Olive Oatman, a mulher da tatuagem azul e o duplo cativeiro

· janeiro 9, 2018

Olive Oatman é conhecida como a misteriosa mulher de tatuagem azul no queixo. Sequestrada quando criança pelos índios Yavapai, acolhida posteriormente pelos índios Mohave e resgatada finalmente por seu irmão, dedicou parte de sua vida a falar sobre a sobrevivência e a força do ser humano sem perceber a bagunça que havia ficado sua mente e, inclusive, em sua própria identidade.

É possível que muitas pessoas conheçam esta história. Sem dúvidas o rosto sereno de sua protagonista atrai, com seu olhar e principalmente sua singular tatuagem, onde o étnico, o selvagem, diriam alguns, se integra a duras penas com a imagem ocidental que toda boa dama educada e de boa posição costumava mostrar em meados do século XIX.

Olive Oatman sofreu duas tragédias que a marcaram por toda uma vida: primeiro a perda de sua família biológica pelo ataque dos yavapais, e depois ao ser arrancada de sua segunda família, os mohave.

No entanto, Olive Oatman não era uma dama qualquer do Arizona. Foi uma mulher que arrastou vários traumas ao longo de sua vida, alguém que tentou se adaptar e sobreviver a cada virada que o destino lhe trouxe. E sobreviveu, não tenha dúvidas, porque sua força foi algo admirável, uma odisseia que ficou imortalizada em livros como “Captivity of the Oatman Girls” (1856) ou na “A tatuagem azul: A vida de Olive Oatman”, de Margot Miffin.

No entanto, existe algo que não foi falado naqueles anos. Olive Oatman nunca se sentiu tão livre como naqueles dias em que conviveu com os Mohave. Na verdade, quase 100 anos depois, seu nome foi colocado em uma pequena cidade, um canto onde viveu aquela jovem em companhia dos nativos e onde curiosamente foi mais feliz do que nunca.

Paisagem de deserto

Olive Oatman, anos de cativeiro, anos de liberdade

Estamos em 1850 e nas terras áridas, mas sempre majestosas, do Colorado, nos Estados Unidos. Ao longo de um caminho solitário e pedregoso podemos ver uma caravana de colonos abrindo passagem com seus animais, seus carros e suas infinitas esperanças por se fixar naquilo que se conhecia até então como o “novo mundo”.

No entanto, o novo mundo já estava habitado, tinha proprietário legítimos que não iam ceder diante do desejo de conquista de um grupo de estrangeiros com ares de grandeza. Entre esses colonos estava a família Oatman, mórmons que avançavam de forma descuidada, levados pelo fanatismo de um líder espiritual, o pastor James C. Brewster. Foi aquele personagem que os levou inevitavelmente para um desastre. Nada sabiam daquelas terras, tampouco quiseram ouvir as advertências. Eram tão firmes em seu propósito e tão cegos em sua fé que não perceberam que aquela terra já tinha proprietários, uma etnia selvagem e bastante violenta: os yavapai.

Os índios acabaram com praticamente todo o grupo de pioneiros que encabeçavam aquela expedição. Depois da matança, decidiram levar duas meninas brancas como escravas: Olive Oatman, de 14 anos, e sua irmã Mary Ann, de 8. Depois do drama sofrido, algo não muito melhor aguardava as duas pequenas: tiveram que resistir a quase um ano de maus-tratos, de carência e de humilhação contínua por parte daqueles nativos que tanto depreciavam o homem branco.

No entanto, sua sorte mudou quando uma tribo vizinha ficou sabendo da história das meninas.

Índios reunidos

Essa tribo eram os Mohave. Foram eles que decidiram resgatá-las fazendo uma troca: entregaram vários cavalos e mantas em troca das meninas brancas. O tratou ficou selado, e Olive e sua irmã menor iniciaram uma vida nova, uma vida que fez um giro de 180º com relação a indigência a que estavam submetidas. Foram adotadas pela família Espanesay e Aespaneo, acolhidas por uma terra cheia de belezas, com campos de trigo e bosques de álamo onde dormiam em companhia de um povo amável.

Assim, e para demonstrar sua união com a comunidade, foi feita a tatuagem tradicional de seu povo; tal tatuagem garantia sua união com os seus no além da vida, um símbolo religioso e de comunhão com os mohave. Foram anos tranquilos, onde Olive teve a oportunidade de assumir o luto pela perda de seus pais e estreitar laços com aquela sua nova família.

No entanto, também houve tempos de dificuldades, anos de seca em que o povo passou fome e morreram muitas crianças, entre elas Mary Ann, a irmã de Olive. A ela foi permitido o enterro de acordo com sua própria religião, presenteando-a inclusive com um pedaço de terra onde Olive plantou um jardim de flores silvestres.

A tatuagem invisível de Olive Oatman

Olive Oatman tinha quase 20 anos quando chegou ao povoado Mohave um mensageiro de Fort Yuma. Tinham ficado sabendo da presença de uma mulher branca e exigiam sua devolução. Cabe dizer que esta tribo jamais manteve a jovem cativa, sempre lhe disseram que era livre para ir quando assim o desejasse, no entanto Olive nunca teve especial interesse para voltar para o que o homem branco chamava de civilização. Estava bem. Se sentia bem.

No entanto, tudo mudou quando ficou sabendo que quem pedia sua volta era Laurence, seu irmão mais novo, que ela acreditava estar morto pelo brutal ataque dos Yavapai que dizimou sua família. Decidiu ir, decidiu voltar com sua família e os mohave aceitaram a duras penas. No entanto, aquela foi uma decisão da qual Olive se arrependeria anos depois.

Olive Oatman

A mulher da tatuagem azul

Assim a chamaram, a “mulher da tatuagem azul”. Porque os trajes vitorianos com as quais a vestiram imediatamente para apagar seu passado com os índios não podiam cobrir a tatuagem que adornava seu queixo. No entanto, o que nem todo mundo sabia é que seus braços e pernas também tinham chamativas tatuagens que nunca mais voltaram a ver a luz do sol e o vento do Colorado.

Depois de sua volta à civilização, tudo foi muito rápido para Olive Oatman. Foi escrito um livro sobre sua história, e parte dos ganhos obtidos foram oferecidos para seu uso pessoal. Ela fez uma graduação na universidade e pagou também a formação de seu irmão Laurence. Mais tarde, começou a dar dar palestras pelos Estados Unidos para falar de sua experiência, dos Yavapai e dos Mohave.

No entanto, o que o livro escrito contava sobre sua história e o que as pessoas esperavam ouvir em suas palestras eram anedotas sobre a selvageria dos índios, sobre sua ignorância e inumanidade. Olive, pressionada, teve que mentir para sobreviver nesse povo que agora a tinha acolhido em uma nova etapa da vida. 

Em 1865 se casou com um rico fazendeiro. Um homem que lhe pediu uma coisa: que esquecesse seu passado, que deixasse as palestras e que, para sair, usasse um véu para cobrir a tatuagem. Assim o fez, deixando passar o tempo desta maneira, gota a gota. Ano após ano e submetida ao que foi talvez o pior cativeiro de sua vida, foi formada nela uma nova tatuagem: a dor e a lembrança daqueles anos com os Mohave, nos quais sua existência era satisfatória, livre e feliz…

Olive Oatman passou grande parte de sua vida com intensas dores de cabeça, com depressão e com estadias em clínicas no Canadá, onde tentava curar a saudade de sua família, os Mohave. Faleceu aos 65 anos.