O Médico e o Monstro’.

Trata-se de uma das primeiras obras a dar vida a um personagem com um transtorno complexo – um transtorno de personalidade e suas piores consequências. Do mesmo modo, desafia a ciência da época e a própria religião, colocando diante de nossos olhos uma história aterradora e vívida. A popularidade deste romance deu lugar a uma infinidade de adaptações no teatro, cinema, televisão, etc.

A obra apresenta uma trama muito intrigante. Através do advogado Utterson, vamos conhecer alguns acontecimentos estranhos. Stevenson vai deixando pistas aos leitores para que estes façam perguntas a si mesmos e, finalmente, graças a um manuscrito, conheceremos o surpreendente desenlace.

Você já teve, alguma vez, pensamentos considerados “ruins”? Certamente não foi apenas isso, talvez você tenha feito a si mesmo diferentes questionamentos, como: O que aconteceria se eu desse rédea solta para esta maldade? Será que temos mesmo um lado obscuro em nosso interior? A ideia desta dualidade foi tratada através de diferentes pontos de vista, pela filosofia, a psicologia e a literatura.

Bom, e se essa dualidade é o que nos faz humanos? A perfeição não existe, a bondade absoluta também não. Pensemos que o que é bom para mim, pode não ser bom para você.

A ética se encarregou de tentar aprofundar e estabelecer o que supostamente é bom e, ainda assim, apareceram discrepâncias. Ao longo das nossas vidas, todos nós já podemos ter cometido atos irracionais, incoerentes, e agido de forma totalmente inesperada. 

O estranho caso do Dr Jekyll e Mr Hyde explora, além de um transtorno de personalidade, uma série de questões sobre a própria natureza. De forma intrigante, nos cativa e funde a psicologia com literatura e filosofia; sem dúvidas, é uma obra imprescindível em todas as bibliotecas.

O Médico e o Monstro

O médico e o monstro: o bem e o mal

Repassando um pouco a nossa história, cultura, religião, etc., encontramos uma infinidade de manifestações que tentam mostrar o que é o bem e o que é o mal: exemplos que pretendem diferenciar claramente estas duas caras – separá-las.

Se pensarmos em religião, perceberemos que praticamente todas elas tentam definir e argumentar a boa conduta, castigando a má conduta e explicando as consequências de agir de uma forma ou de outra.

Como podemos definir o bem? A pergunta pode ser simples, no entanto, essa ideia de “bem” pode ser um pouco subjetiva e podemos resumi-la a: “é o contrário de mal”.

A ética é a parte da filosofia que tentou dar respostas a este tipo de perguntas ao longo da história. Assim, são vários os filósofos que tentaram responder girando em torno de uma mesma ideia: o bem é o contrário do mal.

Para Aristóteles, por exemplo, o objetivo maior é a felicidade, o bem comum para todos, algo que é alcançado através da virtude e onde a política teria um papel importante; o caminho adquire uma especial importância, não é algo imediato.

A ética hedonista, pelo contrário, foca o bem no prazer sensorial e imediato. A religião cristã vai um pouco além e identifica o bem como a figura de Deus e o mal como o Diabo. A igreja lhes dá um nome e uma cara.

O estranho caso de Dr Jekyll e Mr Hyde 

Assim, com uma infinidade de exemplos ao longo da nossa história, sempre voltamos à ideia da contraposição. Mas, o que aconteceria se o bem e o mal fossem as duas caras de uma mesma moeda? Ou seja, indissolúveis, inseparáveis, que estivessem intimamente unidas e ao mesmo tempo separadas, que não pudessem existir uma sem a outra.

Essa ideia da convivência de ambos no interior do ser humano é explorada por Stevenson em seu romance, mas dando um passo além, tentando separá-las para, finalmente, voltar a uni-las.

Cada indivíduo cresce em uma solidão e, nela, aprende os comportamentos mais aceitos e apropriados. No entanto, parece que existe em nosso interior uma natureza que, às vezes, nos faz agir ou pensar contra estas normas herdadas.

Dr Jekyll acreditava que podia separar essa dualidade, que podia romper em dois essa moeda; o que ele conseguiu foi fazer com que cada uma das partes agisse com vontade própria.

“Foi no terreno da moral e em minha própria pessoa que aprendi a reconhecer a verdadeira e primitiva dualidade do homem. Vi que as duas naturezas que a minha consciência continha podiam dizer que eram, ao mesmo tempo, minhas, pois eu era radicalmente as duas.”
– Jekyll e Hyde-

Jekyll e Hyde, a dualidade

A literatura explorou a ideia de dualidade em uma infinidade de ocasiões e com perspectivas muito diversas.

Já Dostoiévski abriu o caminho para uma literatura que explorava a psicologia humana, o mais complexo da nossa mente, em obras como ‘O Duplo’, de 1846, na qual assistimos a um desdobramento em uma mesma pessoa.

Outras obras mais recentes, como ‘O Lobo da Estepe’, também tentaram demonstrar essa complexidade, dando lugar não só à dualidade, mas para uma multiplicidade de personalidades dentro de um mesmo ser.

A história de Jekyll e Hyde explora as consequências de tentar separar estas duas caras, dando lugar a um desdobramento da personalidade; ambos são a mesma pessoa, ambos desejos e impulsos residem no mesmo ser e, ao separá-los, as consequências são enormes.

Jekyll era um “homem de bem”, um homem exemplar, distinto e em boa posição; um homem que, como todos os demais, reprimia os impulsos mais obscuros que residiam em seu interior.

Sua paixão pela medicina e sua obsessão pela ideia de separar o bem do mal de nosso interior o levaram a testar em si mesmo uma estranha porção que daria vida ao Mr Hyde; ou seja, a contraposição de Jekyll, o ato de se deixar levar pelos impulsos e pelo prazer.

Jekyll e Hyde são a mesma pessoa. Ao separá-los, as consequências são enormes.

O Médico e o Monstro: o estranho caso de Dr Jekyll e Mr Hyde 

As transformações causam não só uma divisão, mas uma busca por parte de Jekyll para satisfazer estes prazeres e desejos proibidos pela sociedade.

A descrição física de ambos os personagens é, por sua vez, significativa; enquanto Jekyll é descrito como tendo uma aparência agraciada, Hyde é descrito como um ser “das cavernas”, com um aspecto selvagem e desagradável para a sociedade.

A obra vai aumentando sua intriga e sua magia, até dar lugar ao seu espetacular desenlace, o momento em que, através de um bilhete de Jekyll, descobrimos a verdade. Mas não só a verdade acerca das posições, a verdade da natureza humana, da aceitação da impossibilidade de separar o bem e o mal que vivem em todos nós. 

Jekyll e Hyde eram verdadeiros, ambos eram iguais, mas opostos. Uma ida e volta, uma exploração da natureza humana para, finalmente, dizer que não devemos tentar separar o bem do mal; que eles fazem parte de nós e que ambas as caras compõem a nossa realidade. 

“Foi, então, a exageração das minhas aspirações, e não a magnitude das minhas falhas, o que me fez ser como era e separou em meu interior, mais do que o comum na maioria, as duas faces do bem e do mal que compõem a dupla natureza do homem… Porém, apesar de minha profunda dualidade, não era de forma alguma hipócrita, pois as minhas duas faces eram igualmente sinceras.”
– Jekyll e Hyde-