O sonambulismo segundo a neurociência

novembro 30, 2019
O sonambulismo sempre despertou a curiosidade das pessoas, inclusive servindo para muitas anedotas e chegando a se apresentar como um atenuante na defesa de vários julgamentos criminais. A seguir, falaremos do sonambulismo a partir do ponto de vista da neurociência.

Coloquialmente, o sonambulismo é uma alteração do sono bastante conhecida. No entanto, o sonambulismo também pode ser estudado segundo a neurociência. É caracterizado por um despertar inconsciente que faz com que as pessoas andem sonâmbulas pela casa ou até mesmo pela rua.

Durante um episódio de sonambulismo, as pessoas podem simplesmente caminhar sem rumo e até realizar atividades bastantes complexas, como cozinhar ou dirigir um carro.

Esse transtorno se caracteriza por dois aspectos fundamentais:

Durante um episódio de sonambulismo, a pessoa que sofre dessa condição mostra um comportamento não controlado de maneira consciente, sem capacidade de reagir a estímulos externos e uma alta ativação autonômica (suores, taquicardia…).

Além disso, se a pessoa chega a acordar durante um episódio, o faz de maneira confusa. Por outro lado, geralmente o que acontece é que as pessoas voltam de forma espontânea para a cama e continuam o sono normalmente.

Garoto abraçando travesseiro

O sono

Para falar desse transtorno, é necessário compreender como o sono funciona. Em função do tônus muscular, da atividade cerebral e da atividade motora dos olhos, o sono se divide, principalmente, em dois tipos:

  • Sono REM (sigla para movimento rápido dos olhos, em inglês).
  • Sono NREM. O sono não REM, por sua vez, se subdivide em N1 (início do sono), N2 (sono leve) e N3 (sono profundo ou de ondas lentas).

Dessa forma, durante a noite vamos passando de uma etapa para a outra, em ciclos, sendo todas elas essenciais para o descanso. Se você quiser saber mais sobre cada uma delas, pode consultar esse artigo.

Parassonia do sono NREM

O sonambulismo que ocorre na fase N3 é classificado como uma parassonia do sono NREM, junto com os terrores noturnos e os despertares confusos.

De fato, há uma hipótese de que essas três condições sejam, na realidade, um mesmo transtorno do arousal (nível de ativação cerebral), mas com diferentes manifestações.

Uma fase de alta atividade das ondas lentas precede os episódios de sonambulismo. As ondas lentas ou delta representam uma atividade sincronizada, rítmica e, como seu próprio nome indica, lenta nas áreas cerebrais frontais e centrais. Como uma fase de alta voltagem e outra de inatividade durante alguns milissegundos.

O que acontece no cérebro durante o sonambulismo?

O sonambulismo, apesar de ser bastante conhecido por suas manifestações externas e de já ser objeto de pesquisa e estudo há mais de cinco décadas, ainda continua sendo um mistério no que diz respeito a suas causas.

Ainda assim, já foram estabelecidas várias hipóteses quanto à raiz das suas duas grandes características.

Por um lado, defende-se que se trata de um transtorno do sono de ondas lentas. No cérebro dos sonâmbulos, não parece haver continuidade do sono REM, mas sim mudanças bruscas de frequência e amplitude das ondas, enquanto nos indivíduos que não sofrem de sonambulismo há essa transição.

Quando existe o transtorno, ocorre um aumento dos despertares espontâneos exclusivamente no sono de ondas lentas, e um incremento da atividade no resto das fases.

Por outro lado, considera-se que o sonambulismo, segundo a neurociência, é um transtorno do arousal ou de ativação cerebral. A partir desse ponto de vista, o sonâmbulo se encontra entre um estado de ativação completa e um estado de sono NREM.

Ou seja, não se encontra nem completamente acordado, nem completamente adormecido. Isso implica a existência de uma ativação leve das áreas pré-frontais quando elas deveriam estar inativas. Não obstante, ainda não se sabe exatamente por que ocorrem essas alterações.

Cérebro humano

Outros dados sobre o sonambulismo segundo a neurociência

Além de tudo isso, o sonambulismo está relacionado com outros fatores: fragmentação ou privação do sono, febre, consumo de substâncias, estresse e, surpreendentemente, também com a gravidez.

Igualmente, outras patologias que podem levar a esse transtorno, como os sintomas obsessivos, esquizoides, ansiosos, depressivos ou ainda encefalopatias, comprometimento cognitivo ou enxaqueca.

Sua relação com toda essa sintomatologia levou os especialistas a criarem a hipótese de que mecanismos cerebrais como os sistemas implicados na regulação de dopamina, acetilcolina ou serotonina poderiam estar envolvidos.

Nesse sentido, ainda não existe um tratamento eficaz contra o sonambulismo. O que se prescreve são tratamentos redutores do estresse e benzodiazepínicos, como o clonazepam e outros antiepiléticos, antidepressivos e melatonina.

  • Basetti, C.L. (2009). Sleepwalking: dissociation between “body sleep” and “mind sleep”. En Laureys, S. Gosseries, O. & Tononi, G. (Eds). The Neurology of Consciousness, Second edition. (pp. 129 – 138). Elsevir Ltd.
  • Zadra, A. , Desautels, A. Petit, D., & Montplaisir, J. (2013). Somnabulism: clinical aspects and physiopathological hypothesis. Neurology, 12, 285 – 294.