O propósito do comportamento: por que agimos assim?

18 Setembro, 2020
O que motiva o nosso comportamento? Com quais modelos podemos interpretá-lo? Como a precisão dessas análises pode nos ajudar? Neste artigo, vamos responder a estas perguntas.

Alguma vez você já se perguntou por que fazemos o que fazemos? Entre os objetivos da psicologia está o de dar uma resposta a esta pergunta; de fato, esta é uma das suas aspirações centrais. Sendo assim, hoje nós vamos identificar e definir o chamado propósito do comportamento.

Para fazer isso, falaremos a respeito do que são as necessidades básicas, da motivação e de como impor a nossa força de vontade quando nossas emoções se intensificam e nossos instintos tentam assumir o controle.

“Para fazer escolhas sábias, as pessoas devem escutar a si mesmas, seus próprios eus, em cada momento de suas vidas.”
– Abraham Maslow –

Homem jovem pensativo

As necessidades básicas e o propósito do comportamento

São vários os ramos, vertentes ou percepções psicológicas que abordam nossas necessidades enquanto espécie. Talvez a mais conhecida seja a de Abraham Maslow, um psicólogo norte-americano que as propôs de acordo com um esquema piramidal, sugerindo que, para conseguir superar um grupo de necessidades, devemos satisfazer as necessidades do nível anterior.

Segundo este autor, a pirâmide é dividida da seguinte maneira:

  • Necessidades fisiológicas. Trata de necessidades como alimentação, sono, descanso, sexo e respiração.
  • Necessidades de segurança. Segurança física, empregatícia, familiar, de saúde, propriedade privada, etc.
  • Necessidades de relacionamento. Contemplam a amizade, o afeto, a família e a intimidade sexual.
  • Necessidades de estima. Confiança, autorreconhecimento, respeito, sucesso.
  • Necessidades de autorrealização. Moralidade, espontaneidade, criatividade, aceitação de julgamentos e resolução de problemas.

De acordo com esta teoria, o propósito do nosso comportamento pode estar atrelado às nossas necessidades. Por exemplo, se não conseguirmos satisfazer nossas necessidades de segurança, nosso comportamento será direcionado para que possamos satisfazê-las. Estaríamos, portanto, motivados pelo nível das necessidades fisiológicas.

Sendo assim, todos nós compartilhamos as mesmas necessidades básicas na pirâmide. Elas, portanto, servem como propósito dos nossos comportamentos. Em outras palavras, nossas motivações estariam intimamente relacionadas aos propósitos das nossas condutas.

A motivação e o propósito do comportamento

A motivação é um conjunto de fatores internos ou externos que determinam as ações de uma pessoa. Entre outras variáveis, nosso comportamento é condicionado pela motivação. Esta motivação pode ser intrínseca, ou seja, aquela que impulsiona nosso comportamento por gosto, ou pode ser extrínseca — aquela que tem a ver com incentivos externos.

A partir desses tipos de motivação, também surgem outras classificações:

  • Motivação de êxito. Relacionada ao desejo de realização e excelência.
  • Motivação de pertencimento. Relacionada com a necessidade de fazer parte de um grupo e, portanto, estar em contato com os demais.
  • Motivação de poder. Tem a ver com a capacidade de influenciar e controlar. Também implica a obtenção de reconhecimento.

Logo, contamos com diversas fontes de motivação que variam de acordo com o grau de consciência que damos à relação entre as nossas necessidades e as nossas ações. Às vezes, por aprendizagem, esta relação é determinada pela nossa cultura ou pela nossa família.

Isso certamente depende de cada pessoa — mesmo que possamos compartilhar algumas fontes. Contudo, nem todos nós reconhecemos quais são as nossas necessidades; em outras palavras, podemos agir para satisfazer necessidades que não identificamos de maneira consciente.

A consequência disso é que, em muitas ocasiões, nós nos equivocamos na hora de identificar os vetores motivacionais que dirigem nossos atos. Em outras ocasiões, podemos até identificá-los, mas mentimos na hora de compartilhá-los com os outros.

Mulher caminhando descalça

Como não ser controlado pelos nossos sentimentos, hábitos e pensamentos?

Quando não estamos conscientes das nossas necessidades, é mais fácil nos sentirmos perdidos, estranhos em nossas próprias vidas, como se houvesse uma força superior que ditasse nossos rumos. Por exemplo, quando somos controlados por emoções de medo e vergonha, o propósito do nosso comportamento acaba se convertendo em evasão, ao passo que, quando temos emoções como a raiva ou a alegria, temos uma postura mais voltada para a ação.

Isso também acontece com relação aos nossos pensamentos e hábitos. Ou seja: traduzir rapidamente o que sentimos e pensamos ou, simplesmente, seguir a inércia causada por nossos hábitos, nos leva a compreender o que não queremos para nós mesmos.

Então, para que o propósito dos nossos comportamentos não seja determinado por estes fatores, podemos trabalhar a nossa consciência. Para fazer isso, é preciso:

  • Viver mais no momento presente. Isso nos ajuda a estarmos mais conectados. A partir deste ponto, é mais simples gerar soluções novas e melhores.
  • Meditar. Facilita a reflexão e a análise.
  • Por que ou para quem está direcionado o propósito do nosso comportamento? Perguntar isso faz com que prestemos mais atenção às condutas que praticamos automaticamente, aquelas que, em muitas ocasiões, fazem com que os outros governem nossas vidas.

Da mesma forma, podemos estar em sintonia com o nosso bem-estar ao prestarmos atenção à nossa saúde mental, física e social. Assim, seremos mais conscientes de quais são as necessidades que realmente devemos atender.

Além do mais, podemos praticar mindfulness, algo que, segundo várias pesquisas, faz com que mantenhamos distância de comportamentos sem sentido. Por exemplo, Kudesia (2019), em seu artigo publicado na Academy of Management Review, sugere que esta prática melhora a gestão de situações por causa de seus processos transformadores.

Em resumo, o propósito do comportamento é determinado por vários fatores. Em cada pessoa, este processo se dá de formas diferentes e somos capazes de segui-lo de maneira mais autêntica se estivermos conscientes do porquê de agirmos como agimos. Assim, temos mais possibilidades de nos estabelecer como condutores de nossas próprias vidas.

Kudesia, R.S. (2019). Mindfulness as metacognitive practice. Academy of Management Review, 44 (2). 405-423.

Maslow, A. (2014). A theory of Human Motivation. Floyd VA:Sublime Books.